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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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23
Jan13

O Poema Infinito (130): o centro do silêncio

João Madureira

 

Estou no centro do silêncio, aí onde nascem as frases e começa o pensamento. Já tenho idade para isso. Olho essa nova realidade de várias formas, comparando-a com os mapas de viagens assustadoras que trago inscritos na palma das mãos. O medo aproxima-se com delicadeza. O medo tem esse talento fabuloso da zoologia. Presto atenção à luz. Todos somos suas vítimas. A luz desce criando coisas extraordinariamente simples. Tenho-te dentro da cabeça, perto dos nomes de todas as coisas. E olho com rapidez para o teu vagar. Os teus olhos são uma paisagem escrita de sinais permanentes onde tudo começa e acaba. Amanho o poema como as estações trabalham as paisagens. Tudo se precipita. Possuo uma inclinação pelo sentido enigmático das coisas, pela misteriosa verdade de acontecermos, pela vertigem das armadilhas, pelos rostos oblíquos dos amantes, pelo equilíbrio das trevas, pela luz imóvel da energia, pelo rosto teatral de Deus, pela eternidade da abdicação. Todas as formas de vida morrem dentro da sua mutação. Plantas brancas enchem o tempo de indícios. Daí nascem as metáforas da paixão e os símbolos do amor e as frases que abdicam dos seus sistemas de imagens. Por isso as portas se abrem ao estio e deixam entrar na casa eterna os enredos do outono, as lentas estrelas da noite que alguém deposita na arca da roupa onde o brilho da saudade se dobra em pranto. Respiro a energia do vento. A água palpita-me na boca. Tento apanhar a memória. O tempo deposita todo o seu queixume no meu corpo dorido, revolvido pelo medo e pela angústia. O ar arqueia-se. As mãos gravitam em volta das palavras. E as palavras agarram-se-me às mãos e aos pés iluminando-me o corpo. A casa pega fogo. Dentro dela o medo verga-se à lenta inquietação das labaredas. O sonho é um veneno branco que estrangula o sono. Sinto agora a afetuosidade que alimenta a magnificência da alucinação. A casa recua. Lá fora a lua brilha nas clareiras. Por cima das florestas passam os cometas como cavalos loucos. As folhas das árvores ressumam de luz. O sexo brilha agora sobre as mãos, como um fruto maduro. A insónia agrava-se. Visões de demência tornam o tempo nu. A claridade rápida enche de violência radial a manhã. A casa treme. A insónia oscila. O sexo vibra. As mãos ondulam. Sou de novo uma criança perpétua. Um astro dentro de um recinto onde balançam os sorrisos. Amo-te em braçadas de luz. Tens a energia descendente dos desfiladeiros. Por isso sofro dentro da tua vertigem. A infância desaparece filtrada pelas vidraças da janela. Os corpos fecham-se. A noite descentra-se. Fico dentro da tua memória. O amor arde devagar. A casa levanta-se transformando-se num grito de paixão. A tua voz procura-me. E nela as palavras voltam a florir. Cercamos os pensamentos com os nossos corpos iluminados. O teu sorrido tem a imensidão da terra. Dizes: Todas as coisas boas nascem em campos fecundos. E ainda: O espírito das árvores cresce para alumiar a razão. A minha voz confunde-se com a tua. Possuem a mesma brancura fria. Começa outro tempo. O tempo do espanto que diz que a poesia se constrói contra o desejo da carne e contra o passar do tempo, porque os quer possuir. Eis chegada a idade de ignorar os mistérios. 

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