Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Pérolas e diamantes (27): a tempestade e a bonança ou vice-versa…

 

Já a minha avó me dizia: Para perdoar tudo, precisamos de compreender. E eu bem queria compreender porque foi necessário gastar tanto dinheiro na cidade de Chaves e ela estar cada vez mais degradada. Eu bem queria compreender porque se destrói um jardim e em seu lugar se coloca um lajedo tão impessoal e frio que dá pena. Eu bem queria compreender porque se gastaram 500 mil euros na requalificação do Jardim Público e os melhoramentos se limitaram ao abate de árvores centenárias e à destruição de vários canteiros de flores. Eu bem queria compreender porque se levantou duas vezes o piso da Rua de Santo António e postaram lá umas cestas de plástico de um mau gosto inexplicável, para ficar igual ou pior.

 

Eu bem queria compreender porque se gastou uma pipa de massa na construção da pomposamente denominada Plataforma Logística e ainda no famigerado Mercado Abastecedor, em Outeiro Seco, para atualmente estarem completamente abandonados. “Atualmente” é uma maneira de dizer, pois é bom que se lembre que desde a sua construção estes “elefantes brancos” estiveram sempre vazios.

 

Eu bem queria compreender estas e outras coisas que fizeram à nossa cidade, mas não consigo. Não consigo eu, não conseguem os estimados leitores e, estamos em crer, nem mesmo os mandantes de tais dislates o compreendem.

 

Também em Chaves, as exceções são mais do que as regras e as palavras tontas dos nossos autarcas mais do que as mães. Mas numa coisa temos de dar-lhes razão: na sua teimosia em conseguir que o nosso concelho regredisse umas décadas. Aconteceu-lhes o mesmo que aos burros. Eu explico. A população puxou por eles de dianteira, como manda o bom senso. Só que aos burros, se queremos que eles andem para a frente, é preciso puxar-lhes pelo rabo. Enganámo-nos. Enganaram-nos. Mas já aprendemos. Pelo menos o seu jeito e a sua manha.

 

Uma pessoa que me quer bem disse-me que é bom que me liberte de sarilhos. “Que sarilhos?”, perguntei-lhe. “Da política”, respondeu-me sem pestanejar. “A política é sempre um sarilho.” Eu disse-lhe que para esse peditório já dei. E, a propósito, citei-lhe o político americano Eugene MacCarthy: «Estar na política é parecido com ser treinador de futebol – tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de julgar que se é importante.» E eu de futebol não percebo nada e muito menos quero ser treinador seja daquilo que for. A mim já me basta o que me basta.

 

Por isso nos identificamos muito mais com os movimentos da sociedade civil que fazem manifestações apartidárias. Ali as expressões que dizem respeito aos sentimentos de indignação por parte das populações são genuínas.

 

É urgente restaurar a confiança como o valor mais importante das instituições públicas. É necessário colocar à frente das autarquias gente de coragem, gente honesta e trabalhadora e que tenha, acima de tudo, espírito de missão. E por aqui me fico. Ou me queria ficar, não fosse essa pessoa que me estima colocar um ponto de interrogação na equação.

 

Disse-me, relativamente à política autárquica, enquanto tomávamos café: “O poder autárquico atual e a oposição são cara e coroa da mesma moeda.” “Como assim?”, perguntei eu. Ao que ela respondeu: “Se de um lado chove do outro troveja.” “Ei, para aí com a trovoada. Não metas tudo no mesmo saco”, avisei-a eu, à pessoa claro. E essa pessoa: “Eu bem não queria, mas não sei, não sei não. É necessário que te vás preparando. À falta de melhor, é bom que não te esqueças de rezar a Santa Bárbara.”

 

Confesso que fiquei um pouco perturbado. Eu explico porquê. Essa pessoa é inteligente, muito inteligente mesmo. Apesar de difícil. É tão difícil que as pessoas até têm medo de abrir a boca à sua frente, porque está sempre a interpretar. E repara em todas as nuances e em todos os pormenores. Por isso também é desconfiada. Mas quer-me bem. Eu isso sei-o de fonte segura.

 

Por causa das coisas tentei contemporizar. “Sabes que sou simpático até com quem não me paga na mesma moeda.” Aqui fiz um pequeno intervalo porque me ri, e ela, a pessoa que me quer bem, também. Depois continuei: “Muitas vezes não sou bem compreendido naquilo que quero dizer… Mas com a idade fiquei mas sábio, sei quando não devo levar as coisas a peito!” Ela, a tal pessoa que me quer bem, contrapôs: “Tens de aprender a ceder um bocadinho. Ouve o que te dizem os outros. Tu estás sempre a…” “A quê?” “Bom, deixa lá, vamos antes falar de futebol…

 

Já a minha avó me dizia: Para perdoar tudo, precisamos de compreender. 


publicado por João Madureira às 07:45
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