Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

O Homem Sem Memória - 142


142 - O texto do, ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel rezava assim (versão ortograficamente muito corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero continuar a lutar contra o camarada pioneiro João e contra o camarada pioneiro Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e ter do meu lado a camarada pioneira Lídia. Nada mais me interessa. Ou quase. Eu sei que nasci para lutar e vencer e também sei que eles os dois nasceram para lutar e perder. Mesmo com ajuda, como é o caso da atitude do camarada professor que sempre os escolhe para dirigir seja o que for nesta escola. O camarada professor, desculpe que lho diga, tem-lhes é medo. Não é bem medo deles mas sim dos seus pais. Eu até o compreendo, camarada professor, mas deixe que lhe diga que não aprecio a sua atitude. O camarada professor José pode até ter medo deles. Isso é lá consigo. Cada um tem os medos que merece e sabe as linhas com que se cose. Mas eu não tenho medo, nem deles, nem dos pais deles, nem dos avós deles, nem dos tios deles, nem dos primos deles. Eles são uns perdedores. E desde já lhe digo uma coisa, o socialismo nunca triunfará em Portugal se aqueles dois estiverem do lado da revolução. Porque eles, volto a repetir, são uns perdedores. E também porque eu não gosto deles. Se eles estiverem do lado da revolução eu estarei do lado da reação e eles perderão e a revolução perderá e o camarada professor José também perderá se estiver do seu lado. Fuja deles, camarada professor, pois ao seu lado só lhe resta a derrota, a vergonha e o fuzilamento. Para lhe ser simpático, até porque o camarada professor José é simpático para comigo, pelo menos quando os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, não estão por perto, eu até gostava de estar do lado das tropas revolucionárias, mas isso apenas no caso dos camaradas pioneiros Luís e João – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, estarem do lado oposto. Mas como sei que isso é praticamente impossível, só vislumbro uma saída: o triunfo da reação e a derrota do Partido Comunista. Não há outra saída, pois eles são uns perdedores. Comigo perdem sempre. E em tudo. Até no jogo de ver quem mija mais alto ou mais distante. Eu apenas me rio e olho para eles. Eles limitam-se a ir para longe de mim chorar. Eles choram muito. E quase sempre de raiva. A mim têm-me uma raiva de morte. Eles tentam todos os jogos para ver se me vencem. Além de tentarem a artimanha de cá na escola me porem do lado da reação para o camarada professor me obrigar a perder. Eles utilizam as mais variadas estratégias para me iludirem, pensando que, por eu ser filho de um trolha, me enganam. Mas são eles que se enganam. Porque o meu pai pode ser trolha, mas eu não sou. O meu pai pode ser burro, mas eu não sou. O meu pai pode ser bêbado, mas eu não sou. O meu pai pode ser comunista mas eu não… O meu pai pode bater na minha mãe e tratá-la mal, mas eu não bato nem trato mal a Lídia. O meu pai pode ser vencido nas discussões políticas e partidárias, mas eu nunca perco uma discussão, seja ela política, futebolística ou lá o que for. Quando me faltam os argumentos, olho bem nos olhos do adversário e digo-lhe que ou se cala ou lhe vou aos cornos. Se for avisado, normalmente cala-se, se não for pior para ele pois é certo e sabido que vai parar ao hospital para tratar dos ferimentos. Os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, já tentaram várias artimanhas para ver se me davam a volta. Já me colocaram de chefe índio e eles de soldados do Sétimo de Cavalaria e perderam. Já me colocaram de cobói ladrão de gado com a cabeça a prémio e foram eles que foram parar à cadeia e depois à forca. E só não os enforquei num pinheiro alto porque a camarada pioneira Lídia mo implorou banhada em lágrimas. Ela que raramente chora. A camarada pioneira disse-me que me dava tudo o que eu quisesse. E eu perguntei: “Tudo, tudo?” Ela disse que sim. “Mas tudo, tudo mesmo?”, insisti na pergunta. Ela disse que sim pela segunda vez. Então dei-lhe um beijo e a camarada pioneira Lídia disse-me que o resto ficava para depois. Eu, um pouco a contragosto, concordei. E concordei porque gosto dela e sei que ela cumpre as promessas. Eles, os tais camaradas pioneiros perdedores, ainda tentaram uma outra estratégia, esta bem malvada, a de me porem do lado dos nazis. Eu, para lhes provar que lhes ganho sempre independentemente do lado em que esteja, aceitei o desaforo. E o desafio. Mas, mesmo contra a minha vontade, voltei a ganhar-lhes. O instinto foi mais forte que a inteligência. Esta foi a vez que mais me custou. Ou melhor, esta foi a única vez em que não senti orgulho em vencê-los. Mas fiz das tripas coração e venci-os como sempre. Cada um é para o que nasce. E eu nasci para lutar contra os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e vencê-los indefinidamente. Eles experimentaram mesmo o xadrez, mas nem nisso me venceram. Camarada professor José, antes de terminar este texto, vou-lhe contar um segredo: hoje é o último dia que venho à escola de pioneiros, pois o meu pai vai sair do Partido. Vai inscrever-se no verdadeiro Partido Comunista: o Reconstruído. Um partido com muitos menos militantes mas com muito mais fundamento. Eles detestam os revisionistas, chamam-lhes até sociais-fascistas. O meu pai foi convidado para dirigente da classe operária. Ele aqui no Partido é apenas um militante de base. É apenas mais um operário. Lá vai ser dirigente. Foi para isso que foi convidado: para dirigir a classe operária de Névoa e arredores. Esse tal Partido Comunista Reconstruido é pequenino, quase com o mesmo número de militantes pioneiros que existem nesta escola. Mas tamanho não é qualidade. A maioria são estudantes, acompanhados por meia dúzia de professores, um bancário e agora um trolha, o meu pai, que é a modos como um dirigente proletário de raiz operária e camponesa, pois os meus avós são agricultores pobres como Jó, mas o meu pai já chegou a trolha de primeira. A minha mãe disse ao meu pai que o que eles querem é gozar com ele, pois não entende, nem acredita, que os filhos dos burgueses de Névoa sejam comunistas, reconstruídos ou não, e muito menos que o queiram para dirigente. “Eles querem é gozar contigo, como gozam no Jardim das Freiras com os bêbados e os tresloucados”, disse-lhe ontem à noite a minha mãe antes de se ir deitar para não levar um par de bofetadas, pois o meu pai já estava tão bêbado que não conseguia levantar-se do banco, se não tombava no chão como um saco de batatas. O meu pai contou-me então o que lhe estou agora a contar, mas disse-me para guardar segredo. Mas eu ao camarada professor José não tenho receio em lhe contar o que lhe estou a contar pois sei que é de confiança e um homem de palavra, tal e qual a camarada Lídia. Agora posso finalmente dar largas ao meu instinto ganhador sem problemas ideológicos. Não é que isso me interesse, mas a partir de amanhã vou poder ganhar aos camaradas pioneiros revisionistas e sociais-fascistas do lado da revolução e dos verdadeiros revolucionários. Esses camaradas pioneiros merdosos, e medrosos, que se cuidem. O camarada Miguel Che Guevara Estaline vai fazer a revolução total contra os traidores revisionistas e sociais-fascistas ao lado dos comunistas reconstruídos, os verdadeiros defensores da classe operária. Eu até pensei em convidar a Lídia a entrar na clandestinidade e a inscrever-se no Partido Comunista Reconstruído, mas ela disse-me que não podia. Os seus pais iam morrer de desgosto e de vergonha. Eu não insisti. Gostar de uma pessoa tem destas coisas: o respeito. Pensei ainda em convidar o camarada professor José para dirigir a escola de pioneiros comunistas reconstruídos, mas logo desisti porque sei que a militância dos comunistas reconstruídos apenas possui um descendente, que sou eu. Espero que me perdoe, mas quando formos mais, eu vou à sua procura para lhe renovar o convite. Até lá, um grande abraço solidário. E solitário também. Não se esqueça que mais vale só que mal acompanhado.


publicado por João Madureira às 07:45
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