Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (31): as previsões e os números

 

1 - Correia de Campos, o já saudoso ministro da Saúde de José Sócrates (o Ressuscitado), em entrevista ao “jornal i” afirmou, preto no branco, que “a Troika são pessoas como nós”, o problema foi que encontraram pela frente “uns panhonhas como são os nossos atuais governantes, que não são capazes de bater o pé ou até ficam satisfeitos porque lhes cortaram 600 milhões…”

 

Daí é que enquanto o povo grita “que se lixe a Troika”, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas ouvem apenas “como é fixe a troika”.

 

Mas o problema não acaba aqui. Nisso todos somos um pouco culpados. Por isso é que Joseph Stiglitz avisa que a “Europa poderá ter de deixar morrer o euro”.

 

Então onde reside a nossa culpa?, perguntarão os estimados leitores. A culpa está no facto de comermos e calarmos, pois todos os sacrifícios que estamos a fazer são quase exclusivamente para mantermos a moeda única europeia.

 

Maria Filomena Mónica insurge-se contra a moda das avaliações estúpidas. E tem razão, pois a sétima avaliação realizada pela Troika foi feita num braço de ferro negocial com momentos que todos adivinhamos de crispação. Mas apenas isso. De facto, o que se tornou evidente é que é o próprio Governo quem desconfia dos seus números.

 

E lá voltamos à pergunta inquietante: Porque é que Gaspar nunca acerta uma previsão? Ele próprio, o sábio que lê o futuro das contas do país nas entranhas das aves, respondeu em direto e ao vivo: “Não sei!”

 

Ou seja, o nosso super-ministro das Finanças erra todos os números e não sabe qual é a razão. É muito provável que o erro seja dos números, ou, ainda melhor, da realidade, da crua e mentirosa realidade que teima em o contestar a todo o momento. Os especialistas registam que o desvio estre “as estimativas originais e os novos números é abissal”. E pode mesmo agravar-se.

 

Mas numa coisa pode este Governo cantar vitória. De facto, a Standard & Poor’s deixou de ter uma perspetiva negativa sobre Portugal. Segundo a sua simpática avaliação, a dívida pública portuguesa estabilizou os seus juros.

 

Por isso rejubilamos, pois à imagem e semelhança da Igreja Católica, cujos cardeais elegeram um Papa admirador dos pobres, e do seu máximo representante na terra, Francisco de Assis, também a nossa dívida sagrada estabilizou no lixo, que é, como muito bem titulou o “Expresso”, o standard dos pobres.

 

Isto apesar de Portugal estar em recessão profunda, de o desemprego estar num nível recorde e dos juros da dívida serem um buraco negro, agora mais ou menos estável, que apenas nos consome mais dinheiro do que toda a riqueza que produzimos enquanto país.

 

Mas rejubilemos, o “franciscano” Papa Francisco tem sentido de humor e não deixa de o evidenciar desde as janelas do Vaticano. Pobretes mas alegretes, lá diz o povo.

 

Henrique Monteiro, na sua coluna do “Expresso”, atento aos sinais, escreveu que “há momentos em que, sem sabermos porquê, somos otimistas.” E por isso vem de encontro àquilo que pensamos, ou nós vamos ao encontro dele, pois para o caso tanto monta.

 

Para o senhor Henrique, “o primeiro sinal é global. A eleição do Papa recaiu num argentino que parece modesto e que gosta”, ó meu Deus, “de futebol e de tango”. Imaginem só!

 

Depois refere outro sinal positivo, o “manifesto” que pede aos deputados uma coisa muito simples: que alterem as regras da sua eleição, para que passe a haver primárias para os eleitores de cada partido poderem determinar quem querem ver a representá-los e, também, que sejam permitidas candidaturas independentes.

 

Ou seja, parece que nesses dois sinais enxerga o otimismo que nos vai contagiar, pois, e é ele que o lembra, amparando-se em “O Leopardo” de Tomasi di Lampedusa, que “se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”.

 

Desta maneira salva-se o Vaticano e a Democracia. A nós, pobres mortais, ou escrivas de província, apenas nos resta esquecer os escândalos de pedofilia no clero, mandar os números do desemprego e os juros da dívida para trás das costas e emigrar. E o último a embarcar que, por favor, não se esqueça de apagar as luzes do aeroporto.

 

Como escreveu o filósofo José Gil, os portugueses estão a ser expulsos do seu espaço e paradoxalmente continuam a habitá-lo.

 

2 – Também cá pelo burgo são os números que dividem o poder, instituído, e a oposição, estabelecida. Não coisas tão triviais, e mesquinhas, como o termos deixado morrer, destruir ou definhar, o Jardim das Freiras, o Jardim Público, o Hospital, o Tribunal, o Centro Histórico, o Comércio Local, as Tradições, as Festas Populares e a Cultura. Aqui mesmo debaixo da nossa pacata indiferença e sob a nossa infinita saudade e compaixão. Não sei se teremos perdão.

 

Mas voltemos aos números da discórdia. O presidente da Câmara sustenta que a dívida do município é de cerca de 40 milhões de euros. A líder da oposição, estabelecida, contrapõe que essa dívida é de cerca de 50 milhões de euros. Por causa do ping-pong, João Batista desafia a líder do PS a mostrar “onde está a dívida escondida”. Cá ficamos à espera, pois com os números, e com a verdade, lembremos, não se brinca.

 

Para nós, cidadãos comuns, apenas nos parece que sendo a dívida de 40 ou 50 milhões é muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo, que alguém vai ter de pagar com língua de palmo. Já agora adivinhem quem.

 

Pelo meio, o senhor presidente, face às críticas de dinheiro mal gasto por parte da líder do PS, contrapõe, com o seu característico sorriso e bonomia, que “houve obra e muita”. É até bem possível que exista, mas também é provável que a grande maioria dela esteja escondida em lugar incerto. E, como todos sabemos, o que não é visto não é lembrado.

 

Como muito bem recorda a Bíblia ao comum dos mortais: Não te esqueças que és pó e ao pó vais voltar.

 

Pegando no aforismo, lembramos aos políticos de serviço: Não te esqueças que és povo e ao povo terás de voltar.

 

Que a consciência nos seja leve. 


publicado por João Madureira às 07:45
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