Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (34): imagens de uma cidade (III)


Quando por vezes tive de apanhar o comboio para ir viver durante algum tempo fora da nossa cidade, mal ouvia o barulho da marcha das rodas nos carris, era violentamente tomado pelo sentimento de comunidade e de pertença ao coração de Chaves, como nunca me tinha acontecido antes.

 

Era nos períodos da partida e da chegada que me lembrava, tomado por uma dor ao mesmo tempo absurdamente triste e alegre, da Ponte Romana e sentia dentro de mim o seu tempo antigo, o tempo muito antigo da nossa cidade, a dilatar-se e a preencher-me com a sua figura ancestral e digna.

 

Na cidade havia (há) riqueza, mas conjuntamente pobreza (também ainda a há, e muita), coabitando lado a lado com a nossa grande história. As ruas principais enchiam-se de gente e os bairros metiam-se dentro de si, apesar da sensibilidade evidente das pessoas às novas realidades e às diferentes ideias que chegavam de fora. 

 

Por detrás da sua beleza monumental, era esse o segredo de Chaves: a relação fragmentada, mas duradoura e solidária, da nossa vida quotidiana.

 

As palavras relativas às nossas qualidades gerais, ao nosso espírito gregário, à nossa singularidade enquanto cidade, transformaram-se em discurso indireto sobre a nossa própria vida.

 

Agora, o discurso político e partidário tomou conta do nosso estado mental. Como se lhe pertencesse o núcleo principal da vida da nossa cidade. Mas isso é um embuste. Nós, os flavienses, não os que se dizem, mas os que o são desde sempre e para sempre, constituímos o centro essencial do nosso burgo. Nós mesmos. Não eles, mas nós. Nós os que lhe pertencemos desde sempre e para sempre.

 

Por outras palavras: através da contemplação da nossa cidade, agora quase vencida e acabrunhada, esmagada e triste pelo que lhe está a acontecer, ainda mais triste e acabrunhada do que eu, sinto dolorosamente que alguém tem de lhe deitar a mão para que não feneça debaixo da nossa indiferença.

 

Porque, apesar dos atentados que sofreu, e continua a sofrer, Chaves ainda mantém a sua beleza caraterística, que vagas sucessivas de “bárbaros” não conseguiram destruir. Ainda tem a riqueza da sua história, ainda possui os seus mistérios, que bem podem ser os remédios para os nossos sofrimentos. Talvez tenhamos de amar a nossa cidade como amamos a nossa família. Provavelmente não nos resta outra solução.

 

Numa noite destas, com a cabeça um pouco aturdida por algum vinho, lancei-me de novo numa caminhada pelas ruas mais estreitas e escuras da nossa cidade, para as sentir tremer e dar-me conta da sua tristeza. E senti-me dentro dela como se estivesse num filme antigo de que eu gostava.

 

Não sei porquê, mas senti-me feliz. E foi essa felicidade que quis apanhar para a conservar e poder falar dela como uma possibilidade. Como quem leva à boca um fruto maduro ou como quem acariciava um berlinde quando era criança.

 

Tive então vontade de regressar a casa pelas ruas vazias, sentar-me à secretária e escrever o que estão agora a ler.

 

Mais uma vez volto a citar Joaquim Pessoa: “E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.”


publicado por João Madureira às 07:45
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1 comentário:
De Luís Fernandes a 23 de Abril de 2013 às 10:29
“DEITAR A MÃO!”

Deitar a mão!...
Sim!
Mas começar por deitar a mão ao gasganete de gente espúria que, abusando da confiança nela depositada por muitos Flavienses ingénuos e de boa-fé, traíram as promessas feitas nas campanhas eleitorais, traíram o “juramento de bandeira” na tomada de posse dos lugares que iriam ocupar na Administração Municipal; praticaram deslealdades sem conta, cometidas nos momentos e nas horas em que a CIDADE mais precisava da valentia e da coragem desses fanfarrões tão gargantudos com os mais frágeis concidadãos.
Deitar a mão!
Não é, não deve ser, o grau de cumplicidade com rasteiros interesses partidários a conferir competência e honorabilidade a qualquer badameco para ser o melhor intérprete e o mais valoroso e digno defensor dos justos anseios dos cidadãos, dos Flavienses.
As campanhas eleitorais estão formatadas mais para confundir os eleitores do que para esclarecê-los.
As canções «pimba», o folclore quadrado e os discursos feitos de chavões e de lugares comuns (tão do agrado ao ouvido daqueles que estão viciados na crença e na preguiça de pensar, reflectir) distraem por completo os eleitores da avaliação que nessa hora deveriam fazer ao desempenho daqueles que teimam em perpetuar-se nos comandos do destino do Município.
A Assembleia Municipal, que devia vigiar o Executivo Camarário, põe-se a dormir.
Como se tem verificado pela leitura de alguns Post(ai)s deste Blogue, a enorme diferença de informação entre o Executivo Camarário e os Flavienses limita em demasia a capacidade destes a uma correcta avaliação da prestação de contas Municipais.
Prestar contas e aceitar responsabilidades é o do que mais arredados estão os (re)candidatos flavianos!
E não passa em claro a incapacidade da «Oposição» para superar a mediocridade e a incompetência dos que têm conduzido CHAVES, A NOSSA TERRA, ao abandono e ao desprestígio tão indigno e injurioso da sua História e dos seus merecimentos!
Deitar a mão!
Cá estamos para dar uma ajuda!


Luís Fernandes


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