Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 156

 

156 – Foi na banda desenhada que procurou também a sua inspiração para o filme. Um argumento à Godard estava definitivamente posto de lado pelo facto de apenas poder realizar um filme sem som e, por isso mesmo, sem diálogos, pois a banda sonora encontrava-se muito para lá dos limites orçamentais. Então lembrou-se de colocar um Pierrô no meio do seu argumento e desenvolver a história a partir daí.


À partida, o filme não podia ultrapassar os 3 minutos e 20 segundos, que era o tempo que durava uma bobine de super 8 da Kodak. Small is beautiful. Ó se é! Basta lembrarmo-nos da sardinha e da mulher. E do país.


O seu filme começou por ser intencionalmente cómico, conseguindo, por incrível que possa parecer, colocar as pessoas a chorar, não de riso, mas sim de desgosto. Era um híbrido, na boa tradição burlesca, misturando cenas cómicas com outras sem sentido nenhum, mas propositadamente repletas de nonsense. Esta sua qualidade, ou defeito, dependendo do ponto de vista, alimentou durante várias semanas discussões intermináveis. Onde uns viam traços de obra-prima, outros vislumbravam apenas cenas sem graça nenhuma e completamente destituídas de sentido.


As filmagens, essas, foram duras de realizar porque exigiram a procura de cenários reais e de protagonistas no seu ambiente natural, nada fáceis de encontrar e mobilizar para esse fim. O José escolheu para Pierrô uma rapariga com cara de anjo que corava por tudo e por nada. Além de ser muito tímida, era também bastante magra e branca como a cal, o que lhe conferia um ar de boneca de porcelana. Era sobretudo uma péssima atriz. Mas o que para os outros era defeito, para o José era virtude, pois, argumentava ele, “se o Pasolini escolhe para os seus filmes atores e atrizes entre o povo e de entre eles escolhe os mais feios e desarranjados, sem preocupações de qualidade representativa, eu também posso escolher para os meus filmes os atores e as atrizes que, sobretudo, não saibam representar, porque, a partir desse pressuposto, abre-se a porta à possibilidade do cinema passar a ser uma coisa completamente distinta do teatro. No cinema a representação não interessa. Quanto pior, melhor. O cinema deve libertar-se dos seus lugares comuns e, definitivamente, transformar-se numa arte alternativa, numa arte redentora. Na arte de todas as artes, porque as representa cabalmente, desde a pintura à fotografia, passando pelo teatro, a poesia e mesmo o romance.”


Na sua ousada aventura artística, colocou o Pierrô no meio das abelhas, no meio das ovelhas e no meio das vacas. E a rapariga lá ficava como se tivesse sido vítima de um assalto à mão armada, corando de vergonha, engunhando-se e chorando como se estivesse às portas da morte. Depois alguém chegava por detrás, rodopiava em volta dela e pespegava-lhe com um bolo na cara.


As cenas rodadas no meio das abelhas foram as mais complicadas, pois, apesar dos cuidados, e também dos conselhos do proprietário das colmeias, as abelhas sentiram-se molestadas e picaram não só a pobre atriz que fazia de Pierrô, como também o realizador e restante equipa técnica. A desgraçada rapariga teve mesmo de ser internada no hospital por causa de uma infeção provocada pelo veneno dos ferrões.


Com a rodagem parada por causa do ataque das abelhas, e enquanto a frágil atriz recuperava no hospital, a equipa e os respetivos amigos reuniram-se nas mais diversas tascas de Névoa à procura de um fim para o filme. Depois de muito discutirem, e sem se porem de acordo sobre a forma de colocar um ponto final na película, mais uma vez o José impôs a sua sabedoria e a sua arte: o filme não teria qualquer fim, acabava no meio, concluía onde a fita terminasse. Nisso tinha um traço à Godard, o filme ia mostrar às pessoas que o cinema é uma arte que não é perfeita, pois sofre das mesmas limitações dos seres humanos, que quando estão no melhor da vida lá vem a puta da morte e leva-os desta para melhor sem perguntar nada a ninguém. A princípio, a ideia vencedora foi objeto de muita contestação, mas depois de devidamente enquadrada e justificada pelo seu mentor, acabou por ser aceite, e mesmo elogiada, como um dos traços mais evidentes da genialidade do mestre realizador.


Na cena das ovelhas, a cara do Pierrô foi tão expressiva no seu medo que até os pobres animais deixaram de balir e puseram-se mesmo em fuga no momento em que o Pierrô levou com o bolo na cara. Isso provocou a fúria do pastor que se foi aos bichos em retirada e os encheu de porrada, cena que só não foi filmada porque a bobine estava quase no fim e tinha que ser poupada para as últimas cenas.


A cena das vacas correu como a das ovelhas, o Pierrô embrulhado no seu medo, tolhido de movimentos, com uma cara de terror tão evidente que as vacas só não se puseram em fuga porque eram leiteiras e no momento das filmagens tinham os úberes repletos de leite, o que lhes paralisou os movimentos.


A película terminou momentos antes do Pierrô levar com o bolo na cara. O que ficou filmado nos últimos fotogramas foi uma das expressões mais tristes do cinema e que só não se tornou célebre porque o José não conseguiu chegar ao estrelato. Isto apesar da sua intrínseca genialidade. A província é verdadeiramente assassina para os génios e para a arte. Quantos génios não morreram, e vão continuar a morrer, na província sem verem a sua genialidade reconhecida. Quantos? Nem Deus sabe. Talvez resida aí a razão do nosso atraso e da nossa pobreza endémica.


Como o filme obteve boa crítica entre os poucos entendidos de Névoa, o monitor do grupo de cinema do Liceu resolveu dar-lhe uma segunda oportunidade. Desta vez, por causa das coisas, decidiu fornecer-lhe três bobines, o que possibilitava rodar um filme com dez minutos exatos.


O José decidiu-se então por rodar um filme sem argumento, uma coisa improvisada, inspirado um pouco no The Living Theatre, apelando à desobediência civil, lutando pelo fim das fronteiras entre o palco e a plateia, pela abolição dos limites entre a arte e a vida, os atores e a assistência e convocando o público a participar ativamente nos espetáculos. Para isso convocou vários elementos dos grupos de teatro e convidou-os a participarem ativamente na rodagem da película. O local escolhido foi determinante para a aceitação.


Na tasca já nossa conhecida, ouviu-se de novo o bêbado com a mania da filosofia: “Amigo Crispim, não escuta este barulho? Lá vem a malta do teatro outra vez.” “Deus te ouça. O negócio tem andado tão fraco que só essa gente é que é capaz de me botar uma mão.” Um outro borracho solidário, e solitário, disse: “Então toca a trabalhar. Pois a malta do teatro está de volta.” E o primeiro bêbado tornou à sua teima: “A malta do teatro é muito mais ligada à política, que é uma puta porca…” “Cala-te homem de Deus, se te ouvem lá se me vai o ganho…” “do que ao teatro, que é uma porca puta, ou...” “Cala-te. Não ouviste.” “O teatro é um pretexto para a porca… o que eles querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” “Se te calares sirvo-te uma caneca de vinho do real, e de graça.” “E um patanisca?” “E uma patanisca.” “E um pratinho de moelas?” “E um pratinho de moelas.” “E pão.” “Vá, não abuses.” E riram-se os dois. “O que esta gente do teatro quer com todas estas macacadas…” “Já não são do teatro, agora são do cinema”, disse alguém melhor informado. E o bêbado filosófico: “O que esta gente do cinema quer com todas estas macacadas sei-o eu bem…”


O filme foi rodado no estilo de free cinema, que é uma mistura de nada e de coisa nenhuma, onde apareciam raparigas nuas. E rapazes também. Os planos estavam repletos de nádegas, seios, vaginas e pénis em movimentos livres, filmados em câmara oscilante e rápida para manter algum pudor, como convém.


Também este filme terminou de forma inconclusiva, parecendo que ia a meio para uns, que estava no início para outros e, para os mais inteligentes e avisados, o filme tinha mesmo a curiosa particularidade de terminar no princípio e iniciar-se no fim. Como se estivesse invertido, tentando demonstrar que a vida é um ciclo composto de outros ciclos que dão origem a novos ciclos e assim sucessivamente até ao início do Big Bang ou vice-versa. O que é uma ideia para nos pôr loucos a todos.  


Claro que também havia aqueles chatos que afirmavam que o filme os deixava ou excitados, ou com dores de cabeça, ou ambas as coisas, que não tinham percebido nada, que se sentiam enfadados, irritados, desalentados, que não conseguiam acreditar no que estavam a ver, tentado com isso afirmar que o filme era uma grande, grandessíssima, merda. Não sabiam esses ignorantes que os defeitos que lhe apontavam são os que definem uma obra-prima, ou melhor, uma genuína obra de vanguarda. 


publicado por João Madureira às 07:45
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