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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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26
Dez12

O Poema Infinito (126): a noite de todas as aflições

João Madureira

 

Caminharei para perto de ti vindo de dentro da noite de todas as aflições e com a boca cheia de medo apontarei na direção da tua fecundidade e nela me enroscarei sentindo ainda o cheiro a feno e a sexo resfolgando na olorosa geada que agora começa a derreter… e acordo com o chilrear dos pássaros madrugadores que despertam ascendendo na iluminação expectante do dia… os nossos olhares alados crestam de tanta excitação… os nossos corpos incendeiam-se e mordem dentro do fogo que mantemos intacto após estes anos todos… depois da insónia e do amor o dia ainda vai ser perfeito… sinto-te a doer no desassossego da navegação… vou precisar de dormir na viagem para descansar da insónia… sonho que sou pastor e te guardo na nossa infinita adolescência que nos ensinou a vertigem da vida e faço a promessa de rodopiar indefinidamente à volta do teu corpo em forma de cometa… por isso amo as águas da ribeira e o verde dos lameiros e a imagem do mar na minha cabeça e as árduas searas centeias que sempre se incendeiam ao entardecer… e entardeço… e cicio o poema que nunca hei de escrever e que começa assim… hoje vou saciar-me na luz noturna do teu corpo embriagado e vou pegar-lhe fogo para nele acender a tua humidade e a minha humanidade… sei que conheço bem este rio e nele adivinho a liquidez do teu corpo… sinto por isso o rigor das palavras e o seu sopro de vida estelar e as suas cabeças de medusas afrodisíacas… e o desejo desenvolve-se e a saudade e a violência dos sorrisos amargos e… por isso espero a cortante ilusão da felicidade e a sua prolongada ressaca e os dias que passam ou lentos ou demasiado impetuosos… ou inalterados… ou inalteráveis… por isso luto ainda para que os sonhos não se oxidem… ou não se oxidem um pouco mais já que as utopias se estilhaçaram espalhando o seu vermelho vivo de sangue… ouço-te a ti que és o meu oráculo quando alguém me levanta a voz em vez de levantar a razão… dizem que sou o perverso pábulo dos anjos ou o bondoso maná dos demónios… por isso te ouço alisando a verdade com que me surpreendes que é em tudo idêntica à surpreendente floração das urzes, das giestas ou dos tojos… ou da alfazema selvagem… por isso afago a tua fala e a tento passar para a minha triste e hesitante escrita… para que a partir do seu silêncio de lume nomeie todas as pétalas da flor da razão… e da paixão… apesar do crepúsculo… percorro com as mãos a profecia que se ergue do teu corpo que queima devagar como o sangue… por isso vou continuar aqui arrumando a lenha do cortiço… e as pedras dos muros… e o fogo da lareira… e os astros que pendurei no céu dos teus olhos… e a florida e fresca água das fontes… e a memória da vida e de todos os atos de amor… e toda a ternura de um afago teu… e depois fico quieto à espera que o mundo se resolva a iniciar a sua metamorfose deixando para trás toda a ferocidade… por isso escrevo… e escrevo-te… aproveitando este instante de lucidez… pois nada mais possuo de meu…

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