Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

O Poema Infinito (149): densidade e liquidez

 

Tão opacas estão hoje as minhas palavras. E densas. Têm uma luz que cega por dentro. Por isso as vou pronunciando em voz alta até que não digam nada. Que nada exprimam acerca do amor. E da esperança. E do tempo. E da vida. E dos desejos. E das ideias. E dos aromas. E da distância do mar. E da… Mas elas dizem tudo. São metáforas que desencadeiam outras metáforas e que falam da agonia dos brinquedos no sótão e dos estilhaços das manhãs frias e do sofrimento ardente das estrelas e da translúcida escuridão do mundo e do teu corpo vestido de espelhos e da nossa absoluta necessidade de lágrimas para apagarem as labaredas do desejo e da pureza insone dos sonhos. Eu naufrago dentro dos meus sonhos onde apareço disfarçado de destino. Tenho no rosto uma máscara com sinais de paixões antigas. Sou um extenso alfabeto de incertezas. Aprendi de pequenino, com os anjos e com os demónios, a terrível arte da angústia. Este coração que sofre dentro do meu peito não me pertence. Sinto que os dias se vão desvalorizando com o passar do tempo. E no meu jardim, na parte mais soalheira, respiro o perfume obsceno das “flores do mal”. A poesia superior alimenta-se de sangue, da perfídia dos sentimentos, da infidelidade da alma. Alimenta-se do pecado da pureza e da verdade. Alimenta-se do fascínio da transgressão. E da mágoa de Deus. E das suas máscaras eternas. E do seu perpétuo remorso de nos ter feito velozmente do barro e de não se ter dado conta de que a nossa vida são apenas dois dias. Parto para as viagens já cansado. Passo as noites à espera que o sono me faça perguntas. Os precipícios estão agora dentro de mim. Atravesso o medo. Olho-o de frente. As palavras impacientam-se. Também elas estão destinadas a desaparecer. Algumas, as mais envergonhadas e frágeis, morrem-me dentro da boca. Sentado no sofá, começo a entender a sombra dos teus olhos. Outras vezes fixo-me no seu fogo impaciente. Dentro destas quatro paredes estou eu mais a minha angústia perpétua. O amor é unicamente uma imagem fixa. As pessoas que mais amamos são como uma espécie de vento que acumula os gestos do mundo dentro de si. O meu poema abre-se e engole as paisagens vazias. O calendário transformou-se no meu diário íntimo. A minha caligrafia tornou-se sonâmbula. Tão veloz é agora o nosso amor, como se fosse uma ferida que arde na impaciência da própria dor. Todos os dias nos exigem uma atitude, uma confissão, uma censura. As pessoas atiram umas às outras frases lancinantes e aguardam pela noite para propagarem o vírus mortal do seu amor contaminado. E não leem os livros, escutam-nos como se eles fossem capazes de guardar o segredo da vida eterna. O mundo entusiasma-as com adivinhas. Esse é o seu vício solitário, o seu abandono erigido com frases amarelecidas. Babel é agora uma pirâmide de cadernos retirados de gavetas esquecidas. Já não sei sorrir como dantes. Já não sei reverter os anos. Vivo suspenso na tua distância. Como se o mar fosse cego. Somos vítimas da verdade: o amor tem de compensar. Temos de aprender a brincar com o fascínio, com o brilho do orgulho, com o valor dos dias, com a necessidade vital da arte, com as labaredas do desejo, com a estranha aprendizagem dos sonhos, com os vícios da decifração, com o cansaço da espera pela beleza das manhãs. Temos de cantar como Salomão que os olhos de quem amamos são como pombas por trás do véu e que os seus lábios são feitos de um fio escarlate e que temos de nos sentar lado a lado como dois deuses que saboreiam as vozes e as delícias dos risos. Por isso é que os nossos corpos se tornam líquidos como o desse delirante rei de Israel. 


publicado por João Madureira às 07:45
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