Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 146

 

146 – O José foi formalmente dispensado das suas obrigações partidárias e compelido a cumprir uns meses de militância unitária, frente que andava muito descurada, quer pela deserção dos militantes mais sérios, que já não conseguiam disfarçar por mais tempo a sua militância comunista, quer porque a gente que por ali se encontrava ao deus dará era realmente sensaborona, titubeante e muito complicada de gerir, quer no espaço político propriamente dito, quer dentro do seu núcleo social.


O José detestava-os, não porque possuíssem a estranha mania da independência, mas porque faziam disso uma máscara para se protegerem especialmente dos ataques da esquerda e também para não serem hostilizados pela direita, onde tinham os amigos ou maior parte dos familiares. Afirmando-se de esquerda, davam-se bem com a direita e inclinavam-se para o centro.


Além da sua versão independente na associação de estudantes do Liceu, o José vestiu este seu novo fato unitário para conceder a si próprio um ar mais credível. E, de facto, cresceu em prestígio aos olhos da sua querida amiga Isabel, que, bem vistas as coisas, era o que mais lhe interessava no momento.


Por isso dedicou-se ao trabalho associativo com muito afinco, organizando principalmente sessões e eventos culturais. E cumpria as tarefas com satisfação. Quando calhava estar por perto a sua querida presidente, o prazer era redobrado. À falta de melhor tática, tornaram-se companheiros inseparáveis que estudavam emparelhados, passeavam muito e até se apalpavam e beijavam com tanto afinco que não era raro terem orgasmos simples e sinceros que lhes sabiam pela vida. No entanto, que nós saibamos, nunca chegaram a vias de facto, mas andaram lá muito perto. E foi isso que estragou tudo.


A Isabel, prudente como era, travava sempre a tempo. Ou melhor, refreava o José quando ele já estava tão empenhado no ato que nem dava conta que a Isabel fechava as pernas para lhe impedir a ousadia. Quando finalmente se apercebia da conjuntura, barafustava muito, mas sempre em vão. A Isabel prezava, e protegia, a sua virgindade com toda a perseverança de mulher de princípios. Não queria perder a sua independência, não queria ficar presa a alguém vítima de um ato irrefletido. Para casar ainda era nova e primeiro tinha de tirar um curso para poder escolher com quem queria viver a sua vida. E esse alguém, quando a levasse, “tinha de a levar inteira”, como gostava de afirmar.


O José porfiou e tornou a porfiar, chegando a confessar-lhe que a amava muito, que queria casar com ela, que mais isto e mais aquilo. Mas a Isabel, quando chegava o momento decisivo, fechava as pernas e dava por terminada a sessão. O José ficava colérico e, muitas das vezes, desorientado. Explicava que lhe custava sair daquele tipo de situações sem sofrer. Contava-lhe que sofria como um cão. Não terminar o ato deixava-o quase sem ar, vermelho e ofegante. Mas a Isabel não cedia, contrapondo que também ela sofria de um mal muito parecido, mas que nestas coisas do amor, quem fica com as marcas e as sequelas são sempre as mulheres. Ele disse-lhe que quando vinha ter com ela trazia sempre no bolso um preservativo, que por isso nada tinha a temer. A Isabel sorriu e disse-lhe que com ela o prazo de validade da camisinha ia ser ultrapassado, com toda a certeza. Ele explicou-lhe que tinha comprado não só um mas uma caixa deles. Ao que ela respondeu que ele era um rapaz com expectativas muito elevadas, mas que nestas coisas do amor carnal é preciso a concordância do par. Ele apelidou-a de conservadora e reacionária, que os tempos que viviam atualmente eram de liberdade, fraternidade e igualdade e que por isso mesmo estava na hora de destruir alguns tabus, nomeadamente esse da virgindade. Ela então perguntou-lhe se era virgem. Ele disse que não. Que não era homem para lhe dizer que a virgindade era um tabu e um mito reacionários sendo ele virgem. Ele era lógico. Ele aliava a teoria à prática. Ele era científico. Mesmo não parecendo, era um revolucionário coerente. A Isabel respondeu-lhe que também ela era coerente, mesmo não sendo revolucionária. Que para si a virgindade era como um escudo protetor. Era uma coisa que se partilha apenas com alguém muito especial. Era a prova de fogo do amor. Ele então perguntou-lhe se não o amava. Ela sorriu. Ele voltou a perguntar. E ela voltou a sorrir. Ele insistiu na pergunta mais uma vez. Ela então respondeu-lhe que sim, que o amava, mas que ainda não sabia se o amava o bastante para lhe dar o que pretendia. Ele beijou-a e tornou a beijá-la. Beijou-a copiosamente e com benefício. Ela respondeu na mesma moeda. Engalfinharam-se com muito empenho e com intensa loucura. E estiveram naquele enlevo de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito tempo bastante para atingirem o ponto de ebulição. O José então pegou no preservativo, colocou-o como ensinavam as regras das boas práticas sexuais e mais uma vez tentou. E tentou. E voltou a tentar. Mas as coxas da Isabel, depois de fechadas, eram como as portas da gruta do Ali-babá, só uma palavra mágica as podiam desatravancar de modo a deixar que lá penetrasse quem devia penetrar. E, pelos vistos, nem o José era o Ali-babá e muito menos sabia a palavra mágica que abria o que devia abrir.


O José, vendo que mais uma vez dali não levava nada, foi-se embora prometendo que era um adeus definitivo. Que não estava para aturar mais atitudes preconceituosas da Isabel. Ela então encolheu-se dentro do seu desejo, e da sua desilusão, e disse-lhe que se fosse embora o mais rápido possível, que ali já não fazia nada. Que o seu amor era como uma ejaculação precoce. Quem declara que pensa em amor mas apenas pretende sexo, não passa de um animal vítima dos seus próprios instintos. Depois chorou. Ele então guardou o seu desejo no sítio recomendado às pessoas sensatas e tentou beijá-la de novo, mas foi parado com um grito tão intenso que até o cão da vizinha se pôs a ladrar com se tivesse visto um salteador. O José ficou sem pinga de sangue. E foi-se dali tão desgostoso como quando acabou de ler o livro de poemas “Só”, de António Nobre, que o próprio autor definiu como o livro mais triste de Portugal.


Escusado será dizer que o seu trabalho unitário na associação de estudantes acabou mesmo ali. E sem honra nem glória. 


publicado por João Madureira às 07:45
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