Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 158


158 – Desiludido com a arte, voltou-se para outro lado – para o outro lado –, como quem se sente mal durante o sono por ter adormecido na posição do coração e de repente se vira para o lado direito para conseguir sobreviver aos movimentos arritmados do seu coração apaixonado, isto se o tiver,  bien entendu, como muito bem poderia dizer o camarada Jean Ferrat.


Afinal podemos morrer de amor, falecer por causa do pecado da gula, mas ninguém morre por amor à arte. Era o que mais faltava, morrer pela arte. No entanto, no caso do José, não sabemos se isso era possível. De facto, o nosso herói, como já informamos anteriormente, tinha falado na barriga da mãe. E isso era indício de que havia sido tocado por algo de sublime. Ele, apesar da sua aparente e teimosa conformidade com a realidade, era, sobretudo, um ser de ficção, especialmente no aspeto em que a ficção é sempre mais ousada e verdadeira do que a própria realidade. Podendo mesmo atrever-nos a afirmar que a ficção é que é a verdadeira realidade, por muito que isso nos custe a todos.


Voltou de novo à sua intermitente atividade sociocultural, que, no seu modesto ponto de vista, era política, mesmo não parecendo. Uma vez revolucionário, revolucionário para sempre. O Graça nisso era amigo, tinha a noção de que a sua principal valência era do lado da cultura. Uma vez culto, culto para sempre. Uma vez amigo, amigo para sempre. Bem, esta última afirmação tem o seu quê de logro, no entanto vamos deixá-la como está para não interferirmos com o destino, pois esse axioma vai a seu tempo ser devidamente desmentido pela realidade, que sendo mais pobre do que a ficção, a realidade, claro está, não deixa de ser incómoda como um enxame de abelhas tocado por um varapau de rapaz inconsciente ou distraído.


Farto da revolução feita à base de pintar paredes e colar cartazes, o José decidiu investir na frente da animação das associações juvenis. Arranjou um amigo, ou melhor dois, e com eles empreendeu a implementação do FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis) em Névoa.


Alugaram uma casa na Rua do Poço, ou dos judeus, recolheram cadeiras, mesas e armários em várias instituições públicas e particulares, adquiriram, com subsídios do Estado, tabuleiros de xadrez e uma televisão, e convidaram os jovens a frequentar a casa, tendo em vista dar-lhes uma ocupação que lhes espevitasse as meninges. Realizaram torneios de xadrez, dinamizaram ateliês de pintura e escultura e iniciaram a constituição de uma biblioteca, e de um grupo de leitores, erigida à base de livros oferecidos que podiam ser lidos em troca de uma pequena quota em dinheiro que seria empregue na aquisição de novas obras.


Tudo se iniciou com o entusiamo necessário a estas coisas. Realizou-se o primeiro torneio de xadrez com a inscrição de dezenas de jovens. Todos eles pagaram, no ato da inscrição, uma quantia simbólica que reverteu a favor da biblioteca em formação. Até o José, que pouco sabia de xadrez, se inscreveu. Não era muito usual os dirigentes inscreverem-se nos torneios que organizavam, mas o José resolveu correr o risco.


Logo no primeiro match saiu-lhe na rifa um militante da extrema-esquerda com um tal ar de Karpov que o José deu logo o jogo por perdido. Mas qualquer jogo, antes de ser perdido, tem de ser jogado, mesmo que isso nos custe. E foi o que o José fez, jogou o jogo pelo jogo. O José, temos de ser sinceros, não gostava nada, mas mesmo nada, de perder, mesmo que fosse a feijões. Por isso sentiu-se mal por lhe ter calhado em sorte esse tal Gasparov, ou Karpov, ou lá o que fosse. Aquele seu ar supostamente inteligente intimidou-o deveras. Além disso, tinha uma vozinha afetada, uns trejeitos amaneirados e emitia uns olhares tão intrigantes como se o quisesse encher de beijos, ou merdas pelo estilo. O José tentou concentrar-se no jogo. E concentrou-se seriamente. Como ficou com as peças pretas, restou-lhe aguardar que o seu adversário, com aspeto de Tasparov, Rarkakov ou lá o que fosse, abrisse o jogo. Bem, o Gsapirov amaneirado demorou o tempo todo permitido pelos regulamentos para realizar uma jogada e mexer o peão de rei. Depois do movimento da sua peça, o Kaspariov da voz afetada mexeu no cronómetro e preparou-se para esperar tanto tempo como o que despendeu a realizar a sua jogada. Mas o José não se fez esperar, jogou um cavalo passados apenas alguns segundos. O Rasparov arrebicado, incrédulo com a rapidez do seu adversário, disse-lhe que não havia necessidade de jogar tão depressa, pois o jogo de xadrez serve sobretudo para pensar e pensar leva o seu tempo. E lembrou-lhe que o xadrez não era como as damas, de jogo, claro está, não as damas de mamas e coisa e tal. Que levasse o seu tempo, que ele não lhe levava a mal, pois o xadrez serve sobretudo para pensar. E pensar leva o seu tempo. O xadrez é um jogo de estratégia. E a estratégia leva o seu tempo. O Fasrapov efeminado gastou novamente todo o tempo permitido pelo regulamento do concurso, cerca de vinte minutos, para mover outro peão. O José nem queria acreditar, mas as jogadas do seu adversário eram todas mais do que previsíveis. A seguir aquele caminho, o Kartapov amaricado arriscava-se a perder. Mas o José, desconfiado, pensando que era estratégia para o enganar, jogou de forma provocadora, ameaçando-lhe uma peça em troca de nada. E fê-lo também rapidamente. Não estava para perder tempo com o jogo, quanto mais depressa ele acabasse melhor. Já que ia ser derrotado, pelo menos que o fosse o mais rapidamente possível. O Vospurov, ou karkarov, ou lá o que era, com mais um gesto irritante, para o José, claro está, lembrou-lhe que levasse o seu tempo, que ele percebia, pois o xadrez serve principalmente para meditar. E meditar leva o seu tempo. O xadrez é um jogo de estratégia. E a estratégia leva o seu tempo. Mas a rapidez do José não buliu minimamente com a estratégia do seu adversário. Ele meditou, pensou e discorreu mais vinte minutos sobre a peça a jogar e o movimento a fazer. A partir daqui, o ritmo do jogo não se alterou. O José rápido e o Vorparov de olhos verdes arrepiantes sempre em jogadas de vinte minutos. Lá para o décimo quinto movimento, já perto da noite, o José começou a dar-se conta de que o Kritipov, ou lá o que era, das palavras sibilantes, afinal não percebia nada de xadrez. Sabia mexer as pedras e pouco mais. Mas, verdade seja dita, ele não saía da sua pose. Olhar de entendido, escrevendo num caderninho as suas jogadas e as do José, tocando nas suas peças com se fossem papos de rola, e marcando o tempo no relógio com todo o ar do deus Kronos.  Mas enquanto o Pagaspov, ou Gaskarov, ou lá o que era, afetado, se entretinha com os pormenores, o José começou a olhar para o jogo com olhos de ver. Já lhe levava uma boa vantagem em peças tomadas. E, a seguir por aquele caminho, o maricas do xadrez ia ser derrotado sem apelo nem agravo. Mas não se dava conta. Por isso continuava com a lengalenga de que o xadrez é um jogo de paciência e de estratégia. E que a estratégia leva tempo. E que a paciência também. Depois calava-se durante dezanove irritantes minutos a fazer que pensava numa jogada. E até parecia que pensava. Quem estivesse a assistir ao jogo e não percebesse nada de xadrez só podia dar como vencedor o adversário do José. Pois apenas um campeão consegue demorar vinte minutos a mudar uma peça, depois anotá-la num caderninho com uma letra de menina de colégio enamorada pelo Simão do Amor de Perdição e finalmente tocar no cronómetro para parar o seu tempo e dar início ao tempo do adversário.


Quando caiu a noite, o xadrezista maneirento, depois de ter realizado o seu vigésimo lance, com todo o seu ar de entendido, depois de o ter anotado no caderninho e de ter dado por terminado o tempo da sua jogada, levantou o seu olhar afetado e rindo-se como um anjo rabudo, propôs: “Vai sendo hora de jantar. O melhor é interrompermos o nosso match e continuarmo-lo logo mais à noite ou deixá-lo para amanhã.” “Toca lá no relógio, pois eu vou jogar”, avisou-o o José. E o Marparov, ou Zaspopov, ou lá o que era: “Não tens fome? Olha que isto, pelas minhas contas, ainda é jogo para durar umas horas largas.” E o José: “Achas?” “Tenho a certeza. Eu já tenho muita experiencia neste jogo. Já passei muitas horas a jogar…” “Disso, não duvido. Dá para ver. O tempo que tu levas para fazer cada jogada é disso um exemplo perfeito”, ironizou o José. E o Pokarpov, ou Gasvonov, ou lá o que era: “Sim. Eu penso muito. Esse é o espírito do xadrez. O xadrez é um jogo de estratégia. Um jogo que exige pensar muito, pois devemos cogitar maduramente nas nossas jogadas. E, sobretudo, estudar as do adversário. Pois as nossas jogadas devem sempre abrir caminho para a frente, mas sem nunca esquecer a retaguarda. O xadrez é como uma guerra, temos de pensar sempre na estratégia do inimigo.”


Ia a levantar-se, depois de ter fechado o caderninho e ter arrumado a caneta, quando o José se virou para ele e disse as palavras fatais no xadrez: “Xeque-mate.”


publicado por João Madureira às 07:45
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