Sexta-feira, 5 de Julho de 2013

O Homem Sem Memória - 166


166 – Os exercícios iniciaram-se decorridas apenas três semanas, pois os dois camaradas guerrilheiros foram presos ao tentarem passar por uma coluna militar reacionária instalada em Névoa. Outros dois os substituíram, mas isso levou o seu tempo. A paciência, todos o sabemos, é uma virtude revolucionária. Já a impaciência não. A impaciência é contrarrevolucionária. Reacionária mesmo.


Primeiro aprenderam a fardar-se e a andar de botas cardadas. O que muito lhes custou. Faziam ginástica de manhã à noite. Correram seca e meca. Subiram e desceram serras e montes com a mochila às costas e com a arma a tiracolo. Suaram as estopinhas. Começaram a passar fome e a ter que roubar para se alimentar. Mas a quem roubavam os alimentos também pouco possuíam de seu. O povo das aldeias temia-os e fechava-se com as coisas. Muitas vezes tiveram de ser violentos para conseguirem comida e algum abrigo. Por mais esforço que fizessem na tentativa de libertação do seu povo, o povo, esse ingrato, respondia-lhes com indiferença e desconfiança.


Instalavam-se no cume das montanhas e dali se punham a observar as redondezas. O Partido insistia na obstinação de que deviam ser perseverantes e lembrava-lhes que o povo podia demorar a aderir à causa revolucionária, mas quando aderia era para sempre. Começaram então a ler todas as obras apologéticas revolucionárias. Não lhes restava outra solução. A explicação estava nos livros. A verdade estava nos livros. A revolução estava nos livros. O Partido estava nos livros. Mas a realidade parece que não se encontrava nos livros. A realidade, essa meretriz, teimava em não se adequar com a esperança, nem com o sentido da História, nem com os livros. A realidade era eminentemente reacionária, recusava-se a participar na revolução. Os livros diziam que o povo, quando sentia o exército revolucionário em armas, corria logo a juntar-se-lhe. Mas o povo teimava em torcer o nariz ao supremo desígnio de lutar pelos seus direitos inalienáveis. Preferia ficar em casa, ou entretinha-se a trabalhar nas suas terras, a mendigar uma malga de caldo, um naco de pão, ou um copo de vinho, tinto de preferência. Estava visto, para a revolução triunfar na República Livre do Norte era necessário mudar de povo.


Uma coisa que os inquietou foi que ninguém das forças armadas se indignou com a presença dos revolucionários nas serras. Nenhum exército foi atrás deles, talvez porque as chefias sabiam que para vencer aquela dúzia de insurretos apenas era necessário paciência e tempo.


Depois da preparação física, e após a consolidação ideológica feita através da leitura participada e discutida das obras escolhidas de Lenine, os camaradas guerrilheiros resolveram introduzir na recruta o uso e porte de armas.


Por incrível que possa parecer, nenhum daqueles intrépidos revolucionários tinha, algum dia, dado um único tiro. As armas distribuídas foram unicamente caçadeiras, pois as G3 enviadas pelo Partido tinham sido apreendidas por uma patrulha da GNR.


Quem os visse a passear pelos caminhos das serranias com as suas armas às costas podia ser levado a pensar que aquele grupo guerrilheiro mais não era do que um bando de caçadores furtivos à procura de coelhos, perdizes ou tordos. A única coisa que podiam estranhar era o facto de nenhum deles se fazer acompanhar do respetivo cão de caça. Apenas um burro lhes fazia companhia, transportando os utensílios para prepararem as refeições.


As sessões de tiro eram, mais do que exercícios de treino, autênticas brincadeiras em que se divertiam como se fossem meninos na Feira dos Santos a disparar nas barracas. O José era o mais inábil, mas também o mais divertido.


Um dia, quando o mandaram fazer pontaria e disparar na direção de um pássaro pousado num carvalho, após o disparo deu tamanha cambalhota que ficou virado na direção contrária. Normalmente, o José fechava os olhos no momento do disparo. Depois do tiro, quando abriu os olhos e não viu nada à sua frente, disse para o instrutor: “Esta arma é como um canhão. Depois do disparo, foi pássaro, foi ramo, foi tudo.” Todos se riram e informaram-no que o pássaro tinha fugido com o barulho do disparo e que a árvore se encontrava incólume nas suas costas.


Mas para alguma coisa lhe serviu a guerrilha, aprendeu a lavar a roupa, a cozinhar, a dormir em pé, a orientar-se pelo sol e pelas estrelas, a viver sem dinheiro, a dormir ao relento, a conhecer os pássaros pelo chilrear e a respeitar a natureza. Mais por necessidade, do que por solidariedade revolucionária, aquela intrépida dúzia de caçadores guerrilheiros ajudava as populações na labuta da terra. Semeavam e sachavam batatais, juncavam e segavam o centeio, ajudavam na matança do porco e faziam-se convidados em festas, casamentos e batizados. Também iam aos enterros. Na sua paciência camponesa, os agricultores toleravam-nos.


Os intrépidos revolucionários bem porfiavam na sua teima de arregimentarem camponeses para os seguirem na luta de libertação. Mas eles limitavam-se a rir e a oferecer-lhes de comer e beber. Nem um único homem conseguiram convencer a segui-los. Apenas um maluco, dos muitos que abundavam pelas aldeias, se decidiu acompanhá-los tocando flauta e conversando permanentemente com o burro, como se o jerico falasse. Mas o jumento nunca lhe deu troco.


Nos dias de inverno desciam aos povoados como se fossem lobos. Aqueciam-se nas lareiras e pediam emprestada comida. As pessoas nunca lhes diziam que não, pois sabiam que não se deve negar pão a um grupo de homens armados, cheios de fome e de frio. Muitas vezes dormiam em palheiros ou na corte dos animais. 


publicado por João Madureira às 07:45
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