Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

Pérolas e diamantes (41): Jogos e disfarces


Nós vamos descobrindo aquilo que sentimos através daquilo que fazemos. Ao longo da vida, a empatia vai assentando permanentemente em sítios e em situações renovadas e também em outras pessoas. É isso o que nos permite reavivar, e reafirmar, a confiança nos outros e em nós próprios. Eu sei que o que acabo de afirmar não é linear, nem simples. Mas é assim a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

E quando as circunstâncias em que nos encontramos são adversas temos que nos considerar melhor do que elas para podermos erguer a cabeça.

 

Por exemplo, o poder autárquico da nossa terra diz que nos está a conduzir por um caminho de progresso, quando, efetivamente, o que pretende é livrar-se das suas promessas mal passem as eleições.  Vai-nos enchendo os ouvidos com a necessidade de críticas aceitáveis, feitas por pessoas aceitáveis, sabendo nós, que os conhecemos de ginjeira, que esses cavalheiros apenas aceitam as criaturas que concordam com eles. Essa é a base do fundamentalismo.

 

Os muçulmanos acreditam que não faz mal mentirem para converterem as pessoas à sua verdade.

 

Há por aí alguma gente que nos acusa de pretensiosos, mas eu respondo-lhes que escarnecer da pretensão também pode ser pretensioso. As pessoas de fé são tolerantes. Alguns dizem que são estúpidas por causa disso. Mas o preconceito é que é estúpido.

 

Explicam que é a sorte o que leva as pessoas ao poder. Para nós, a sorte é algo que se conquista, ou se cria por meio da força de caráter. Ao poder tem que se chegar de forma honesta e não através de estratagemas e intrujices.

 

O último parágrafo que escrevi está baseado numa passagem do interessante livro de Patrick De Witt, Os Irmãos Sisters, um romance com todos os bons ingredientes de um western à boa moda antiga, que nos conta uma história irresistivelmente picaresca, fundamentada num retrato mordaz e acutilante da delicada e perversa condição humana.

 

Ao lê-lo senti-me muitas vezes como se estivesse na enorme sala do Cineteatro de Chaves a assistir a uma coboiada das antigas. E senti saudades, muitas saudades, desse tempo, das coboiadas e do Cineteatro.

 

Foi a partir daí que me chegou a vontade de partilhar convosco mais uma trapalhada protagonizada pela Câmara Municipal de Chaves.

 

Foi há mais de uma década que a CMC, então presidida por Altamiro Claro, resolveu adquirir, por umas boas dezenas de milhares de contos, o Cineteatro ao seu proprietário para ali instalar um espaço cultural que trouxesse de novo o cinema, o teatro, e outras atividades culturais, ao coração da cidade.

 

Outra equipa autárquica, entretanto, ganhou as eleições. Apesar do espaço, apesar das múltiplas carências de atividade cultural e, apesar, também, das promessas sucessivas de intervenção e requalificação do imóvel para funcionar como sala multiusos destinada a mostrar cinema, teatro e exposições de pintura, escultura e fotografia ao público, ali só se reproduziram, e continuam a reproduzir, ratos e se acumulou, e acumula, poeira, humidade, frustração e desalento.

 

Eis senão quando, a meia dúzia de meses das eleições autárquicas, a CMC abre concurso para atribuição de arrendamento do citado imóvel. E a regra principal foi que a adjudicação fosse feita segundo o critério da proposta mais vantajosa. Houve um único concorrente. Parece de propósito.

 

A renda proposta, e aceite, pois a autarquia não estabeleceu aluguer mínimo, foi de 150 euros mensais. Que, estamos em crer, deve ser menos do que o aluguer de um aviário de pavões de média dimensão numa qualquer aldeia do concelho.

 

A empresa vencedora, que, afirmamos desde já, não tem culpa nenhuma no cartório, comprometeu-se a fazer obras no imóvel no valor de centenas de milhares de euros (os números em Portugal valem o que valem), num prazo de 18 meses e a criar alguns postos de trabalho: 3 de início e 22 no prazo de dez anos (as promessas de emprego em Portugal valem aquilo que valem).

 

As atividades previstas para o edifício “deverão enquadrar-se nas áreas da cultura, lazer e… restauração e bebidas”. Na área da cultura está previsto um “Piano Bar”, na área do lazer está previsto um “Parque Temático e de Diversões”. Nas atividades complementares está previsto… um “Piano Bar”, não sabemos se é o mesmo se é um outro, e ainda uma loja para comercialização de artigos relacionados com… o Parque de Diversões.

 

A empresa que venceu o concurso chama-se “Jogos e Disfarces”. Não, não é ironia. É mesmo verdade.

 

De facto, o centro da nossa cidade pode muito bem prescindir de um centro cultural multiusos, pois não tem nenhum. Mas o que não pode dispensar é ter mais um bar, no meio de dezenas, e de outra discoteca, ou coisa do género. Era mesmo disso que estávamos necessitados como de pão para a boca.

 

Dizem que cada povo tem o que merece. Será que nós merecemos esta gente?


publicado por João Madureira às 07:45
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