Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 157

 

157 – Como teve de deixar de filmar por falta de financiamento – e não por escassez de talento, pois talento possuía o nosso personagem principal em quantidade mais que suficiente para dar e vender –, o José teve de se voltar para outros géneros de arte que lhe ocupassem o espaço mental disponível, ou melhor, o seu espaço vital, pois a arte está para os verdadeiros artistas como o ar está para os animais terrestres e a água para os peixes. Não sei se nos fazemos entender.


Como ouvia sobretudo cantores de intervenção, meteu-se-lhe na cabeça que devia aprender a tocar viola para dar vazão à sua veia artística. Perdido por cem, perdido por mil. Lembrou-se então de pedir ao seu querido amigo Fernando que lhe ensinasse algumas posições no instrumento de cordas que lhe permitissem atamancar algumas cantigas do José Afonso. O Fernando disse-lhe que devia começar por algo mais simples. Mas ele teimou no Zeca e foi o que teve: músicas tocadas pelo Fernando mas que ele não conseguia seguir, nem de perto, nem de longe. Colocava os dedos nas posições certas, mas à custa de muito porfiar, e tangia as cordas muito devagarinho para não as assustar. Por vezes conseguia alcançar um dó a soar a dó, mas o problema era quando tinha de mudar os dedos para, por exemplo o fá, aí atrapalhava-se e demorava tanto tempo que o dó já se tinha ido embora da canção enquanto o fá chegava a passo de tartaruga. E isto passava-se com todas as notas que se lhe seguiam. Enquanto as notas musicais eram breves e rápidas, os intervalos eram enormes e lentos. Chateou-se imenso logo no primeiro dia de ensaio. E no segundo. E no terceiro. E no sétimo. No décimo desistiu, para grande alívio do Fernando. Estava provado que para a viola não servia.


Nesse mesmo dia, olhou para o Fernando com cara de caso e perguntou-lhe se tinha alguma sugestão para dar vazão à sua inquietação artística. Ele, muito a modinho, lembrou-lhe que a banda desenhada era uma via possível. O José, apesar de gostar de BD, como todos bem sabemos, perguntou-lhe se não seria uma espécie de recuo artístico passar do cinema para os quadradinhos, assim de repente. Se não seria passar de cavalo a burro. O Fernando respondeu-lhe que não sabia se era um retrocesso ou não. O que sim sabia era que a BD, por alguma razão, já se designava como a nona arte. O José perguntou-lhe então qual era a oitava, ele respondeu-lhe que era a fotografia.


“Talvez deva então tentar a oitava antes de passar à nona, pois não é bom queimar etapas. Os comunistas chineses que o digam”, lembrou o José com a sabedoria que todos lhe reconhecemos. No entanto, o Fernando lembrou-lhe que para se fazer fotografia era necessário uma máquina, rolos de película fotográfica e um estúdio de revelação, ampliador, revelador e fixador, objetos e materiais que eram caros e difíceis de arranjar. “Então, talvez seja boa ideia dedicar-me à BD”, admitiu o José, imbuído da sua inteligência prática.


Pediu então ao Fernando o último Pilote que tinha recebido e pôs-se a copiar desenhos do Astérix e do Tenente Blueberry. Saíram-lhe mal, como era de esperar. Mais uma vez o Fernando lhe disse que tinha de começar por algo mais simples. Uderzo e Jean Giraud não estão ao alcance de qualquer um.


Mas o José lembrou-lhe que quem reproduz os melhores pode vir a ser como eles e quem plagia os maus só pode conseguir ser pior do que eles. Fernando gostou daquilo que ouviu, por isso disse-lhe que devia, quiçá, tentar a Filosofia, que na Grécia antiga era uma grande arte. O José respondeu-lhe que se dava mal com a Filosofia. O Fernando lembrou-lhe então, e bem, que com quem se dava mal era com a professora de Filosofia e não propriamente com a Filosofia. Ele até concordou com o comentário, pois correspondia à verdade, mas recusou liminarmente dedicar-se à “arte da treta”, que era como ele definia o mester de Sócrates. O Fernando, sabendo da sua inclinação para a escrita, sugeriu-lhe que talvez fosse boa ideia tentar o conto ou o romance, pois para essa arte já possuía as ferramentas necessárias: a caneta e o papel, e dominava a arte da caligrafia com razoável mestria. O José disse que não era bem assim. Além disso faltava-lhe a máquina de escrever, para dar aos escritos a sua versão final. O Fernando disponibilizou-se a emprestar-lhe a do seu pai que pouco uso tinha tido até ao momento.


“E as ideias?, inquiriu o José com toda a pertinácia que lhe reconhecemos. “As ideias?”, perguntou intrigado o Fernando. “Pois, as ideias”, insistiu o José. E o Fernando: “As ideias são como as cerejas, a seguir a umas veem outras e assim por aí fora até acabares o livro. Além disso, ideias tens tu de sobra.” “E as palavras? Como escolho e decido as palavras para concretizar as ideias?”, perguntou o José. E o Fernando: “Essa arte vem com o tempo e com o treino. Mais com o treino do que com o tempo. Com o tempo surgem mais as ideias, com o treino aparece mais a forma. E a forma aprende-se sobretudo lendo e escrevendo, escrevendo e lendo, lendo e escrevendo, escrevendo e…” “Sim, já percebi. Mas como sei que tenho jeito para a escrita. Existe algum teste específico para ficarmos a saber se temos queda para as letras?”, perguntou o José. E o Fernando: “Que eu saiba não. Mas como o meu pai é um bom leitor, podemos pedir-lhe que leia algo que tu escrevas e que imita a sua opinião. Se ele gostar, podes ter a certeza de que o que tu escreves tem qualidade. Nessas coisas não se engana. Nem na qualidade da escrita, nem na qualidade da música, nem na qualidade do vinho.” “Mas ele é meu amigo”, lembrou o José. E o Fernando: “Damos a ler-lhe um conto sem lhe dizermos de quem é, como se ele fosse o elemento do júri de um prémio literário.” “E se ele disser que não presta aquilo que escrevo, o que vou tentar a seguir?”, perguntou com cara de caso o José. E o Fernando: “Pior do que o teu jeito para a música e para a BD com certeza que não será.” “Obrigado pelo elogio”, melindrou-se o José. Para a seguir perguntar: “E quanto ao cinema? O que é que achas da minha arte cinematográfica?” E o Fernando: “Como tu bem sabes, eu de cinema percebo pouco e também pouco vejo. Mas digo-te desde já que detesto o Godard”, e calou-se fazendo-se desentendido, enquanto abordava uma canção do Leonard Cohen na sua viola de cordas metálicas.


O José continuou a olhar para o Fernando à espera de resposta, mas o seu amigo não lhe dava troco. No entanto, o nosso herói insistiu: “O que é que achas da minha arte cinematográfica? Viste os meus filmes, não viste?” “Vi”, respondeu lacónico o Fernando entre o trauteio de passagem de um verso para outro da canção do canadiano. “E?”, perguntou o José. “Pois!”, disse o Fernando enquanto acompanhava com o seu assobio a canção do Leonard. “Então não dizes nada sobre os meus filmes? Não tens opinião acerca deles. Lá por não simpatizares com o Godard não implica que não gostes das minhas curtas-metragens”, declarou o José já um pouco enfadado, até porque sabia que o Fernando não era rapaz para esconder aquilo que pensava. Mas também sabia que era incapaz de ferir os sentimentos de um amigo. E o José era o seu maior amigo. E o Fernando: “Pois, de facto são curtas, as tuas metragens.” (Assobio de acompanhamento musical). “E?”, insistiu o José. (Assobio de acompanhamento musical). “E são a cores…” (Mais assobio de acompanhamento musical). “E?” “E têm planos interessantes…” “E?” (Ainda mais assobio de acompanhamento musical). “E não têm som, o que lhe dá um toque especial…” (Um pouco menos de assobio de acompanhamento musical). “Especial em quê?” (Um pouco mais de assobio de acompanhamento musical). “É que estamos habituados a que os filmes mudos sejam a preto e branco e os teus são mudos, mas a cores…” “E?” “Olha, se calhar, era boa ideia acompanhá-los com músicas do Leonard Cohen tocadas por mim, um pouco à semelhança dos acompanhamentos ao piano das películas a preto e branco que passavam antigamente nas salas de cinema.”


O José então riu-se e olhando bem nos olhos o seu amigo questionou-o decididamente: “Diz lá de uma vez o que pensas dos meus filmes?” E o Fernando: “Pois ou que são uma valente merda ou então são duas obras-primas. Mas eu inclino-me mais para a primeira hipótese. No entanto isso não invalida a segunda. Pelo menos é ponto assente que medíocre não é, o que é um adianto. Ambos detestamos a mediocridade.”


“Obrigado pela tua sinceridade,” disse o José antes de sair porta fora com a determinação dos génios (demónios?) incompreendidos. 


publicado por João Madureira às 07:45
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