Quarta-feira, 13 de Março de 2013

O Poema Infinito (137): viagem


Seguindo na direção de Chaves, encontrar-me-ás sempre em todas as estações de serviço, como se fosse um marinheiro fazendo escala em todos os portos onde se completam festas livres aonde não entram nem os abutres nem se ouvem os sinos do pânico. Procuro-te sentindo-me afogar num cais clássico onde as mulheres tristes ensaiam gestos apavorados e acenam com lenços aos faroleiros das luzes eróticas onde as flores douradas se espalham pelos passeios. Em qualquer lugar onde me procures encontrarás fruta, uma fruta masculina que atravessa o âmbar. No mar alto navegaremos por cima da escrita pornográfica sonhando como é bom ter os pés assentes em terra. Nas nossas mãos ficarão as marcas do sal. Os deuses então sucumbirão ao incesto e à calamidade. O mundo conduz-nos e celebra os novos mandamentos do apocalipse. Os versos opulentos inundam as robustas fortalezas e abrem caminho para dentro da cabeça das estátuas. E as estátuas tombam como se fossem náufragos dos velhos tempos e saúdam-nos com as suas bocas inchadas de veludo. As aves aquecem o céu e inundam o mar de voos suspensos. O medo desfaz-se de encontro aos pensamentos. Escutamos as criaturas que gritam dentro dos indefesos túneis da História. A cidade inclina-se para os versos e os versos inclinam-se para os espelhos e os espelhos inclinam-se para os corpos e os corpos enganam-se e deixam-se despir com a memória irrigada pela água dos rios de sombra. Os teus olhos são pequenas flores de medo. Alguém profere um sopro selvagem dentro da tarde transparente. O tempo torna-se acústico e emite murmúrios de pranto que se tornam obscenos em contacto com o ar. Os pássaros sossegam escutando as ventanias rústicas que lhes chegam vindas do mar. E o próprio mar naufraga entre a flora salgada das marés. E as marés escutam o sol e deambulam pelas ameias do castelo do tempo. A terra grita a sua própria idade e o chão abre-se de espanto. Nada se acrescenta à incúria dos seres humanos a não ser os versos passageiros do tempo. A tua mão convoca-me. O fogo incendeia as grutas da memória. Desperto próximo do teu olhar. Reparo no incêndio que alastra na tua boca. Já os poemas ardem como se fossem uma linguagem de fios de fogo. E acordam as almas que deslizam agarradas às coisas. Está longe o sol. E os meus lábios marcam o chão onde o teu coração vive. O silêncio volta a rodear-te os braços. E o horizonte desenha-te com uma fina geometria doirada. Estamos no limiar de mais um dilúvio onde os homens ganham barbatanas e almas de pássaros longos. A terra tem de novo sede de bichos. Os corpos celestes incendeiam-se de mistérios. O mundo volta a ser uma ilha requintada onde o medo dá lugar ao medo. Transformo-me num bloco denso de ternura. As horas constroem a solidão. Essa solidão doméstica que se debruça sobre mim e me talha o sonho. O sonho que é uma pista de tristeza paciente. Sou de novo uma coisa transparente que teme a loucura doce do encontro. Já sabes, seguindo na direção de Chaves, encontrar-me-ás sempre…


publicado por João Madureira às 07:45
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