Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

O Poema Infinito (146): a luz da criação

 

O brilho dos vitrais inflamam os teus olhos enquanto eu saboreio a fluidez da tarde. Começaram os dias serenos. O silêncio sobe pelas árvores especulando sobre o ritmo do escurecer. De um tempo remoto chegam-nos frases incandescentes, pulando sobre o ritmo dos rios. Perdemo-nos no vagar da profundidade da floresta. Antigos sinais chegam de longe. Nunca nenhum azul do céu foi tão triste como este. O mundo despe-se da sua luz. E o teu desejo é um eco breve. O mar cresce e dentro dele surge nítido o brilho da sua glória. Os teus olhos refletem a harmonia gloriosa da plenitude. As marés expandem-se. Tudo se torna cristalino como os astros. Por isso amo a atracão cosmológica do teu sorriso. Os objetos rebentam dentro da sua iluminação. Eu sofro com a tua transparência, com a lenta iluminação das almas, com os corpos habitados pelo sofrimento e pelo pressentimento da escuridão. Tu és a minha narração, o meu ímpeto passivo, a minha distensão paciente em direção ao desejo e à morte. O mundo fica suspenso. Hoje sou o teu lugar. O teu descanso. A tua interiorização. O silêncio vive do seu próprio estudo e a luz da sua infinita linearidade. A vida persiste na sua figura ambígua expandindo-se na sua desventurada fragilidade. O tempo regressa à sua condição de imagem. Por isso, o mar é liso como a antiguidade. Cada vez sinto mais a minha idade a abrir-se devagar. Esse é o seu ciclo enigmático. Essa é a sua dulcíssima lucidez. A inteligência recolhe a brisa da tarde. As folhas novas parecem faíscas prodigiosas. O mundo move-se na sua abstração profunda. E toda a infância sucumbe no seu excesso dourado. Levas-me no teu júbilo de maré aberta, no teu crepúsculo de asas veementes. A tarde consome-se no seu poente e declina-se no espelho reflexivo do mar. Despeço-me momentaneamente da minha melancolia, do estrondo do tempo, da imagem enigmática da eficácia. Sinto-me caminhar na fronteira do universo. A noite fecha-se por dentro e afunda-se no seu silêncio. Subo ao planalto e sinto o júbilo do seu céu implacável. O azul vinca-se mais e inscreve-se feliz nos teus olhos. O amor é um sinal invisível. A luz descansa na quietude jubilosa das águas. Todos os lugares estão perto do afastamento, no vagar vazio de Deus e no tempo eterno que o envolve. As palavras erguem-se na sua fúria contemporânea. A escrita é uma ausência viva. Apesar da claridade, a escuridão torna-se implícita. A escuridão possui também a sua própria luz. E os seus objetos íntimos. Todo o pensamento é infinito e nele cresce a sua radiação. As crianças cantam a sua doçura larga e prolongam-se na sua lucidez de alegria. E sorriem como se não houvesse tempo, nem futuro. Nem passado. E continuam a sorrir como se todos os lugares fossem abertos, como se as almas fossem pombas sacramentadas, como se o tempo fosse uma evidência diluviana, como se o amor fosse uma palavra feliz, como se o prazer fosse uma causa eterna e o gozo uma crítica quântica. Reparo agora que todas as flores obedecem a um vínculo obscuro, como se fossem glorificadas pela ordenação dos espaços, como se estivessem prisioneiras da sua cor e do seu odor, como se retivessem a beleza superficial. Daí o seu volume incerto, a sua fixidez imóvel, a sua tepidez divina. Eu não gosto de flores, mas é como se gostasse. Por isso me ajusto à obscuridade fria da ciência, ao tempo que se expõe no longínquo esplendor da relva e na metafísica dos aflitos e no desespero forte e no pasmo excessivo dos néscios. Até o próprio conhecimento se reduz à sua frágil eternidade. Estamos sós. O vento traz consigo corolas azuis de alegria e os insetos sentem e percebem a nossa feliz infelicidade. Os anos começam a transparecer. As nossas retinas fixam a nossa nudez. Lá voltamos ao pecado original. A Criação está de volta. 




publicado por João Madureira às 07:45
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