Quarta-feira, 26 de Junho de 2013

O Poema Infinito (152): aqui


Hoje vou contar quase uma história sobrenatural. Onde as distâncias somam gente. Onde não existe o abandono. Onde a solidão se abastece de água e de árvores. Onde o dia nasce cheio de palavras. Onde os rios se encostam aos verbos desenhados por compêndios de pássaros. Onde os poetas guardam a água que amanhece nos olhos dos amantes que vão perder a virgindade. Onde a linguagem é anterior ao pecado original. Aqui tudo se equivale. As imagens que brilham, os pirilampos que se acendem, a noite que gravita, as velhas teorias que dizem que a vida está no início do seu período relevante. Aqui a poesia não é útil, pois os homens e as mulheres não usam as borboletas. Aqui fala-se da biografia indestrutível dos carvalhos. Aqui todos os seres são soberanos. Aqui criam-se imagens abismadas. Aqui nascem os homens que mudam as coisas. E nascem também as mulheres que mudam os homens. Aqui nasce o exagero. E a originalidade. E a autenticidade. E o instinto da poesia. E os parâmetros da claridade. Aqui nasce a afluência evidente dos objetos e a comovente inutilidade do amor. Aqui nascem as imagens repletas de céu e de pássaros e de perplexidade. Aqui nasce a linguagem das árvores, o esplendor da morte, a imaginação devorante dos alucinados e todo o universo caótico de todas as imagens do mundo. Aqui tudo se torna invisível para procurar a visibilidade. Aqui confluem as aves que são livros, os livros que são aves, os escritores que são cogumelos, os meninos que correm pelas ladeiras e a chuva de absinto que faz pling, pling, pling nas poças dos canteiros. Aqui deus não existe. Aqui os homens possuem um brilho inventor nos olhos. Aqui os poetas são meninos que brincam com poetas e que trazem novidades concebidas sem pecado. Aqui todas as virtudes são defeitos e todos os defeitos são virtudes. Aqui as paisagens sentam-se à janela e lamentam-se. Aqui ninguém explica nada. Aqui não se ensinam medos nem se decifram olhares. Aqui os cavalos andam soltos pelas ruas e enamoram-se das estrelas. Aqui o vento embrulha as palavras transformando-as em sorrisos. Aqui tudo tem significado. Aqui nada tem significado. Aqui brinca-se com o fogo e ninguém se queima. Aqui o medo perdeu o medo de ter medo. Aqui os espelhos são feitos de água e a beleza é feita de loucura. Aqui as pessoas estão sempre a distrair-se a ir-se e a vir-se. Aqui o chão sobe pelas pessoas e enche-as de natureza. Aqui os meninos descobrem gritos de futuro e as avós murmúrios de passado. Aqui inventam-se aparecimentos e a saudade dos sítios e o tempo do amor e o nome dos bichos e a experiência do sofrimento. Aqui as pessoas deixam de ser estranhas. E os anjos amam as suas mães e os seus pais e os seus irmãos e dormem aconchegados nos braços roliços das deusas da transgressão. Aqui há muitas maneiras de viver e outras tantas de morrer. Aqui experimenta-se a fartura da beleza e a excitação sexual. Aqui cada um ama aquilo que quer amar. Aqui sopra-se poesia aos ouvidos e pede-se inspiração ao papel. Aqui os homens e as mulheres têm esperança e sorriem contando mistérios uns aos outros. Aqui as portas nunca se fecham e os girassóis são tão bonitos e tão trágicos como os de Van Gogh. Aqui as mulheres cozinham a esperança e os homens semeiam crepúsculos. Aqui as contas dos terços são feitas de orvalho. Aqui ninguém chora. Aqui os homens e as mulheres fumam silêncios e brincam com lagos azuis. Aqui tudo é mistério. Aqui nasci eu. 


publicado por João Madureira às 07:45
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