Quarta-feira, 6 de Março de 2013

O Poema Infinito (136): sétimo dia


Sou definitivamente um cúmplice das águas. Da água do mar e da água dos rios. E também da água que arde nos teus e nos meus olhos. Sou cúmplice da sua sedução, do seu tempo infinito, dos seus navios de espelhos, da sua iluminação de queda e do seu reflexo longínquo. Por isso pressinto os navios que transportam a vida e a morte para as cidades e as gaivotas pardas que sobrevoam os areais e os cais e os rochedos e as falésias. Por isso acordo todos os dias com uma sensação de queda eminente onde permaneço até que tu me salvas. Por isso espero por ti envolvido numa concha luminosa de maresia e aflição. Por isso envolvo os segredos no sal da estátua de Edith, esposa de Lot, que teve a coragem transgressora e suicida de olhar uma última vez para Sodoma. Por isso me desidrato quando olho para as paisagens e me agito com a atração da Lua que me inunda com vagas sucessivas de poemas. E leio livros de água e rezo em igrejas com vitrais líquidos. Os meus dedos frios de marés estrangulam incertezas minerais e devoram o cansaço de te perseguir. Agora sei que existe um enigma em tudo aquilo que escrevo, por isso a margem do meu rio embate no meu corpo e despenha-se pela branca cascata da desolação. Nada sobrevive à memória das águas. Nada sobrevive à liquidez dos corpos. Uma sossegada ausência alimenta a escrita, aí onde a violência adquire o estatuto de fala. Desfaço-me em carícias e prevejo os sonhos no lume terno da noite. Descrevo barcos cuja quilha fende a vastíssima superfície dos oceanos. Os mares de agora estão presos à terra. Todas as visões do apocalipse são feitas com a dor salgada das marés. Os abismos desordenam o mundo. A memória está perfumada de corais e dos gestos exatos dos pescadores. Sinto as oscilações do mar quando te amo. Todo o sonho marinho faz o seu ninho nas asas afiadas da imaginação. Os barcos esquecidos voam novamente sobre ondas de poalha estelar. Por isso os meus gestos duplicados naufragam no abandono do teu repouso. E regresso à praia com os olhos cansados de sal e de lírios e de delírios também. O brilho do sol corta a pele como uma fera longínqua. As águas magoadas refletem as minhas cicatrizes abertas pelo tempo. Por isso desço o meu corpo no teu corpo, como se fosse um marinheiro adolescente. Junto ao mar o vento é fresco e por isso me ilude com a sua embriaguez de lobo-do-mar. Caminhamos na praia abrindo os olhos para a incerteza. Os golfinhos refugiam-se no seu inverno marítimo. A manhã chega encostada ao cristalino dos nossos olhos. Estendemo-nos na areia e lembramos os nomes dos peixes e dos pássaros. Os barcos voam sem alma, como se fossem uma cintilação de nevoeiro. As ondas espalham os gemidos de silêncio. O nosso olhar rasa o mar como um pássaro de vento. Ofereço-te a alegria líquida dos meus lábios. Transformo-me em peixe e entro pelo mar dentro como se me quisesse salvar. Sinto os teus passos hesitantes a pisar a água. Hoje é o sétimo dia da criação e nós dormimos abraçados à nossa imobilidade de veludo. 


publicado por João Madureira às 07:45
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