Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Pérolas e diamantes (20): A Coragem e a Esperança


Há na nossa terra muita gente que deplora algum do desperdício da nossa maneira de estar, que se situa entre a sobranceria e o humor. Eu aprecio-a. Aprendia ao longo da vida no seio familiar e nos livros que fui lendo. Por isso me delicio com as observações finas, com o sentido de humor e as frases memoráveis que cada vez mais vão caindo no esquecimento desta sociedade que alguns apelidam do conhecimento.

 

Mas nisto de definições, como noutras coisas da vida, cada um deve ficar com as que mais lhe aprouver, que eu também cá vou andando com as minhas às costas. E até hoje tenho aguentado razoavelmente a carga. A carga e a descarga, diga-se em abono da verdade.

 

Atualmente já ninguém, ao que parece, se preocupa o suficiente com o facto de que tantas palavras tolas andem a sobrar. Mas é bom que elas cheguem, e, por vezes, até sobrem, para o que der e vier.

 

Ao que parece, não fomos nós que inventámos o provérbio de que para palavras loucas orelhas moucas, ou algo pelo estilo.

 

Nós não temos dúvida absolutamente nenhuma de que sabemos sempre, e em todo o lado, toda a verdade acerca dos outros. Outra coisa é sabermos a verdade acerca de nós próprios. Ou sequer admiti-la.

 

Nós, todos nós, pessoas honestas, respeitáveis e distantes de quase tudo o que cheire a realidade, estamos sempre predispostas para acreditar que aquilo que vemos nos outros não passa de manobras de intriga e maquinações.

 

Claro, estimado leitor, que não me refiro apenas a si, mas a toda a cidade. Nós temos um entendimento mais cético e positivo das coisas e até de como os factos se desenrolam neste nosso pequeno burgo.

 

No fundo, a nossa terra é um ninho, ou de néscios, ou de lacraus. Por isso temos de dar cotoveladas uns nos outros, de fechar os olhos, de baixar a cabeça, de, como diz o povo na sua ironia prática, casar a monja com o monge, em caso de necessidade, para que o mundo continue a rodar.

 

E desta forma se vai desgastando a maior parte da nossa prestigiada inteligência, a passiva pelas cadeiras dos cafés e a ativa pelas cadeiras do poder. E então toca de os que têm poder descascar na oposição e vice-versa, numa modinha que nunca dá bons frutos nem consegue criar nada de bom.

 

No fundo, vamo-nos encarniçando com as falhas recíprocas, especialmente com as dos que nos estão mais próximos, não nos dando conta que quando os desacreditamos também nos desacreditamos a nós.

 

É bom que nos consciencializemos que quando estamos permanentemente a lançar aos tubarões as pessoas que nos podem ajudar, acabamos também por lançar borda fora as suas ideias e os nossos ideais.

 

Fui criado num tempo em que existia o preconceito de falar. Ou dito de forma mais clara, subsistia o prejuízo de falar verdade. Agora vejo que se instalou entre nós o preconceito de escrever. Pelo menos de escrever assinando por baixo com o nome verdadeiro.

 

Basta dar uma olhadela nas redes sociais para nos darmos conta da ignomínia que por lá grassa. Há mesmo gente importante da nossa praça que se disfarça debaixo do ridículo manto de quatro ou cinco identidades diferentes para publicar notícias onde é o artista principal, distribuindo prebendas, sorrisos e abraços. Mas, nestas como noutras coisas, as atitudes ficam com quem as toma. E a verdade virá ao de cima como o azeite.

 

Todos sabemos que muito pouco daquilo que existe dentro de nós é passível de ser escrito de forma a que possa ser corretamente transmitido aos outros. E, o que ainda é mais frustrante, apenas uma porção menor dessa mensagem chega ao seu destino.

 

Mas continuamos a falar, ou a escrever, convictos de que a luz da razão irá iluminar as nossas almas tão sequiosas de verdade, transparência e esperança. Dizem, e todos queremos acreditar, que a esperança é a última a morrer. E se morrer que morra de pé como as árvores.

 

A não ser assim, o que será da nossa vida! Então se cada um começar a meter a viola no saco, o que é que nos fica? O que é que nos resta?

 

Não podemos trocar as palavras nem a razão, mesmo que isso seja difícil. Todos sabemos que é nos momentos de grande fracasso – como são disso exemplo cabal a gestão autárquica concelhia e a gestão governamental nacional – que somos acometidos pela tentação de desistirmos, de esquecermos, mal tenhamos ocasião.

 

Mas não podemos desistir. Devemos deixar correr com fluência toda a sinceridade, alguma dela mesmo inútil, que carregamos dentro das nossas almas, mesmo que o outro se mostre de início indisponível para receber uma pobre palavra que seja, vamos aguentar com resignação e alguma perseverança, e deixar que as leis ocultas da sobrevivência da razão tragam novamente a predestinada aproximação humana.

 

Vamos desta vez, apesar das disputas e das discórdias, mostrar que somos capazes de nos unir em favor da nossa terra e das nossas gentes.

 

Deixo-vos, a terminar, dois premonitórios versos de Joaquim Pessoa:  E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.


publicado por João Madureira às 07:45
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2 comentários:
De Anónimo a 14 de Janeiro de 2013 às 13:23
Caro amigo
Veio-me à memória uma frase batida...
"Quem com ferros mata ,chegará o dia ,que com ferros também morrerá"
Integro e corajoso.
Se forem inteligentes aproveitarão as tuas ideias. E de graça!
Cumprimentos desta anonyma.


De A.Cruz a 14 de Janeiro de 2013 às 23:54
Sinceramente caro amigo acredito nas tuas palavras. Também te digo que deixei de acreditar em muita coisa. Posso dize-lo sem qualquer complexo ou problemas de consciência.
Quando a "palavra" falta e os valores se alteram porque não rasgar o compromisso?
Ainda acredito que haverá Flavienses interessados em lutar pela nossa terra só porque acreditam nela!
Se assim for só temos que apoiar com coragem e esperança.

Abraço


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