Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

O Poema Infinito (141): em contraluz


Apesar do rigor da fotografia do teu corpo, para mim ele surgirá sempre tão volátil como as estátuas cósmicas. Por isso insisto sempre em esconder-me no seu interior. Pouso a minha cabeça íngreme docemente sobre os teus joelhos e adormeço. A noite é um estuário denso de dedos emaranhados e de memórias férteis e de bocas húmidas. Os meus olhos vigiam-te quando colhes a doce cor das maçãs. Pelas fendas das janelas penetra a fragância rubra do entardecer. A sua luz espessa deita-se por cima dos nossos corpos à procura de sentido. Tocámo-nos tão inocentemente como duas crianças inábeis. Daí avistamos toda a terra que o nosso deus panteísta criou. Alguém derrama gotas de Baco na toalha alva em honra do vinho. Reparamos na sua delicadeza bárbara impregnada de sentido e desejo. O teu rosto inclina-se sobre o meu como se fosse um ponto de luz. Nesta hora costumam aparecer as ilhas impregnadas de sonhos perturbadores. O meu corpo viajante partirá ao alvorecer atado numa estrela de silêncio. A casa move-se. A cidade agita-se. Os pomares deixam-se assediar pelo fulgor cítrico do verão. Lembrar-me-ei indefinidamente da luz acesa dos teus olhos quando te possuo. E do seu orgástico vagar. Pela madrugada, os deuses do sono voltam para me cansarem dentro dos seus leitos vegetais. Sobre os oceanos surgem as constelações descobertas pela insónia. Volto a inventar-te. Volto a seduzir-te. Volto a pousar as minhas mãos no veludo agitado e geométrico do teu cabelo. Enquanto durmo, os cavalos gloriosos da aurora correm na direção do mar. Uma suave aragem circula pelas paredes da casa. Permaneço vivo na memória da sua ausência. É meu destino desaguar no sono e enlouquecer devagar. Os meus dedos são como as folhas sedosas dos carvalhos jovens. Deixo-me condenar pela invenção do teu corpo, pelos teus dedos de rosa fulgurante. Dou de beber ao teu desejo. Por vezes, tudo o que nos rodeia cai aflito dentro da sua própria ruína. Os cantos do quarto cintilam. Apenas os fragmentos se deixam submergir pela solidão das praias. As casas, essas, estão todas condenadas à demolição. As cidades submergem nos seus rastos de solidão e avidez. Essa é a sua velocidade de indiferença. Tu conheces a minha solidão. Por isso te amo. Não sei onde começa o esquecimento, mas tenho a certeza que nasces sempre no meu lugar desejado. Lá onde os corpos são aromas longínquos de ânsia e volúpia. Lá onde o tempo é uma fotografia de espaços e gestos. Lá onde os sexos são pássaros bruscos sulcando os ares. Lá onde me esvazio de mim para me inundar de ti. Lá onde a memória arrasta a pele e desenha as línguas que aderem aos lábios e aos sexos. Lá onde os dias continuam límpidos e sabem a sal e ardem dentro das bocas aflitas. Lá onde os pássaros de lume cantam ao desafio. Lá onde os dias se transformam em ilhas que nascem como flores. Atravesso o teu corpo falando com a noite e reclinando-me nas árvores que acendem o vidro das casas incendiadas. Aos poucos, os nossos corpos falam cada vez mais com a noite. Depois calam-se isolando-se dentro das brancas margens da aflição. Nada sobrevive ao esquecimento perfeito do tempo. As cidades desfazem-se dentro dos seus sinais indecifráveis. Os nossos corpos colam-se desaguando em carícias líquidas. A vida vai de uma margem à outra margem da fotografia. Revelam-se de novo as aves no desenho lúbrico dos teus lábios. Confundimo-nos dentro dos nossos sonhos. Imitamos a lucidez. Imitamos o sussurro do fogo e o deambular confuso das borboletas. O amor fica impresso nos nossos corpos. Tudo volta a ser fresco. As galáxias cantam. As urzes e as giestas irrompem dentro da forte contraluz deixada pela poeira do sol. Subtil é o fogo que continua a nascer dentro de nós. Não tarda a amanhecer. As palavras despojadas ganham de novo sentido. 


publicado por João Madureira às 07:45
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