Quarta-feira, 17 de Julho de 2013

O Poema Infinito (155): a luminosidade e o medo


Desde este lugar apenas diviso a intensidade violenta da luz, dessa luz que nos agarra com as suas mandíbulas e que sustenta o pavor dos objetos faustosos. Os nossos olhos movimentam-se com uma ferocidade objetiva refratando as estrelas. Os dedos das mãos abrem-se enquanto falamos da teoria reveladora da gravitação dos sentimentos. As formas do teu corpo tornam-se rápidas e desenvolvem-se ao longo das paisagens pentagonais que são agora os abismos do fulgor com que nos projetamos em direção aos textos. O desejo corre indomavelmente dentro da nossa inocência. O medo destrói os extremos onde os nossos corpos se transformam em exemplos elementares. Os nossos rostos são de novo astros. Toda a violência é centrífuga. É nela onde os textos se deixam inundar pela necessidade das estações. As paisagens entram na órbita dos relâmpagos. A ciência torna-se selvagem. É nela onde o teu rosto aparece cercado pelas montanhas. É nela onde os poemas se tornam legendas de cinema mudo. Tens esse modo secreto de pôr tudo em movimento, tens esse estilo arriscado de queimares todas as tendências, tens essa maneira sagaz de retratares a decadência. O medo torna-se um grito aberto que se esconde dentro das fotografias sibilantes. As janelas ficam com fundos claros onde os animais se tornam intensos e nítidos. Os dedos ensinam o caminho do desejo. É em m.omentos destes que as mães ficam com as suas caras magníficas e sussurram doçuras. Voltam as paisagens, irrompem as flores, os rostos sustentam os abismos, as constelações palpitam. Tudo dança. Tudo caminha para dentro de si mesmo. As estações ficam brancas e inexplicáveis. As paisagens parecem agora embarcações cegas que navegam dentro da loucura salgada do mar. As estações ficam obsessivas. Essa é a sua doçura e a sua notável desordem. As casas contorcem-se ficando rápidas e espaçosas. A lua abre o seu rosto incrustado de árvores vazias. Toda a noite se enche de radiações largas. A voz rebenta. As musas afugentam as paisagens. A memória maneja a raiz da vida. Sobre a claridade do equilíbrio, o mundo transforma-se num halo repleto de imagens que se incendeiam como se fossem estrelas enervadas. A beleza torna-se áspera. No centro do mundo a energia fica suspensa da sua crueldade que devora a força ininteligível do rosto e da vontade de Deus. Os braços alargam-se, as mãos ficam transparentes, as árvores tremem dentro da sua potência imóvel. Já não consigo dormir porque os sonhos queimam. Todos os movimentos ficam prisioneiros da obscuridade. Dizes: tudo é inocente. Por isso é que não podemos ver o mundo de uma maneira só. Por isso é que és a minha força e a minha desordem. Por isso é que brilhas durante os crepúsculos, por isso é que atravessas as imagens deixando-as feridas dentro da sua limpidez. Agora escrevo frases tocadas pela devastação brutal da vida. O teu rosto cerca-me de memórias intactas deixando implícita a ideia que a idade é uma ferida que se forma dentro de nós. A paixão é uma melancolia luminosa. Entre nós e as imagens suspiram os textos. As mãos carregam a força que atravessa a morte. As mãos tocam a mudança. As mãos dançam dentro da nossa desordem. As mãos vestem-se de poros e escrevem palavras silenciosas. A tua boca fica agarrada à luminosidade dos beijos. Tu dormes dentro da minha insónia para me acalmares. Dos teus olhos salta a luz. A noite fica incendiada de doçura. Luzimos na noite como dois pirilampos apaixonados e repletos de medo.


publicado por João Madureira às 07:45
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