Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

O Poema Infinito (132): delírio


Abre-se o vazio mesmo em frente das montanhas melodiosas. Eu sei calar a voz do amor. Aprendi-o de pequenino. Conheço quem amo pela cadência do pensar. Por isso, quando me inquieto, sobreponho a fala ao desejo. E eu desejo-te tanto que passo a noite a falar. Quando me calo tento pensar nas consequências desse delírio. Por isso cai-me das mãos a embriaguez do tempo, a insónia da noite e o trompete alucinatório de Miles Davis. E eu ali a olhar para os pedaços de grãos de luz com que o sol ilumina o teu olhar. E choro por sinais, como se quisesse enganar a distância que separa o meu corpo do teu corpo, o som do sangue que nos corre nas veias e a lucidez dos caminhos que avançam pelo meio das chamas como os lamentos dos felinos. E as nossas mãos cantam uma canção de embalar. E cantam ainda mais quando a lascívia regressa ao seu pânico solitário, lá onde a terra se enraivece, lá onde as raízes mortas ressuscitam, lá onde se transpira cada gota de desejo, onde ninguém recua perante as evidências, lá onde a memória fixa todo o amor suspenso como os jardins da Babilónia. Afinal o muro da indiferença move-se e os sentimentos dos néscios regressam em pânico ao seu lugar de origem. Mulheres arregaçadas dentro dos seus silêncios gozam a distância das nuvens e sibilam a metáfora dos seus cios e galopam cavalos memoráveis. Aos ciumentos ardem-lhes os olhos, aos loucos inflamam-se-lhes os vocábulos, por isso todas as palavras doces chegam dentro de naus carregadas de semântica. A multiplicação linguística é um milagre que mata a fome aos gigantes. Alguém grita dentro da sua rouca limpidez anunciando um parto delicioso com dor. Arde-nos a boca porque se alimenta de gestos suspensos. Todas as divindades sobram dentro da sua razão aparente. Dormimos no limiar do sonho. Acordamos no meio de uma ilha em chamas. O pânico tem o sabor da fruta do pecado. A febre é um incêndio que flutua dentro das nossas línguas. Voltamos ao caminho do medo. O sonho é uma máquina de contemplação onde o próprio medo se espanta com a voz fria das memórias. As palavras voam despedindo-se dos seus sentidos em busca da sua prometida liberdade. E choram quando ficam prisioneiras da ilusão. Os poemas são suturados com lágrimas copiosas e tornam-se impiedosos. Então choram gritando inclinados sobre os nossos corpos. As nossas bocas incendeiam-se com a mesma ternura com que se beijam. Por vezes repousam no seu riso. Por vezes fingem que descansam. Por vezes enrolam-se dentro das suas incertezas. A ternura nasce do chão e aponta na direção patética do infinito. A nossa fome de sexo fixa-se dentro da sua certeza de fresca ansiedade. A fé no tempo traz muito desperdício. Por isso as semanas se dobram umas nas outras. As almas confundem-se no mar. Está uma manhã de vento. As ondas invadem-nos o quarto. O sol torna-se vagaroso. O mar conquista tudo com a sua energia insólita. Comemos as palavras, moemos as sílabas, mastigamos os sonhos. Toda a gramática emerge dentro do seu pânico votivo. As árvores encolhem-se. O tempo soluça. Plantas novas nascem-nos nas mãos. Todo o trabalho que dá o amor aflora aos nossos olhos. Encontramo-nos na parte lírica da vida, por isso devoramos o silêncio e mudamos de cor como os camaleões. Aparecemos vindo da parte real da emoção com as louváveis maneiras dos amantes. Alguém semeia sorrisos nos campos. Uma chuva miudinha ajeita a água aos sonhos. Uma canção antiga enche-nos os sexos de ternura. Os nossos corpos bebem luz. Deitamo-nos em cima de palavras e adormecemos amando-nos devagar como quem chora baixinho de prazer. 


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Outubro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9

19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (427): O d...

. Olhares

. Olhares

. 413 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. Músicos

. Poema Infinito (426): O t...

. ST

. O Ferreiro

. 412 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (425): A h...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 411 - Pérolas e Diamantes...

. No jardim

. No elevador

. No museu

. Poema Infinito (424): A r...

. AR

. No museu

. 410 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Interiores

. Interiores

. Poema Infinito (423): O p...

. Interiores

. Interiores

. 409 - Pérolas e Diamantes...

. No Porto

. Passadeira de flores

. Passadeira de flores

. Poema Infinito (422): O v...

. Passadeira de flores

. Na igreja

. 408 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. No Barroso

. Sorriso

. Poema Infinito (421): O d...

. No Barroso

. Sorriso

. 407 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (420): As ...

.arquivos

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar