Quarta-feira, 1 de Maio de 2013

O Poema Infinito (144): a densa leveza das memórias


As mulheres cantam mágoas preciosas. Os homens pintam-se com as suas certezas. O tempo transborda dentro do seu jogo indiferente. Os loucos gritam palavras sem texto. Entretanto procuro-te pelo meio da bruma do real. Nasces em pleno parto de virtualidades. Acolhes os prodígios e com eles abres todos os mistérios. Debaixo das tuas pálpebras fechadas dorme agora a luz. Os teus lábios semeiam delírios no vento. No fundo das tuas mãos repousa hoje a esperança da memória. O desejo nasce a cada despertar. É dura a sua reflexão. Tu és a minha mulher secreta. Entrego-te os meus olhos em troca da tangente iluminação dos teus. Ainda duvido da doce permanência da nudez. O tempo distribui as suas armas de pó e abandono. Uma tempestade de meteoritos rasga o céu da tua boca. Sinto-os ainda na língua como se fossem átomos de desejo. Levas-me a passear pela mão. Sobre as colinas nascem as palavras que compõem o génesis. Os pássaros esperam pela leveza dos seus voos. Para ti escrevo as palavras mais belas e com elas urdo a leveza do teu rosto. Enquanto nos olhamos, o sol aproxima-se da janela e os campos refulgem. As sombras acariciam os animais e perdem-se na erva fresca. Os camponeses lembram-se do espumante adejo das abelhas. Sim, os camponeses lembram-se das distâncias que percorreram. E do esforço dos animais. E das estrelas que lhes iluminaram a infância. E da semelhança das primaveras. E de como o corpo cansado das suas mulheres se abria ao rude desejo da paixão. E à ânsia modesta de infinito. E lembram-se, ainda, das raízes das suas memórias e das suas palavras. E do veneno do tempo. E da ilusão do espaço. E do espanto dos animais enclausurados. E da distância entre as veias do seu corpo. E do estremecimento da sua pobreza. E do choro. Do choro imenso dos seus filhos. E da lenta reflexão dos castanheiros centenários. E do amadurecimento do centeio. E lembram-se do seu Deus castigador. E do desespero incompleto dos celeiros. E da estrutura definitiva da sua pobreza. E do seu desespero. E da sua raiva intraduzível. E da sua raiva intraduzível. E da sua raiva intraduzível. E lembram-se também do curso natural dos rios. E da dor das suas águas. E da tristeza inocente do desaparecimento. E da aflição da ausência. E da insignificância humana da sua honra e da sua dignidade. E do murmúrio da fome. E da súbita e brutal criação do caos e da ordem. E de explicarem que não lhes serviu de nada criarem os filhos, benzerem o pão, podarem as árvores, harmonizarem as ribeiras, acariciarem os legumes, tingirem de terra e água as texturas dos vegetais e dos frutos, benzerem as lágrimas dos pinheiros, redimirem a configuração dos carvalhos, a memória dos muros, a cíclica tristeza do abandono, as soluçantes bebedeiras dos afetos e a excecional leveza da estupidez e o desenho retilíneo dos regos e o abate cruel dos animais, que se alegravam de devorar, e as orações sofridas em pecado e as deslocações estúpidas das guerras e o sono frio do desprezo, e da subserviência, e a transbordante ocorrência do imprevisto e o caminho destrutivo da fé. Por isso explodem negando os limites da sua infelicidade. Por isso sou agora a paisagem despida do meu avô, a cor de ouro da minha avó e a tonalidade de sofrimento do meu pai. E da minha mãe. Do abismo pormenorizado da minha mãe. O tempo quebra outro caule da nossa luz. Durmo um novo sono frio no meu quarto cálido. Está na hora de recolhermos todos os mistérios. 


publicado por João Madureira às 07:45
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