Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

O Poema Infinito (145): viagem sem fim nem princípio


É descalço que vou ter contigo e pouso as minhas despidas mãos no teu rosto vestido de tristeza e descanso a minha ânsia de infinito. Quando o teu sorriso voltar abrirá todas as palavras de ânimo e esperança. As sombras tomam conta do silêncio. E o silêncio range nas tábuas velhas do soalho. Colhemos as lágrimas que vamos chorar quando chegar a altura certa. Sinto o peso dos anos inundar-nos como as ondas na maré cheia. A tua boca fica dura. As aves ficam impacientes. A luz incha e penetra os espelhos. Um verso atravessa-me como se eu fosse a tua mágoa. E isso dói. A noite expande-se. No outro lado do mundo morrem crianças e são amortalhadas pelas histórias movediças do abandono e da indiferença. E isso dói. Da tarde ficou-me o metal cinzento das nuvens e o choro das giestas em flor. Os pastores lembram-se do tempo, do seu tempo rústico, quando adormeciam junto às casas traídos pela miséria e pela vergonha. E pelo cansaço. Eram eles que faziam coagular o tempo quando matavam as suas ovelhas. E o espaço enchia-se de frio e de mãos inertes. E as bocas lambiam o frio tentando amansá-lo. Entre os montes nascia uma narrativa explosiva. E da experiência velha surgia uma nova, que também era velha como a sabedoria dos astros. O nosso bairro era o centro magnético do mundo. E as mulheres rezavam para que o inverno morresse e para que as almas dos antigos pastores ressuscitassem na primavera. E horas ardiam nas colinas. E os rapazes apedrejavam as memórias dos seus pais e tateavam as vozes das moçoilas enquanto se masturbavam gritando obscenidades inocentes. Ardia-lhes a alegria no sexo. À noite passeavam o fogo pelo seu corpo friorento e cantavam para espantar o medo do amor e a aflição da morte. E deixavam-se inundar pelos seus sonhos de carne e vinho. E prometiam a Deus abstinência e ao Diabo a sua alma em troca de poderem pecar sem que fossem recriminados por serem intransigentemente humanos e pobres. E por serem amargos e por perseguirem as linhas do horizonte e por deslizarem encostados às suas fantasias e por semearem ternura nas terras húmidas. Depois veio a sucessão dos anos e eles dissolveram-se na confusão da vida. E foram cercados pelos lobos. E passaram a ouvir as máquinas e a sua voragem aniquiladora. E deixaram de poder responder às suas próprias perguntas. E tornaram-se belicosos. E doidos. E deixaram de ter sossego. E compareceram sem se fazer anunciar: a chuva, as dores, as doenças, o crime, o terror, a morte. E o tempo ficou espesso. E o silêncio apanhou-lhes a boca e fatiou-lhes as palavras. E passaram a obedecer ao silêncio. E a Deus. E ao Diabo. E deixaram-se povoar pelos espíritos e pelas superstições. E fecharam-se nas abstrações alcoólicas dos bares e nos versículos da Antigo Testamento. E deixaram de apreciar ver as suas mulheres colherem flores no quintal e deliciarem-se com o voo veloz das aves e com os grandes dias de sol. E no bairro começou a sentir-se o silêncio a devorar as portas e a enfiar-se dentro das casas e a deitar-se com as pessoas. E vieram os grandes nevoeiros. E os cães começaram a ganir. E choveu dentro da infância dos seus filhos. E as plantas começaram a dar flores de distância e as árvores começaram a dar frutos de sombras. E no chão acordou a vingança. Todos ficaram mudos à espera da passagem do tempo. E apertaram tanto as palavras que elas acabaram por morrer. O ar ficou liso. As máquinas doentes. Os homens loucos começaram a passear entre as ruínas. E o futuro morreu ao entardecer, declinando-se sobre as árvores. O que mais nos dói é que esta viagem não tem fim. Nem princípio. 


publicado por João Madureira às 07:45
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1 comentário:
De MIMI a 9 de Maio de 2013 às 22:13
Fura o tédio da vida com a beleza de um poema.


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