Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Pérolas e diamantes (28): Confissões de um sapateiro


Por mais voltas que deem aos factos, há pessoas que, devido à sua forte personalidade, se não fizerem parte da solução farão, obrigatoriamente, parte do problema. É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

E quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. E às bodas e batizados só vão os convidados. Além disso, longe vão os tempos em que fazer política se resumia em sorrir para as câmaras fotográficas, cumprimentar as pessoas e não ter ideias, porque esse é o caminho perfeito para perder a razão e tudo o que se ambiciona.

 

Essa é a perspetiva dos indolentes, dos convencidos e dos autistas. Política sem ideias é um abismo. E quem se mete por esse caminho perde forçosamente. Não só a razão, repetimos, como tudo o resto.

 

A política não tem horror ao vazio, como é vulgar ouvir dizer. Não. A política tem horror à qualidade, à verticalidade, à frontalidade, à independência, à criatividade e às ideias. Então da política na província nem é bom falar.

 

E os aparelhos partidários (Ó meu Deus, os aparelhos partidários!), porque são abstrusos e extremamente conservadores, não toleram e muito menos digerem a divergência e a discussão livre das ideias. Quase sempre rejeitam a qualidade e abominam a independência de caráter e de pensamento. Sobretudo a independência em relação aos poderes instalados.

 

Os aparelhos partidários (Ó meu Deus, os aparelhos partidários!) apenas funcionam em espírito de manada. E, porque são acéfalos, rejeitam a diversidade.

 

Pessoas que pensam da mesma maneira não conseguem adiantar ideias, nem projetos, nem soluções. Unicamente são capazes de discutir e aprovar sempre a mesma ideia, sempre o mesmo projeto, sempre a mesma solução, mesmo que a tentem disfarçar sob o manto diáfano da diversidade.

 

Quando todos pensam da mesma maneira é porque não pensam coisa nenhuma.

 

Por mais que digam o contrário, as pessoas que se metem na política, afirmando sempre que é pela defesa intransigente da causa pública, apenas pensam em si próprias. Pensam sempre primeiro nelas e só depois é que pensam nos outros. Raras são as exceções. E aí estão as distintas regras para o confirmar: os ministros, os presidentes de câmara e a grande maioria dos que aspiram a sê-lo.

 

Eu conheço esses políticos altruístas e os estimados leitores também.

 

Os sorrisos, os abraços, a falta de compreensão da realidade e a total ausência de ideais próprias e consistentes podem ajudar a ganhar eleições, mas nunca conseguirão desenvolver uma cidade, uma região e um país.

 

E aí estão as provas: o país falido, as autarquias empenhadas até às orelhas, os governos regionais insolventes, as cidades a caírem aos bocados, as pessoas no desemprego, muitas delas a passar fome e privações de toda a ordem.

 

Podem dizer-me que nem sempre assim acontece. Mas, cético como sou, desconfio das palavras e atenho-me à realidade. E a realidade diz-me que a história tende a repetir-se indefinidamente.

 

É como nos livros e nos filmes policiais: o criminoso volta sempre ao local do crime.

 

Olho agora para o ecrã do computador e ponho-me a pensar nas variadas situações que fui vivendo nos últimos meses e concluo: Não vá o sapateiro além da chinela. Eu, sapateiro me confesso.

 

E seja o que Deus quiser. O meu peditório acaba aqui, pois já dei para ele mais do que me era exigido. E faço-o com uma citação de um poema do livro de poesia Sentimento do Tempo de Giuseppe Ungaretti: “EternoEntre uma flor colhida e outra dada / o inexprimível nada”.

 

E nunca se esqueçam que nem todas as flores são bonitas, nem todas as flores são úteis, nem todas as flores cheiram bem. Há até flores de estufa que não cheiram a nada.

 

Quando me falam em flores, lembro-me sempre d’ As Flores do Mal de  Charles Baudelaire.

 

Eu, definitivamente, sou mais do lado dos poetas. 


publicado por João Madureira às 07:45
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