Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 161


161 – Depois do seu contributo para ajudar a enfrentar, e a vencer, a reação, na aliança sagrada entre o povo e o MFA, o nosso herói ascendeu uns degraus na consideração dos dirigentes do seu partido. Afinal o camarada José não era só bazófia, crítica e intelecto. Era também povo, marxismo-leninismo, armas e corpo às balas. E para lhe demonstrarem a sua estima, e o seu apreço, resolveram destacá-lo para o serviço de segurança. A planificação, o incentivo e a emulação são, como todos bem sabemos, os principais atributos dos revolucionários bolcheviques. Nisso os revolucionários são mesmo chiques. Rima e é verdade.


Principiaram logo com uma prova de fogo: incluíram-no na equipa de segurança do camarada Alberto Punhal. E não o fizeram de ânimo leve, nem para dar nas vistas, pois destacaram-no para ir proteger o Secretário-geral do Partido em Bragança, cidade que tinha a fama, e o proveito, convenhamos, de ser considerada a mais anticomunista de Portugal.


O José conhecia mesmo um camarada que tinha sido expulso dessa cidade e a quem incendiaram o carro com ele lá dentro. O valoroso camarada conseguiu escapar, à justa, de morrer carbonizado dentro do seu automóvel e a tempo de se pôr em fuga sem ser alvejado pelos muitos tiros de caçadeira com que os reacionários o brindaram na hora da despedida. Pode parecer um nadinha estranho, mas os reacionários também possuem o seu sentido de humor.


Portanto, ele e restante equipa de camaradas de Névoa destacados para tão honrosa missão, já sabiam dos perigos que corriam. Muito provavelmente, por motivos de segurança partidária e de sigilo revolucionário, mandaram-nos para Bragança sem uma única arma. Também a revolução tem razões que a própria revolução desconhece.


Quando perguntaram a que se devia tão arrojada estratégia – pois a não ser com armas, o contributo da brigada na segurança do camarada Secretário-geral só se podia realizar através da força física e para isso eles eram de pouco préstimo –, responderam-lhes que não estavam autorizados a emprestar-lhes armas e que se sentissem verdadeiramente necessidade delas era favor colocar essa questão aos dirigentes locais ou à própria brigada permanente de segurança do Comité Central, especificamente à do camarada Alberto Punhal.


Não é que aos camaradas nevoenses lhes escasseasse a determinação, a coragem, o arrojo e a disciplina. Isso até lhes sobrava. Ó se sobrava! O que lhes faltava era planta física, pois dois dos camaradas eram altos, mas esguios como lareiros, e os outros eram um par de rodas baixas, gorditos e com uma destreza física muito próxima do desalento e da abdicação.


A única coisa que fizeram questão em lhes disponibilizar foi um automóvel, pois as carreiras entre Névoa e Bragança realizavam-se fora de horas, o que punha em causa o cumprimento de horários compatíveis com o acomodar do comício e o desmobilizar dos camaradas.   


A viagem até foi divertida, pois encheram-se de contar anedotas uns aos outros. E, diga-se de passagem, algumas delas bem machistas, racistas e, o que era ainda pior, tão reacionárias que até alguns reacionários mais sensíveis e cultos teriam sérias dificuldades em as contar, mesmo que estivessem numa reunião de fogosos e intrépidos anticomunistas.


Além da do busto de Napoleão, já conhecida de todos nós, duas ou três nos ficaram na memória. Aquela em que um alentejano entra numa carruagem de comboio, olha para um negro e diz: “Com que então preto, hem?” Ao que o negro, incrédulo com tanta sagacidade, responde perguntando: “E como é que descobriu assim logo à primeira?” Ao que o camarada alentejano respondeu: “Pelos bêços.” Ah, ah, ah! Perdão. Outra: “Sabes porque é que o Alentejo é plano? Porque os calhaus foram todos para Trás-os-Montes.” Ah, ah, ah! Perdão. Ah, ah, ah! Perdão. E ainda aquela de dois canibais que estão no jardim a ver passar umas miúdas e um deles diz: “Olha, vês além aquela boazona. Apesar de já não ter um braço, mesmo assim comia-a toda. Ao que o outro responde: Alto lá e para aí com a brincadeira, aquela já eu ando a comer. É a minha namorada.” Ah, ah, ah! Perdão. Ah, ah, ah! Perdão. Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão. Perdão. Perdão.


Temos ou não razão. As anedotas eram mesmo de baixa cultura e de um primarismo doentio. As mais reacionárias não as… Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão… contamos porque ferem a nossa sensibilidade democrática e… Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão… podem introduzir na narrativa níveis preocupantes de uma polémica escusada com os nossos leitores que ainda acreditam na… Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão… revolução e no triunfo do marxismo-leninismo e, por isso mesmo, do comunismo. E fartos de polémicas andamos nós há muito tempo.


Chegados a Bragança, dirigiram-se ao Liceu onde ia decorrer o comício com o camarada Alberto Punhal. Encontraram lá alguns camaradas a decorar a sala e perguntaram-lhes onde podiam apresentar-se para cumprirem com as tarefas que lhes tinham sido destinadas. Eles responderam-lhes que sobre segurança o melhor era falarem com os camaradas encarregues dessa tarefa. Vendo-os indecisos, indicaram-lhes onde estavam e voltaram à decoração. 


Os camaradas seguranças encontravam-se nas traseiras do Liceu a descansar. Tinham chegado há pouco de Braga, de um outro comício. Dois deles dormiam e ressonavam como bons e dedicados comunistas que eram. Os outros dois jogavam à bisca e fumavam cigarros com muita tenacidade. Para acamaradarem convenientemente, o quarteto de Névoa puxou dos seus paivantes e apresentou-se: “Somos a brigada de Névoa destacada para colaborar na segurança do camarada Secretário-geral. Temos orientações para nos colocarmos à vossa disposição.” Ao que um camarada lhes respondeu: “Sejam bem-vindos. Nós estamos a descansar para mais tarde montarmos o perímetro de segurança ao comício.” E o camarada José: “A que horas chega o camarada Punhal?” E o camarada segurança: “Dentro de duas horas.” E o camarada José: “Qual é o nosso papel?” E o camarada segurança: “Então não vos disseram qual era?” E o camarada José: “Não.” E o camarada segurança: “Isso é uma falha organizativa grave.” E o camarada José: “Pois, se calhar é. Mas nós não temos culpa.” E o camarada segurança: “Alguma culpa devem de ter. Pois se aceitaram fazer parte da segurança do camarada Punhal têm de saber qual é rigorosamente a vossa função. Com a vida do camarada Secretário-geral não se brinca. Ele é o nosso melhor estratega, o nosso timoneiro, o nosso grande líder. Alberto Punhal só há um. Depois deste filho adotivo da classe operária ser feito, o molde foi destruído.” E o camarada José: “Ao menos dê-nos armas e diga-nos onde nos devemos colocar.” E o camarada segurança: “Armas? Quais armas? Aqui cada um anda com as suas. Se não têm armas, o problema é vosso. A tropa manda desenrascar.” E o camarada José: “Mas nós não somos tropas, somos militantes comunistas que foram destacados para…” Neste momento, o camarada Joaquim, o tal das bombas, disse: “Armas? Eu tenho um canivete que é bom para limpar as unhas, mas também pode servir para capar grilos…” E o camarada segurança: “Não te armes em esperto comigo senão levas duas estaladas nessas fuças de aprendiz de comunista que nem vais conseguir atinar com o sítio onde te encontras. Se foram destacados para Bragança devem falar com quem vos destacou. Eu não fui informado de nada.” E o camarada José: “Podemos ficar por aqui?” Mas o camarada segurança nem se dignou responder-lhe. No entanto ficaram. Sentaram-se no chão e puxaram, também eles, por um baralho de cartas e puseram-se a jogar uma suecada.


Passadas duas horas, chegou, sem se fazer notado, o camarada Alberto Punhal. Chegou de mansinho. Todos se levantaram e puseram-se em sentido. Ele olhou-os com o seu rosto sorridente de líder querido e estimado e deu-lhes as boas tardes. Eles reponderam baixinho. Ele cumprimentou-os um a um. A seguir falou do tempo. A seguir dissertou sobre a natureza. E ainda se referiu à viagem e à qualidade do mercedes em que se deslocava. Ele era assim: simples e generoso.


O José ficou quase sem palavras. Ter ali o camarada de cristal na sua frente era uma experiência revolucionária fora do comum. Ele olhava para o amado líder como se fosse quase um deus. E era-o de facto. Tudo em si era luz, serenidade e sapiência. E se isso se via ao longe, observado de perto ofuscava.


Depois dos cumprimentos, e das poucas palavras trocadas com os camaradas que tinham por missão defendê-lo, mesmo que fosse apenas, como era o caso paradigmático da brigada de Névoa, com determinação, coragem, arrojo e disciplina, o camarada Punhal deu alguns passos em frente, na direção de umas giestas, desapertou e breguilha e, sob o olhar atento e compenetrado dos camaradas seguranças, sacou do pénis e pôs-se a urinar como o mais vulgar dos mortais. Fora do comum foram os olhares dos camaradas seguranças, especialmente dos camaradas de Névoa, que se puseram a observar o pénis do camarada Alberto Punhal como se ele fosse a própria “flauta mágica” do próprio Mozart. O camarada Secretário-geral pôs-se a olhar para a linha do horizonte enquanto urinava e disse novamente que o dia estava lindo e que a revolução portuguesa estava prestes a triunfar. O José, tal e qual os restantes camaradas, bem queria olhar para outro lado, mas não conseguia, estava obcecado com o pénis do camarada Secretário-geral, com a maneira revolucionária como ele lhe pegava, com a beleza um pouco anacrónica do jato de urina e, sobretudo, com o primoroso jeito da mão com que o camarada Secretário-geral pegava no pénis sem mostrar a mais leve insegurança, vergonha ou timidez. Porra, Alberto Punhal até no mijar era um verdadeiro líder da classe operária, pois só um verdadeiro marxista-leninista era capaz de mijar daquela forma e feitio. José lembrou-se, naquele momento, da pilinha do menino Jesus que tinha visto em alguns presépios ou também na pilinha dos meninos que decoram as fontes de alguns jardins das casas senhoriais ou em certas praças públicas. Sim, aquele pénis tinha esse mesmo aspeto puro e angelical.


No final da micção, o camarada Secretário-geral sacudiu o seu órgão genital para o libertar de alguma pinga incómoda e recolheu-o com toda a calma e sensibilidade do mundo. Sim, Alberto Punhal, como muito bem diz o povo na sua infinita sabedoria, até no mijar tinha graça. No fundo, os sábios estão carregados de razão quando afirmam que são os pequenos gestos, o que distingue as grandes personalidades.


Resta comunicar aos nossos estimados leitores, para que possam dormir em paz, que o comício correu bem e que não foi necessária nenhuma outra intervenção da segurança do camarada Secretário-geral. 


publicado por João Madureira às 07:45
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