Quarta-feira, 27 de Março de 2013

O Poema Infinito (139): bênção

 

Voamos como os insetos à volta das lâmpadas em movimentos fortuitos e as pedras transformam-se em cinza e a noite torna-se obscena. De imediato lanças frementes atravessam o espaço indo cair na margem sombria do silêncio. Erguemos esse silêncio, envolvendo-o com os braços em forma de teia de aranha. Já não há nenhum firmamento que consiga proteger-nos do abraço definitivo da noite. A noite estala como se fosse feita de bagos de milho que explodem dentro de um micro-ondas. E a tua transparência surge desenhada pelas delicadas veias do meu sexo. Esse é o meu corpo futuro. Beijo-te os lábios como os poemas beijam a brancura incompleta do amanhecer. As lâmpadas transformam-se em flores e decidem iluminar a felicidade ténue da tua nudez. Eu nomeio o teu desejo e inscrevo-o na pele fresca da lua que é agora uma deusa de chuva. Bebemos a água no oásis do silêncio da manhã. Um lírio nasce no meio dos teus seios. Uma luz misteriosa voa alto em direção ao teu olhar. As palavras curvam-se. O tempo desenha o alvo. As janelas deixam entrar as nuvens. Apesar da nossa idade cansada deitamo-nos na nascente do desejo à espera que circule por nós. Voam os sonhos como pássaros fugidios dissolvendo a terra, pegando fogo aos desejos, queimando os fantasmas brancos da loucura. O mundo revela-se dentro das suas torres obstinadas. A chama dos teus olhos flutua entre línguas de veludo. Tens o rosto tatuado de água. És uma menina nua dormindo sobre as dunas protegida por uma pantera vermelha. A espuma inunda-te o sono e faz-te despertar do devaneio. Eu escrevo um poema suspenso no azul do céu procurando identificar a pureza da água no teu corpo. Círculos vazios vibram dentro do nada estendendo o horizonte do fim para o princípio. Sonho com a ardência do teu corpo, com a mudez das casas, com o fragor dos minotauros, com os labirintos do desespero, com a solidão da sede, com a fragância da névoa, com o fulgor dos teus olhos matinais, com a nitidez dos rostos enlouquecidos. Nas nossas mãos nascem raízes que atravessam as sombras. O nevoeiro sobe pelos muros. Uma luz subterrânea alimenta a memória. O teu rosto persiste e procura as carícias. Dizes: Amo a tua timidez. E a tua fragilidade acesa. E a tua permanente adolescência repleta de recatos. Inclino-me e ofereço-te uma frágil flor de chuva. E guardo as tuas palavras dentro do meu coração de árvore inexorável. Possuirei o teu corpo com a perseverança do mar correndo como o vento na rapidez dos teus gestos. Por isso escrevo incendiando as bocas silenciosas e pegando fogo às palavras, procurando indefinidamente a enigmática transparência de cada pessoa. Por isso sorvo a cor das montanhas, a agitação dos mares, a calma do entardecer, a trémula nascença de uma flor, a violência de um parto, a impaciência de um coito, as linhas intermináveis do horizonte, a inclinação das luzes, a frescura da terra quando chove nas tardes quentes, o reflexo dos teus olhos, a marcha do vento, a respiração feliz dos amantes, a impenetrável lucidez dos loucos. Por isso toda a linguagem é necessária, por isso a luz incide duramente sobre a vida, por isso todas as coincidências são inflexíveis. Digo: Deixa-te estar mais um bocadinho pois eu nutro-me de ti. Adormeço beijando-te entre um sorriso e duas lágrimas. Bendita sejas. 


publicado por João Madureira às 07:45
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