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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Dez12

O Homem Sem Memória - 140

João Madureira


140 – O texto do Luís contava o que se segue (versão corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser o máximo dirigente da classe operária. Quero ser um líder. Um verdadeiro líder. Muito mais líder do que o meu pai que apenas dirige meia dúzia de comunistas transmontanos. Vá lá, dúzia e meia de comunistas nevoenses teimosos e muito chatos. Eu quero ser um líder da envergadura do camarada Alberto Punhal. Quero ser secretário-geral do Partido. Depois dele, claro está. Logo após o camarada se reformar. Talvez não quando ele se reformar porque parece que os camaradas secretários-gerais dos partidos comunistas não se reformam. Só abandonam o seu posto quando morrem. E mesmo assim a contragosto. Honra lhes seja feita. Por isso acho que só poderei chegar a dirigente máximo do partido comunista, da classe operária e dos camponeses, quando o camarada Alberto Punhal morrer. Mas eu não lhe desejo a morte. Longe disso. Eu faço votos para que viva muitos anos. Muitos, mas mesmo muitos, muitos. Ele é o maior dirigente da classe operária do mundo. Claro que os outros camaradas dirigentes comunistas também são bons como o caraças, mas o nosso camarada de cristal é o melhor deles todos. Isso pelo menos é o que diz o meu pai e todos os comunistas que conheço. Como o camarada Alberto Punhal não existe outro igual. Mas, como ia dizendo, eu quando for grande quero ser o líder máximo do Partido. Talvez só lá chegue quando for velho, mas não me importo. Uma vez lá é cargo para toda a vida. Basta olhar para o exemplo da União Soviética para concluirmos que os camaradas secretários-gerais apenas de lá saem quando morrem. Mas mesmo assim a contragosto, como já disse. Todos os camaradas secretários-gerais do PCUS foram substituídos somente depois de mortos: Lenine, Estaline e Khrushchev. Bem Khrushchev não, esse foi afastado por ser mau comunista, por ser frouxo, por isso não conta. Teve sorte em não ser liquidado, que era o que merecia. Pelo menos isso é o que o meu pai diz. Ainda bem que foi substituído pelo camarada Brezhnev, que também é um camarada como há poucos. Mas como é dos bons, mantém-se no seu cargo sem vacilar. E ninguém pensa em substituí-lo. É o pensas. Só sai de secretário-geral quando morrer, e a contragosto como já disse e repeti. Eu sei que ele é velho como as igrejas, bem como as igrejas não, pois é uma comparação muito pouco comunista, ele é velho como os avôs velhos, ou melhor, como os bisavôs, pois o meu avô tem 50 anos e o meu bisavô 70. E agora que falo no meu bisavô, apesar de ser velho como o Brezhnev, e quase tão desengraçado, é reacionário como o caraças. É quase tão reacionário como o Sá Carneiro e o Freitas do Amaral juntos. Acho que foi pelo facto de o meu bisavô ser tão reacionário que o meu pai se tornou comunista. Mas parece que quem tem ainda mais queixas dele é o meu avô, o pai do meu pai, que, apesar de ser por ele muito maltratado, apenas conseguiu progredir até ao socialismo democrático, dos traidores do PS. O meu avô até pode ser socialista, mas é muito boa pessoa. E muito meu amigo. Mesmo que eu venha a ser secretário-geral do Partido quando Portugal estiver já no socialismo científico, eu ao meu avô não lhe faço mal nenhum, nem deixo que outros lho façam. Levo-o para minha casa e protejo-o. Já ao meu bisavô deixo que a revolução tome conta dele, e de tudo o que é seu, e lhe faça o que deve ser feito aos reacionários. E que aqui não digo porque parece mal. Mas todos sabemos muito bem àquilo a que me refiro. Sei-o eu, sabe-o o camarada professor e sabe-o também o meu pai. Ou melhor, o meu pai é quem sabe disso melhor, pois não fala de outra coisa. O meu bisavô é o culpado de a minha mãe ter abandonado o meu pai e a mim. Foi ele quem acertou o casamento entre o seu neto e a minha mãe, que era filha de um ricaço do Porto, que era também sócio da firma do meu bisavô. Mas quando soube que o meu pai era militante comunista deserdou-o. Não só a ele como ao meu avô. O tal que é socialista mas é muito bom para mim. E não só o deserdou como fez tudo para que a minha mãe o fizesse escolher entre o Partido ou a família. Ele, o meu pai, orgulhoso como é, não só disse que não cedia à chantagem como abandonou o seu emprego muito bem remunerado na fábrica do meu bisavô, e ainda por cima se ofereceu para ser funcionário do Partido na zona mais difícil do país. Por isso aqui estamos. Eu vim com ele porque sim. Bem, vim com ele porque um dia me foi buscar à escola, meteu-me num carro e abalou por essas serras acima até Névoa. Eu sei que o meu pai até é um bom comunista, mas já não é assim tão bom como funcionário. Irrita-se muito com a propaganda, grita muito com os jovens, arrelia-se imenso nas reuniões, não gosta nada de colar cartazes nem de pichar paredes, nem é muito bom a falar nas reuniões. Então em sessões de esclarecimento e comícios é mau de mais para ser verdade. Tem muita dificuldade em escrever relatórios e sofre imenso quando o Partido o incumbe de redigir um comunicado. Ele sofre muito, coitado. Sofre porque reconhece que não foi feito para revolucionário. Arrelia-se muito com tudo. Além disso não gosta de ler. Cá para nós que ninguém nos ouve, ele nem A Verdade lê. Eu sei que sublinha os editoriais, mas se repararmos bem ele sublinha tudo. Ora quem sublinha tudo é porque não consegue distinguir as ideias principais das secundárias. Bem, eu sei que os editoriais d’ A Verdade não têm ideias propriamente secundárias. São todas principais, não fosse o editorial sempre escrito pelo camarada Punhal. Mas, mesmo assim, umas ideias estão lá para dar enfase às outras. E são essas que devem ser sublinhadas. Mas ele não, corre tudo a sublinhado. É a sua maneira de respeitar o Partido, o jornal e o camarada secretário-geral. Ele diz-me que pode não chegar sequer ao Comité Central – aqui que ninguém nos ouve, tomara ele ser selecionado para a Direção Regional do Norte –, mas que eu, se me portar bem e aprender muito na escola de pioneiros e nas outras escolas do partido que se seguirão, posso muito bem chegar a líder da classe operária. Pois ele sabe da minha capacidade organizativa, quase tão boa como a do camarada Alberto Punhal quando dirigia a juventude do Partido na clandestinidade, da minha determinação, da minha firmeza ideológica, da minha capacidade de estudo, da minha habilidade de persuasão, como é o facto de eu ser o maior vendedor de jornais da organização distrital e da minha capacidade natural para a liderança, como se evidencia na prática semanal aqui na nossa escola de pioneiros. Sou eu que lidero a célula ideológica da escola. Apenas uma coisa ainda não consegui: eliminar a irritante oposição do camarada pioneiro Miguel, que me derrota sempre nas simulações da guerrilha revolucionária. Ao João já o conquistei para o meu lado, a camarada pioneira Lídia vai a caminho, e só ainda não deu a volta porque detesta o camarada pioneiro João. Não é tanto por ele, mas antes porque os seus pais não se dão. Isto apesar de serem colegas de profissão, terem frequentado a mesma universidade e serem militantes do mesmo partido. Mas eu tenho de derrotar o camarada pioneiro Miguel, custe o que custar. Ele é o maior entrave ao bom desenvolvimento das aulas, da escola, e, sobretudo, à minha liderança. Foi ele o responsável pelo facto de a turma ter escolhido para chefe a camarada pioneira Lídia. Foi ele quem antes da votação ameaçou todos os camaradas pioneiros de que se não votassem na camarada pioneira Lídia eram pioneiros mortos, ou mancos, ou com os dois olhos à belenenses. Eu sei que se a votação tivesse sido por voto secreto, e não pelo método de braço no ar, eu tinha ganho. Por isso é que propus o voto secreto. Mas o camarada professor, e bem, diga-se de passagem, lembrou que isso era infringir os estatutos do Partido. Agora para terminar, lembro o que disse no princípio: eu quando for grande quero ser secretário-geral do partido comunista. E como até a mais longa marcha começa pelo primeiro passo, como muito bem disse Mao Tse-tung, o meu passo inicial para conseguir lá chegar vai ser o de derrotar o camarada pioneiro Miguel, que nem é pioneiro, nem comunista, nem nada. É apenas um reacionário, e ainda por cima pobre, que é a forma mais miserável de se ser reacionário. Para isso, tenho de me aliar ao camarada pioneiro João, que, mesmo não parecendo, é também extremamente ambicioso, e à camarada pioneira Lídia, que sofre do mesmo mal, mas sabe disfarçar isso muito bem. E ao camarada professor José peço-lhe o maior recato para que isto fique entre nós, pois quando eu chegar onde quero chegar, o camarada, e amigo, penso eu, terá um lugar certo ao meu lado. O lugar que lhe convém e que também merece. 

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