Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Pérolas e diamantes (36): o pequeno mundo dos políticos

 

Há um escritor português contemporâneo que aprecio muito, ou melhor, que tem um livro que me deslumbrou quando o li. O escritor chama-se Mário de Carvalho e livro intitula-se Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.

 

O livro recomendo-o vivamente, mas desta vez vou falar do escritor, ou melhor, de duas pertinentes e esclarecedoras entrevistas que deu aos periódicos Expresso e Jornal de Negócios. Eu não o acompanho em tudo, pois é muito à esquerda para o meu gosto. No entanto, esta classificação é problemática pois lembro que, nos tempos que correm, até a Dr.ª Manuela Ferreira Leite é vista no PSD como uma terrível e perigosa esquerdista.

 

Mário de Carvalho disse uma frase que me tocou especialmente: “A gravidade puxa-nos para baixo”, querendo com isto referir-se à mediocridade, à intolerância, à inveja, à conspiração e ao compadrio. E justificou-o afirmando que o fascismo é natural nas pessoas, pois elas gostam de mandar umas nas outras. Daí os tiraninhos e os tiranetes de província armados em autarcas e os tiranetes e tiraninhos sentados nas cadeiras do poder em Lisboa, justificando o injustificável, defendendo o indefensável e mentindo como se dissessem a verdade.

 

Pois o que custa, lembra o escritor, é o “progressismo”, porque implica esforço, ir mais além, fixar normas e construir instituições que afastem os homens da animalidade.

 

Nós estamos a entrar num período decisivo da nossa história às arrecuas. E a nós flavienses isso está a custar-nos o dobro, pois se do lado do governo central nos chega a chuva em forma de tormenta, aqui para os lados do nosso concelho troveja forte e feio.

 

Mário de Carvalho disse que, para escapar à repressão fascista, teve de se ausentar do país. E sabem por onde passou? Pois por Chaves, que sempre foi terra de gente hospitaleira, honrada e tolerante. Aqui chegou de camioneta, com a mochila às costas, e, conta ele com algum humor, logo foi catrapiscado por uma mocinha camponesa que com ele engraçou. Mas não teve tempo para o namoro, pois foi levado de táxi até à fronteira e ali atravessou a ribeira pelo caminho de pedras, “como na anedota com Jesus Cristo”.

 

Em Espanha foi dar a uma “terra miserável”, onde mandou chamar, com lhe disseram, o sr. Pepe. Foi na sua casa de novo-rico que dormiu num quarto repleto de bonecas espanholas que mexiam os olhos. Como se o pesadelo das bonecas fosse pouco, o alegre Pepe obrigou-o a escutar a cassete com a canção do “Porompompero” durante toda a viagem. Nunca mais pôde ouvir aquilo.

 

Depois falou dos políticos, pois ele, com a sua idade e experiência, conhece-os de ginjeira. Disse que os atuais são muitos fracos, não querendo com isso afirmar que não são inteligentes, mas que a maioria deles é incompatível com as funções que ocupa e incapaz de compreender um fenómeno nas suas várias dimensões. “São pessoas a quem foram inculcadas, à partida, uma série de noções que estão fechadas dentro delas e não são capazes de lá sair. O seu mundo é muito pequenino.”

 

Depois esclarece a razão pela qual a ideologia dominante dos nossos governantes é contra o Estado e contra a regulação. É que é a necessidade de regulação o que origina a lei. E a lei, para esta gente, é um empecilho (veja-se a contestação surda e mesquinha à Constituição e ao Tribunal Constitucional), um embaraço. Eles são contra o Estado pela simples razão de que é o máximo garante e defensor da lei e da regulação.

 

Sobre o papel dos intelectuais, aos quais o poder tanto persegue e calunia, refere que “o nosso espaço de reflexão individual tem sido assoberbado pelo poder e pelas televisões”. Por isso é que existe a desvalorização dos intelectuais. Uma desvalorização da literatura e das artes. É que “o saber é incómodo, está a mais, é maçador.” Interessa-lhes muito pouco o que possa dizer um filósofo, um escritor ou um cientista. “É um pouco nivelar por baixo”.

 

E este governo, e a grande maioria das autarquias, ao desinvestirem tão drasticamente na educação e na cultura, estão a nivelar por baixo. Muito por baixo. É uma espécie de fascismo servido às pinguinhas.

 

É mesmo como diz um amigo meu: “Semeámos flores, nasceram-nos cardos. Enganaram-nos novamente com a embalagem das sementes. Temos de mudar de vendedor.”


publicado por João Madureira às 07:45
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