Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Pérolas e diamantes (37): humor com humor se paga


Há uns dias encontrei o meu bom amigo F. e fiquei radiante. Tanto eu como ele somos, além de amigos, como referi, apreciadores de bons livros de humor, sobretudo de romances picarescos. Dizem por aí que os livros são os nossos melhores amigos, mas permitam-me discordar um poucochinho, pois, apesar de os livros serem dos meus maiores amigos, e eu deles, claro está, os meus melhores amigos ainda são pessoas da qualidade e da humildade do meu afetuoso F.

 

Nós partilhamos muitas coisas, sobretudo amizade, mas também livros e alguma informação acerca deles. Desta vez falei-lhe do meu entusiasmo pelo livro de Jaroslav Hasek, O Bom Soldado Svejk, cujo protagonista vive enredado nas aventuras e desventuras do seu regimento de infantaria durante a Primeira Guerra Mundial. Falei-lhe do tom satírico, que aparece aliado a um uso expedito e subversivo da língua, recorrendo a expressões obscenas, ao calão e a jogos linguísticos de sentido múltiplo, instrumentos que Hasek utiliza magistralmente para evidenciar o absurdo da guerra.

 

Falei-lhe das tragédias ao mesmo tempo terríveis e burlescas de faca e alguidar, da miséria, do horror e da violência, ao lado dos prazeres da vida e do encontro da consolação, que mais não são do que a descrição da natureza humana, e que fazem deste livro um clássico da literatura universal.

 

Eu ali pegadinho ao meu entusiasmo, a ver se o estimulava em relação ao livro e ele a dizer-me que se eu queria falar de humor então que ouvisse esta: “O senhor presidente veio a público afirmar que a Câmara de Chaves fechou as contas relativas ao ano de 2012 com um resultado líquido positivo de 3 milhões de euros. Então como é que uma autarquia cuja dívida, segundo o PSD, é de cerca de 41 milhões de euros, e segundo o PS de Paula Barros, é aproximadamente de cerca de 50 milhões, encerra as contas com resultados líquidos positivos? Será um milagre? Esta é boa não é?” E riu-se. E eu também me ri, por o ver rir a ele. Pois o meu amigo tem um sentido de humor muito apurado e umas gargalhadas contagiantes.

 

Ele para ali: “Ah! Ah! Ah!” E eu também: “Ah! Ah! Ah!” “E olha”, disse-lhe eu, “o soldado Svejk, a páginas tantas, encontra um tal cozinheiro ocultista que confidencia a um segundo-sargento contabilista: ‘Meu caro amigo, existe a precariedade de todas as manifestações, formas e coisas. A forma é precariedade e a precariedade é forma. A precariedade não é distinta da forma e a forma não é distinta da precariedade. O que é precariedade, é forma, o que é forma, é precariedade.’”

 

“E isso que raio é?, perguntou-me ele. E riu-se: “Ah! Ah! Ah!” E eu também me ri: “Ah! Ah! Ah!” “De que ris tu?”, perguntou-me ele. E eu: “Do sutra do cozinheiro ocultista.” E ele: “Eu pensei que era das palavras do nosso ilustre edil. E eu: “A esse senhor já não lhe encontro piada nenhuma.” E ele: “Mas tens de reconhecer que a tem”. E eu: “Piada tem é o Svejk, quando um pouco mais à frente, referindo-se ao tal cozinheiro ocultista diz: ‘Só faz é apreciações um bocadinho disparatadas. Passa a vida a exprimir umas coisas sobre umas formas quaisquer, que uma forma não é uma forma e que aquilo que não é uma forma é que é uma forma e que essa forma, por seu lado, não é forma nenhuma.’” E ele: “É um pouco como João Batista, que apesar de a Câmara ter uma dívida colossal, profere que até encerrou as contas do ano com lucro. Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “O argumento é hilariante, não é? Ah! Ah! Ah!” E eu: “Não, a mim esse tipo de argumentação enganosa não me faz rir. O que me faz rir é o Svejk… Ah! Ah! Ah! Muito mais à frente, diz-lhe o tenente Dub: ‘Penso que está a ver onde quero chegar…’”

 

E ele: “A Câmara de Chaves é uma das 71 autarquias resgatadas (com contrato de empréstimo)…” E eu: “‘Com certeza, estou a ver perfeitamente – respondeu Svejk. – O senhor fala tal e qual o canalizador Pokorný, em Budejovice…’” E ele: “… para poderem pagar as suas dívidas aos fornecedores, transformando a dívida de curto em longo prazo (maturidades entre 14 a 20 anos)…” E eu: “‘Esse, quando as pessoas lhe perguntavam: «Este ano tomou banho no Rio Malse?», respondia: «Não tomei, mas em contrapartida este ano vai ser bom para a ameixa».’  Ah! Ah! Ah!” …

 

E ele: “Ah! Ah! Ah! Isto acontece porque à Camara de Chaves já nenhum banco lhe empresta um tosto. Por isso tem de recorrer ao Estado. Assim como o Estado Português recorre à Troika. Isto quer dizer que a nossa autarquia está arruinada… E eu: “Ou então perguntavam-lhe: «Este ano já comeu cogumelinhos?» e ele respondia «Não comi, mas dizem que esse novo sultão de Marrocos é muito boa pessoa». Ah! Ah! Ah!” E ele: “A Câmara, apesar dos tais 3 milhões de lucro… Ah! Ah! Ah! Pediu emprestado 7.873.426.62 euros. E eu: “Este ano já comeu cogumelinhos? Ah! Ah! Ah!” E ele: “A Câmara teve lucro e viu-se obrigada a pedir um empréstimo de 7.873.426.62 euros. Ah! Ah! Ah!”

 

E eu: “Ah! Ah! Ah! O Svejk é cá um prato.” E ele: “Olha que o nosso presidente não lhe fica atrás. Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E estivemos nisto para aí vinte minutos até que chegaram as nossas esposas e demos por terminada a sessão para irmos jantar juntos. Elas, apesar de excelentes esposas e amigas, não possuem, ou não partilham, do nosso sentido de humor.

 

Ah! Ah! Ah!


publicado por João Madureira às 07:45
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1 comentário:
De Humberto Ferreira a 13 de Maio de 2013 às 08:17
O melhor mesmo é trazer o Svejk para CMChaves. Pelo menos ele deve saber fazer contas.
Um abraço,
Berto


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