Sexta-feira, 8 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 150

 

150 – Como se os textos não chegassem para a confusão, o acompanhamento musical proposto veio ainda deitar mais achas para a fogueira. Cada sensibilidade partidária, se assim se lhe pode chamar, propunha apenas as canções dos bardos ligados à sua fação política. Nenhuma foi aprovada à primeira. Se um elemento propunha uma canção, por exemplo, do Luís Cília, logo alguém mais ligado à extrema-esquerda argumentava que esse tal de Luís era revisionista, ou social-fascista, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. Os membros ligados ao PS não se atreviam a tanto, rejeitavam-no porque as suas canções eram muito chatas e, sobretudo, muito mal cantadas. Numa coisa todos concordaram, com a abstenção compreensível dos membros ligados ao Partido Comunista, o Luís Cília desafinava muito.


Alguém se lembrou do José Barata Moura, mas os desalinhados rejeitaram-no porque, diziam, era muito conotado com as canções dedicadas às crianças. Os mais avisados argumentaram em seu favor que, mesmo assim, quem soubesse ler nas entrelinhas facilmente se apercebia que por detrás das letras aparentemente infantis, encontravam-se mensagens muito adultas. E musicalmente era muito bom.


Os mais basistas contrapuseram que o povo a quem era destinada a peça de teatro não tinha cultura para se aperceber das mensagens encobertas e que se estava a borrifar para a qualidade da música. O povo, lembraram os mais comprometidos com a revolução a todo o custo, detestava a música, classificada pela burguesia, de qualidade. Quanto mais qualidade, menos adesão e por isso menos revolução. E o que atualmente interessava era esclarecer o povo, trazê-lo para o lado da revolução, não hostilizá-lo com merdas pseudorrevolucionárias dos intelectuais pequeno-burgueses, que provocavam a raiva e a ira de quem era pobre e simples.


Aparentemente todos estavam de acordo em que o mais importante era produzir um espetáculo para as massas, para as esclarecer e para as colocar do lado da revolução. Mas já divergiam no nível de qualidade, ou na falta dela, que tinham de dar ao espetáculo. Alguns recusavam-se mesmo a nivelar por baixo o texto – como se isso fosse possível – e a deitar borda fora a boa música e os bons textos de intervenção.


Enquanto os mais basistas defendiam que eram os intelectuais que tinham de descer ao nível do povo, os mais distintos afirmavam que essa ideia era a modos que fascista, pois o povo tem, para que a revolução triunfe, de se cultivar e aprender a apreciar e a desfrutar da verdadeira cultura.


Outros havia, como sempre os houve e haverá, que defendiam que era no meio que estava a virtude. Que o povo, para seu bem e para a sua emancipação, tinha de se elevar um bocadinho, e os intelectuais, também para seu proveito e aceitação, tinham de descer um pouco do seu pedestal e aproximarem-se mais do povo. Porque a cultura sem o povo não presta e o povo sem a cultura também não é lá grande coisa. A melhor solução era unirem esforços e prosseguirem juntos pela mesma senda do progresso e do futuro. A aliança entre os intelectuais tinha de ser feita. Por isso tornava-se necessário escolher bons textos, que fossem ao mesmo tempo de qualidade e simples, bem assim como as canções que também tinham de aliar a simplicidade com a qualidade. Alguém lembrou Fernando Tordo ou Paulo de Carvalho ou Carlos Mendes. Mas a grande maioria levantou a sua voz num coro de protestos tal que se fez ouvir no outro lado da rua. Alarido que teve o condão de ocasionar que vários dos amantes do copo e do petisco, que se encontravam na tasca já nossa conhecida, avisassem o dono da taberna de que se preparasse para trabalhar porquanto a malta do teatro estava para chegar. Alguém discordou da designação, pois, na sua opinião, a malta dos “Canários” era muito mais da política do que do teatro. O teatro para eles era um pretexto para a política. Não sabemos se por causa das avisadas palavras deste último parlante amante da pinga, ou se motivado pela boa notícia de que a passarada das artes cénicas e dramáticas estava para chegar, o taberneiro serviu uma rodada a todos os presentes, junto com o seguinte aviso: “Porque estou de bom humor, esta é por conta da casa, mas é bom que não vos habitueis, porque a vida está cada vez mais difícil. Estamos todos metidos numa grande crise.” Ao que o bêbado mais esclarecido do grupo contrapôs com toda a razão: “Os ricos que a paguem, pois apenas eles é que têm dinheiro. Nós nem para o copo amealhamos.”


E os “Canários” em bando chegaram. Em bando comeram e beberam. E em bando se foram porta fora para mais uma discussão de onde, forçosamente, tinha de surgir a luz. A claridade da reconciliação.


Mas não foi fácil. Rejeitados os cantores festivaleiros, mesmo que comunistas, da fação pró-soviética, alguém se lembrou de sugerir José Mário Branco. O clamor foi igualmente grande, pois os elementos do PC levaram-se dos diabos. Para os revisionistas, o esquerdista era inegociável. Entravam as canções dele e os punhalistas, que constituíam a maioria, se contarmos os independentes por si controlados, iam-se embora, inviabilizando o espetáculo. Falou-se de Francisco Fanhais e a cena repetiu-se. “Esquerdista e ainda por cima padre, era o que mais faltava”, indignaram-se de novo os punhalistas. Alguém se lembrou do José Jorge Letria, mas a maior parte não lhe reconheceu a suficiente qualidade revolucionária. Alguém lembrou, de novo, que para a peça só podiam ser escolhidos cantores de intervenção. “E o Carlos do Carmo?” “Quem?” “O Capachinho Vermelho!” “Esse só canta fado. E o fado é reacionário.” “Nem todo. O «Povo que lavas no rio» é uma grande canção de intervenção…” Novo brado na sala.


Na taberna ao lado, novamente se levantou o moral aos mais resistentes do copo e da noite: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


Alguém voltou a discordar da designação, pois, na sua opinião, “a malta dos Canários era muito mais ligada à política, que é uma porca… do que ao teatro, que é uma puta, ou... o teatro é um pretexto para a porca… o que  eles todos querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” e compôs um gesto feio e obsceno na direção da porta.


O taberneiro, para que o bêbedo se calasse com o seu discurso, pois no grupo dos “Canários” militavam algumas meninas de boas famílias, que por isso mesmo não podiam escutar baboseiras deste calibre, resolveu oferecer mais uma rodada de tinto e um pratinho de moelas ao quinteto que tinha resolvido pernoitar na tasca, em troca de comer, beber e calar.


E o bando chegou. E o bando comeu e bebeu. E o bando foi-se embora para mais uma discussão de onde, necessariamente, tinha de brotar a claridade do entendimento.


Voltou-se de novo à discussão de quem era ou não era cantor de intervenção, com possibilidades de vir a ser admitido. Dos poucos que ainda restavam, talvez porque todos os grupos tinham guardado os trunfos para o fim, apareceram os nomes de Sérgio Godinho, o de Adriano Correia de Oliveira e de José Afonso. Todos foram aceites. O Sérgio porque era um esquerdista moderado, que não hostilizava os revisionistas nem os socialistas, o Adriano Correia de Oliveira porque, apesar de ser militante do PC, não hostilizava os esquerdistas e era grande amigo de Manuel Alegre e da esquerda do PS, e o Zeca Afonso devido à sua qualidade, à sua honestidade e à sua militante e esfusiante humildade e também porque sim. Dos esquerdistas, era o único com quem os punhalistas não se metiam, honra lhes seja feita.


Por fim, alguém com mais sentido de humor resolveu questionar os presentes: “E então, não incluímos nenhum cantor de intervenção do PS?” “Mas não tem ninguém”, lembrou a maioria. “Alguém se lembra de algum?” “Eu”, respondeu o José. “O Paco Bandeira!”


A risada foi tão intensa que estamos em crer que foi nessa noite que a enorme trave mestra que sustentava o telhado dos “Canários” sofreu a primeira grande fissura nos tempos da democracia e que lhe viria ser fatal, como mais à frente informaremos. 


Na taberna ao lado, mais uma vez se levantou o moral ao quinteto do copo. E o mais afoito voltou a avisar: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


E por aqui nos ficamos, pois o resto podem os estimados leitores adivinhar sem que para isso seja necessária a nossa intervenção. Porque, bem vistas as coisas, o leitor também tem que fazer alguma coisa. N’est-ce pas?


publicado por João Madureira às 07:45
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