Quarta-feira, 20 de Março de 2013

O Poema Infinito (138): insinuação


Adivinho-te pela insinuação do corpo, pelo devagar do teu amor, pela vista jubilosa do teu olhar e pela frescura verde da tua luz. Junto aos pinheiros desafetamos os pensamentos com a lentidão clamorosa do entardecer. Perto do rio, as sombras estendem o seu sono pelo susto breve do adormecimento. O pensamento recupera o seu vagar. A infância imensa ainda se agita dentro de nós. E nós dentro dela. O tempo move-se na ordem singular da sua glória eterna. Com o declinar da tarde, as palavras exultam na sua nova grafia acústica. Os bosques prolongam-se nos seus dédalos eficazes de verdura. Os faunos andam por aqui. E despertam dentro do seu ócio pesado e da sua nitidez surda. Os animais do bosque fundem um novo tempo e um outro espaço. As nuvens do poente saturam-se de luz e paciência. E a noite começa a expandir-se próxima do seu lume. Os nossos olhos recuperam as representações do dia. E brilham entrando pela razão da alma. As imagens sofrem o trabalho invisível dos enigmas e recuperam a terra antiga e os anos de paciência iluminada. A eternidade do entardecer é frágil por isso se desenha no sossego jubiloso das águas. E o silêncio traz mais silêncio e este mais silêncio ainda. Alguém fala dentro do seu procedimento de entrega. Também o vagar é eterno, como eterna é a nostalgia e o sossego abstrato dos objetos. Identificamos o amor pelo seu uso e deixamos que a noite nos narre a eternidade do mundo. Todo o espaço irradia o seu tempo. A golpes de alma se subverte a evidência da morte. O mundo oferece-se aos homens. A idade do tempo desassossega-nos. O mesmo aconteceu a Noé quando as suas pombas sacramentaram as águas que engoliram as montanhas e as palavras. Toda a glorificação consome a obra e o esplendor da ordenação e a uniformidade oferecida das flores. Por isso Deus se consuma dentro da sua tepidez divina. Tudo o que é divino se reduz à sua eternidade estancada. Aproximo-me da idade diáfana da lucidez. Por isso sinto o afeto doloroso do alheamento a invadir-me com a sua insondável invisibilidade de exílio. Nos campos brilham os frutos na sua evidência vegetal. Ouve-se uma música imóvel. O mundo volta a iluminar-se dentro da sua abstração de borboleta caótica. Da nossa janela vê-se o mundo todo e também o eixo imperfeito das estações. O horizonte torna-se invisível. Ruminamos a brisa prodigiosa da lucidez do pinheiral. As folhas das árvores iluminam-se com a lucidez impetuosa das lágrimas. O mundo move-se no seu profundo júbilo expansivo. Este é o início de mais uma diegese antiga. E as nuvens prolongam-se ao ritmo da narração. A noite transporta consigo novas imagens enigmáticas. O universo é uma extensão de silêncio. Por isso o teu corpo é um alicerce de surpresa. E a surpresa fixa-se na previsibilidade dos sexos. A noite sobe por nós. A imensidão do céu aproxima-se do nosso sono. O prazer torna-se azul. Devolvemos as estrelas à sua própria graça. A chuva ilumina as ruínas. A madrugada trará a brisa húmida e a luz paciente da humildade. O vento varre as portas e as janelas das casas. As aves cicatrizam-se nos seus voos. Eva volta a ser pecadora. Por isso sinto um infinito respeito pela estupidez do Adão. Todo o rigor contemporâneo me abandona. 


publicado por João Madureira às 07:45
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