Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

O Homem Sem Memória - 164


164 – Foi sentado numa cadeira do FAOJ, em frente ao televisor, que o nosso querido e estimado herói deu de caras com a realidade que o havia de projetar para o centro da sua dramática história. E ele ali especado, sem se dar conta de nada. Sem saber que os pormenores são o que definem a vida dos homens, das mulheres e dos revolucionários. Ele a olhar para aquele militar de barbas em frente a um cartaz do MFA e a não pensar em nada, a não ser que raio de posto ocupava o oficial, pois ele não sabia entender as divisas que os tropas usavam em cima dos ombros. Lá oficial era, disso não tinha qualquer dúvida, agora, de que patente é que não conseguia descortinar. Apesar da barba comprida, dava para perceber que ainda era jovem. O que disse não interessou ao José. Ele não ligava a essas coisas. Não conseguia dar à política a devida atenção, apesar de aparentar o contrário.


De repente, o militar desapareceu da televisão, como muitas vezes desapareciam as imagens por causa de uma qualquer avaria da emissão. Ele não ligou. Estava abstrato. O José tinha esse defeito, não conseguia pensar e sentir como o comum dos mortais. Estava sempre um pouquinho ao lado. Não gostava da música que os outros gostavam, não lia os mesmos livros, não apreciava as iguarias que faziam as delícias dos demais, não se comportava da mesma maneira, não falava da mesma forma. Tinha até uma certa repulsa pela vulgaridade. Ele que era vulgar. Lastimava-a. Lastimava-se.


Reparando que a televisão não saía da mira técnica, foi até à biblioteca e pôs-se a ler um livro. Mas não conseguiu progredir na leitura. Lia e tornava a ler, sem perceber. Ele que tudo lia e compreendia. Foi passear para o jardim. Sentou-se num banco e pôs-se a olhar para o rio. E para os pássaros. E para as folhas das árvores. E para os troncos das árvores. E riu-se sozinho. Como se fosse parvo. Sentiu-se estranho, como se adivinhasse algo de mau. Mas o que é que de mau lhe podia acontecer? Sentiu-se triste e melancólico. Como se estivesse apaixonado. Depois foi para casa. Estava estranhamente vazia. Ligou a televisão e pôs-se a ver o telejornal.


Inteirou-se então de que afinal o militar do MFA, que durante a tarde tinha aparecido nos ecrãs da TV, o tinha feito para anunciar um qualquer golpe das esquerdas no país. Lisboa e toda a Margem Sul tinham sido tomadas pelas forças fiéis ao MFA e ao Partido Comunista. Só que a norte, os militares não alinhados tinham interrompido a emissão para não criarem alarme entre o povo, e também tinham tomado de assalto os quartéis e colocado à sua frente militares da esquerda moderada, ou mesmo de direita arrependida.


O país estava dividido em dois. Com a sua linha de fronteira definida pelo leito do Mondego. O que queria significar que a guerra civil estava iminente. Os comunistas apelaram à calma revolucionária e os direitistas apelaram à calma reacionária. Os socialistas apelaram à calma entre todos. O José não sabia o que pensar. Isto só podia ficar feio. A norte ia abrir a caça aos comunistas e a sul ia iniciar-se a caça aos reacionários. Pensou em fugir sozinho para o sul, onde os seus tinham tomado o poder. Mas não possuía meios que lhe permitissem intentar a fuga com êxito. Pensou então ir ao encontro dos seus camaradas. Passou no Centro de Trabalho, mas viu que estava fechado. Foi ter com o Graça, mas também não estava em casa. A avó disse-lhe que há uma semana que não lhe punha a vista em cima e começou a chorar. Passou novamente pelo Centro de Trabalho, mas reparou que continuava fechado. Deambulou pela cidade e viu poucas pessoas na rua. Tudo se tinha metido entre quatro paredes a ouvir a rádio ou a ver a televisão. Foi para casa, encontrou lá apenas o pai, que lhe disse que procurasse os seus camaradas e fugissem todos para bem longe, onde não os reconhecessem, até conseguirem passar o Mondego. Informou-o de que a mãe e os irmãos tinham ido para a aldeia, para casa dos avós.


O José mostrou-se determinado a defender a liberdade e a revolução no norte de Portugal. O pai disse-lhe para não ser parvo, que no norte quem mandava era a reação. E que os comunistas eram em Névoa meia dúzia de gatos-pingados. O José ripostou dizendo que a sua obrigação era de defender os seus ideais. O pai riu-se, puxou de um cigarro, deu-lhe outro e puseram-se a fumar.


Ouviu bater à porta. Foi abrir. Era o Graça a convocá-lo para uma reunião em casa de um camarada clandestino já antes do 25 de Abril e que se tinha mantido clandestino para poder ser utilizado numa ocasião como esta. Partido prevenido vale por dois. Despediu-se do pai com um sentido abraço e seguiu o seu controleiro. O Graça continuava o mesmo camarada seguro e confiante. Até sorriu como se nada de grave estivesse a acontecer no país.


Num sítio escuro e ermo foram vendados e metidos dentro de uma carrinha. E andaram às voltas e às voltas, para despistarem os reacionários e também para baralharem os camaradas. As normas de segurança impunham esse tipo de procedimento. Para bem de todos.


Enquanto andaram às voltas, o José teve tempo para colocar as ideias em ordem. Até aqui a revolução tinha sido como uma festa de aldeia. Mas agora as coisas tinham todo o ar de que se iam tornar sérias. O arraial da democracia, do faz de conta, estava no fim. Isto podia transformar-se num jogo perigoso. Mas quem não arrisca, não petisca. E ele também já começava a ficar farto de uma revolução feita à base da colagem de cartazes, manifestações, comunicados e abaixo-assinados. Isso não era revolução nem era porra nenhuma. Uma revolução sem sangue, suor e lágrimas não presta. Não presta, nem serve para nada.


Por causa do rodízio, vomitou. Mas a carrinha não parou, nem deixou de andar às voltas. O Graça tentou encorajá-lo, pensando que estava com medo. Mas o José não tinha medo, apenas se sentia enjoado. Pararam ainda algumas vezes para recolherem outros camaradas. Apesar de pequena, a carrinha levava ali a nata dos comunistas de Névoa. Os mais intrépidos, os mais corajosos. Os mais tenazes.


Por fim lá pararam. Ajudaram-nos a sair e foram enfiados, ainda vendados, dentro de uma casa no meio da serra. De seguida retiraram-lhes as vendas e conduziram-nos a um andar térreo. Deram-lhes alguma coisa para comer e para beber e deixaram-nos ouvir a rádio.


Ficaram a saber que as sedes do Partido tinham sido assaltadas, saqueadas e incendiadas. Que alguns camaradas que lá se encontravam foram presos e torturados para confessarem para onde a maioria dos militantes tinha ido. Foram exibidas algumas armas, bombas e dinheiro encontrados dentro das sedes. O que era falso, como todos bem sabemos.


Logo após a ceia, foi lido a todos os camaradas um comunicado do Partido, assinado pelo camarada Alberto Punhal, apelando à resistência revolucionária em nome dos sagrados princípios da liberdade, do progresso e também do futuro de Portugal, uno e indivisível.


O José voltou a vomitar. Mas não de medo, apenas porque estava mal disposto. O Graça também vomitou e igualmente não por medo, mas porque viu vomitar o amigo.


Depois ficaram à espera do que se ia seguir. Por fim apareceu o camarada do Comité Central para a reunião que iria decidir o futuro da República Livre do Norte de Portugal. 


publicado por João Madureira às 20:07
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