Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

O Poema Infinito (148): porque morrem os pássaros


Antes que me perguntes por que morrem os pássaros, responder-te-ei esculpindo frases litigiosas e sentindo dentro de mim a esplêndida manipulação da antiguidade. Através de ti homenageio as cidades inesperadas, a ordenação íntima dos desvios, a limitação das memórias, a interioridade exposta do amor, a voz milenar da morte. Todo o amor é uma desordem absurda, uma curva de tempo. Deixo que os dedos aflorem no teu olhar e que todo o ritual de destruição se torne lógico. Em mim floresce a raiva e o voo resoluto dos milhafres. Pudesse eu navegar-te e os meus lábios haveriam de celebrar o hábito fecundador do incómodo. Reinicio o silêncio selvagem da rutura, reconstruindo vulgaridades, reinventando a longa métrica das aflições, o divino refluxo da reconstrução, a incómoda herança do desespero, o elogio paranoico da civilização reinventada. Quando os teus lábios se fecham, as imagens dos idiomas outonais são de novo metáforas antropológicas. Os cultores da celebração incendeiam as figuras e experimentam voos indicativos. Cumpre-se assim o destino: os invernos tornam-se definitivamente estéreis e resignam-se à verdadeira arte da linguagem. És agora um pretexto, um poema paciente, uma biblioteca efémera, um atalho metafísico. Pertencemos à geração nostálgica da geometria dos gritos e da crença absurda nas estradas. Por isso traçamos na obscuridade a nobreza maravilhosa dos paradoxos. Também eu sou o absurdo, o teu absurdo, o ousado absurdo do lirismo, a crença nas árvores indecisas, a linguagem obediente dos filhos, a indecisão lúcida da filosofia, a disponibilidade íntima do sofrimento e a fragmentada segurança das dúvidas, de todas as dúvidas que nos transformam a alma. O tempo cansa-nos o olhar e joga connosco a sua solitária fluidez. E enraíza-se nos dedos da memória com se fosse uma distância evasiva. Tu dizes: Todos os idólatras são obscuros. E sorris como se morresses. Falas numa corrente enumerativa de silêncios formais. O lirismo. Sim, o lirismo! Esse injusto equilíbrio da frivolidade. Esse tormento evocado por deus e que frutifica nos estultos. Sinto-me partir todas as manhãs, apesar de ficar ao pé de ti. Por isso recuso a compreensão do mundo. A sua ascese crepuscular, o seu brilho indeciso, o seu tormento nomeado, a sua belíssima imagem morta no quadro da parede. Eu sou a tua distância. Tu és a minha distância. Por isso domino a vontade de te amar ainda mais e de filtrar o esquecimento. As palavras que não te digo incendeiam os lugares longínquos que evocam a atenta celebração das planícies. Iluminas-me as tardes enquanto eu esboço as virtudes dos manuscritos. As frases ficam agora à distância das lágrimas. O esquecimento mexe e limita a crença, a linguagem desobediente, a devoradora harmonia dos corpos e da sua respiração. Tu és todo o meu universo erótico, o meu lugar abrigado onde ouço os gritos de todos os coitos do mundo. O mundo tem novamente o sabor amargo da tragédia. Vivemos numa época em que se sacrificam os poemas como se fossem assombramentos desnecessários. Já nem as vozes divinas cantam ao amanhecer. As tuas dúvidas ficam suspensas nos jardins aguardando o orvalho da alvorada. Olhamos todo o horizonte com o rosto chovido de lágrimas completas. Recordo o teu corpo nas ondas que rebentam na praia, sob o próprio peso das marés. Junto às falésias, gaivotas religiosas lançam-se em imprecisos voos de loucura. Amanhece o inverno na indefinição da terra. Os movimentos naturais da paisagem procuram a mobilidade da água. O céu fica rápido e nele desenha-se a ausência. Toda a liberdade é uma técnica de contrastes violentos. A solidão volta a descer como se fosse nevoeiro. Recuso o desígnio da melancolia. Transformo-me na fúria tranquila da escrita. E desenho a tua ausência na minha alma aflita.


publicado por João Madureira às 07:45
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