Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 160


160 – O José e os outros dois seus amigos do FAOJ, julgando-se incompreendidos e sentindo que a revolução cultural é muito lenta e possui contornos duvidosos, viraram-se para o lado mais eficaz da luta revolucionária: as armas. Se o povo não ia lá com a cultura, talvez fosse este o momento adequado para se experimentar o método mais eficaz da bomba e da bala, pois o do chuço e da baioneta estava definitivamente ultrapassado. Para grandes males, grandes remédios. 


Falhada a experiência de apanhar um ladrão traidor e reacionário à lei da bomba, o seu amigo Francisco tratou imediatamente de dar vazão ao seu ímpeto guerrilheiro e começou a cogitar na forma de dar sentido à luta armada em terras nevoenses e seus arredores.


Pistolas nem vê-las. As poucas que existiam do lado revolucionário estavam nas mãos de camaradas dirigentes que se enervavam muito no momento de utilizá-las passando-as de mão em mão como se fossem castanhas acabadinhas de tirar do lume. Armas públicas, revoluções falhadas.


Outro problema residia também no facto de ser ainda mais difícil arranjar munições do que pistolas. O camarada Francisco, o objeto mais parecido com uma arma que possuía era uma navalha que utilizava com mestria na limpeza das unhas e para descascar maçãs e outros frutos do género.


Também existia a hipótese das caçadeiras, só que eram armas que davam muito nas vistas, pesadas, de difícil manejo e com um coice, no momento do disparo, que podia deslocar ombros aos jovens camaradas que primavam, apesar da sua robustez ideológica, pela magreza e pela debilidade muscular.


Depois de magicarem sobre o assunto, decidiram-se pelas bombas. Eram muito mais eficazes no momento da ação. Além disso matavam mais gente e eram, por isso mesmo, armas bem mais úteis e económicas. O problema residia na forma de as fabricar e também na logística no momento de colocá-las.


Como eram inexperientes, resolveram contactar um camarada fogueteiro de fora do concelho e pedir-lhe que lhes fizesse umas bombitas para defender a revolução e também as sedes partidárias.


De facto, aproximava-se a data marcada de uma manifestação de reacionários que incluía, no seu percurso citadino, a passagem pelo centro de trabalho do Partido. Umas bombitas vinham mesmo a calhar.


Ainda antes do contacto, o camarada Francisco, junto com mais três outros camaradas da brigada de defesa da revolução, fizeram um buraco no chão da despensa traseira do centro de trabalho destinado a armazenar o arsenal de bombas.


Numa noite de lua cheia, reuniram-se junto ao paiol do camarada fogueteiro e informaram-no da necessidade de arranjarem bombas de autodefesa e de ataque e contra-ataque. Ele disse-lhes que dessas ele não sabia fazer. O camarada fogueteiro conseguia confecionar, dentro de umas caixas de lata, bombas feitas à base de pólvora, cabeças de pregos caibrais e pedaços de ferro fundido.


Aqueles petardos, depois de rebentarem no meio de uma multidão de reacionários, era arma para ferir gravemente ou matar uma caterva deles. E sem fazer distinções objetivas. Ou mesmo subjetivas.


Os camaradas concordaram. Aquilo era para matar indiscriminadamente, fosse homem ou mulher, rapariga ou rapaz, mulher, marido ou amante, filho ou filha, primo ou prima, solteiros ou casados e até divorciados. E as mortes podiam ser diversas. Ou pelos estilhaços da bomba propriamente dita, ou ainda por atropelamento e esmagamento, logo após o deflagrar da bomba e do pânico que isso indubitavelmente gerava numa multidão, ao mesmo tempo, eufórica e acagaçada.


As bombas podiam ser utilizadas de duas formas, ou por rebentamento através de mecha ou por deflagração através de um circuito elétrico. O cliente é que escolhia a estratégia. Claro que em caso de assalto ao centro de trabalho, o mais indicado era mesmo acender a mecha e lançar a bomba para o meio da populaça reacionária e fascista, mas com bom impulso, pois quanto mais para o meio da manifestação fosse arremessada mais efeito teria. Os camaradas podiam estar certos de que as suas queridas bombas eram mesmo muito boas e também extremamente fiáveis. Ele não era homem para vender gato por lebre. Material feito por si tinha selo de garantia.


O camarada fogueteiro pediu uma semana para confecionar o material, pois só dessa maneira podia garantir confidencialidade e qualidade de fabrico. Material tão sensível tinha de ser feito por ele mesmo e em momentos muito bem escolhidos para não levantar suspeitas.


Quando receberam o material, os camaradas da célula armada resolveram ir testá-lo para o monte. Pegaram numa espécie de morteiro envolto com pedaços de ferro, acenderam a mecha, depositaram-no na base de um muro de granito e encolheram-se do outro lado para verem o que dali resultava. Depois de esperarem mais do que o tempo previsto para a bomba rebentar, resolveram, à cautela, espreitar para o outro lado do muro. Apenas viram fumo a sair de um pedaço de papel de embrulho. A bomba tinha ardido sem explodir porque tinha sido aberta num dos lados pelo Francisco, para ver se o que estava lá dentro era mesmo pólvora e pedaços de ferro fundido. Foi esta curiosidade que os salvou de serem presumivelmente mortos pela projeção das pedras do muro. Ficou provado que até os mais intrépidos materialistas possuem o seu anjo da guarda.

 

Não satisfeitos com a façanha resolveram ir experimentar uma segunda bomba, desta vez à noite, bem junto ao rio. Mas, por sugestão do outro amigo especialista em eletrónica, resolveram detonar o engenho explosivo à distância, com a ajuda de um fio elétrico e de um pilha apropriada.


Desta vez, como o Francisco não lhe tinha posto as mãos, a bomba explodiu muito bem. Mas mesmo muito bem. Como a detonação foi enorme, todos os cães das redondezas se puseram a ladrar ao mesmo tempo, o que originou que os seus donos pegassem nas caçadeiras e fossem ver o que se passava. Os pescadores furtivos não utilizavam bombas daquela envergadura, pois, a avaliar pelo estrondo, uma bomba daquelas era das indicadas para pescar tubarões e, ao que todos sabiam, no Tâmega não havia peixes dessa envergadura.


Bem, o José e os outros dois camaradas seus, com o susto, começaram a correr de tal forma e feição que parecia que levavam o diabo atrás. Só pararam às portas da cidade, a arfar como cães.


Decidiram que para se utilizarem bombas é preciso bem mais atributos do que a vontade e determinação revolucionárias.

 

Quando o dia da manifestação chegou, os reacionários resolveram peregrinar à sede do Partido com a nítida intenção de expulsar todos os comunistas da cidade. E eles, os reacionários, eram tantos, meu Deus, mas tantos, tantos, tantos, que se tivessem pensado um bocado, tinham chegado à conclusão de que meia dúzia de comunistas em Névoa eram até motivo de orgulho para a terra. A democracia que diziam defender só podia sentir-se legitimada pelo direito à diferença.


O Francisco, vingativo como era, encheu-se com toda a raiva revolucionária que tinha, e ele possuía-a em doses industriais, e quando já se preparava para acender a mecha da maior bomba que tinha ocultado no esconderijo secreto da despensa do centro de trabalho e lançá-la, de olhos fechados, para o meio da multidão com o firme propósito de dizimar a maior quantidade de reacionários possível da maior manifestação que já tinha visto na sua vida, o José chegou-se ao pé dele e tirou-lha da mão como o anjo sacou a faca da mão de Abraão quando este se preparava para degolar o seu filho Issac, como prova de amor a Deus.


Naquele momento, chegou um camião do exército com militares que se tinham voluntariado para defender o centro de trabalho do Partido Comunista e assim evitar um banho de sangue ou, quem sabe, o início de uma guerra civil em Portugal.


Quando viram os militares de Abril, os reacionários resolveram continuar a sua procissão até ao Largo de Camões e aí dispersar como se tivessem vencido o inimigo comunista. Mas foi uma ilusão.


Por seu lado, os comunistas, ao lado do seu querido e estimado MFA, também se convenceram de que tinham derrotado a reação. Mas também eles estavam enganados.


À noite uma estrela cadente foi avistada no céu. A Dona Rosa foi a primeira a avistá-la. Soube imediatamente que era a astro guia do seu filho que tinha salvado o país de um banho de sangue. E rezou três pais-nossos e três ave-marias, bem junto a Nossa Senhora que sorria para a velinha que a sua estimada devota tinha permanentemente acesa no seu quarto.

 


publicado por João Madureira às 07:45
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