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Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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12
Jun13

O Poema Infinito (150): essas mulheres oxidadas

João Madureira


Há mulheres que se sentam em bancos de jardim como se fossem meninas que se sentam em bancos de escola. Apesar dos sorrisos, têm a mesma cara de desalento. Essas mulheres cruzam as pernas como se fossem princesas desesperadas e por isso deixam descair as mãos sobre as suas ancas redondas ou sobre os seus joelhos devotos ou sobre o lugar do seu sexo envergonhado e deprimido. E abandonam-se como se deixassem cair os seus véus de noivas envelhecidas. Apetece-lhes chorar, mas já não são capazes. Contentam-se em fazer renda, em rezar o terço e em abrir os seus olhos como se fossem janelas oxidadas. Apetece-lhes chorar, mas já não possuem essa coragem. Nas suas casas sombrias, essas mulheres penteiam-se como se fizessem tricô e comem pão seco baixando os olhos como quando os seus maridos lhes ralham enquanto elas lhes cosem um botão no bolso da camisa que fica por cima do coração. Os seus pensamentos abrem por vezes as asas de pássaros engaiolados e voam da cadeira à janela, da janela à cama e da cama à porta. Por vezes apetece-lhes fugir, mas já nem sequer conseguem sonhá-lo. Por vezes olham para as suas unhas e veem-nas a arranhar a pele dos homens que as lastimam. E bebem chá. E tornam a pegar nas agulhas do tricô para fazerem uns peúcos para os seus netos, como os que fizeram para os seus filhos. E bebem mais um pouco de chá. Apetece-lhes chorar, mas já não conseguem. Depois pensam em lavar as mãos. E lavam-nas. E depois pensam em perfumar os sovacos. E perfumam-nos. E depois pensam em lavar o sexo. E lavam-no. E acariciam-no como se fosse um órgão externo ou um pequeno pássaro ferido. E apetece-lhes de novo chorar, mas já não têm essa coragem. E ficam com os lábios secos por falta de beijos. E passam os lençóis onde se deitam como se já estivessem mortas ao pé de homens que são pedras tumulares durante a noite e chimpanzés de zoo durante todo o santo dia. Ensinaram essas mulheres a distinguir o bem do mal, a engomar aventais floridos, a comungar a hóstia consagrada, a aquecer o ferro de engomar para vincar uma calças e a serem cegas no amor. Por isso, essas mulheres rebentam por dentro, implodindo em frente do fogão, mexendo nas panelas, queimando as mãos na água gelada dos tanques enquanto lavam a roupa, espalhando o seu sangue menstrual pelos caminhos imitando Cristo na sua via crucis. E matam as pombas que criaram como se fossem memórias da juventude. E rangem os dentes quando vestem a camisa de dormir e os seus maridos ressonam como animais pré-históricos. E exprimem a sua dor com a surdez dos seus gritos. E de novo lhes apetece chorar, mas já não têm essa coragem, nem essa força interior. Agora, os seus olhos são punhais. Sabem que as suas pernas se tornaram ásperas, que os pés lhes doem, que os seios lhes descaem, que o sexo é uma gruta de silêncio e abandono. Sentem-se noivas envergonhadas que não chegaram a despontar, mulheres que foram sempre fustigadas pelo vento do desejo e pelo esforço do abandono. Têm saudades de quando vomitavam por causa da gravidez. Até esse fel lhes é agora um sabor agradável. Já nem se importam de ter os cabelos sujos e sem brilho. Já lá vão os tempos das cerejeiras e das macieiras em flor. E dos partos de sangue, de raiva e de amor. Agora adormecem-lhes as pernas antes da cabeça e a barriga avança centímetro a centímetro até lhes encobrir toda a cintura. Agora aquecem-se na sua própria febre e no seu desalento. E enrolam-se na sua primitiva forma de serpentes do pecado. Agora beijam-se a si próprias enrolando a língua nos dentes, nos lábios e no céu-da-boca. A sua dor transforma-se em luz e sobe-lhes da vagina até ao cérebro. Apetece-lhes chorar, mas já não possuem essa coragem amorosa. O amor transformou a Julieta no seu frasco de veneno. 

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