Sexta-feira, 19 de Julho de 2013

O Homem Sem Memória - 168


168 – As mães têm em relação aos filhos um sexto sentido que as faz adivinhar os perigos que eles vão correr no futuro. De facto, a aventura revolucionária do José só podia terminar mal, quer os comunistas triunfassem, quer fossem derrotados, como foi o caso.


Lá na cela, o José fazia por não pensar em nada. Sozinho como um cão, o nosso herói entretinha-se a pensar no futuro. E, se para alguns dos seus camaradas, o futuro se lhes apresentava, apesar das adversidades, risonho e solarengo, para o José o seu futuro não tinha futuro nenhum, que é a pior coisa que um revolucionário encarcerado pode pensar. Os outros bem lhe diziam que desesperar jamais, mas ele desesperava mais um pouco a cada hora que passava.


Quando olhava para trás apenas sentia uma tremenda saudade de rever os amigos e de passear pela sua cidade. Sentiu que a revolução adiada, ou perdida, pouco lhe dizia. No fundo, os seus impulsos revolucionários foram sempre um pretexto para a amizade, não para a ação. Bem vistas as coisas, o José sempre fora um revolucionário pacífico. As revoluções violentas não se enquadravam na sua forma de ser.


Sentiu-se ridículo. Afinal fora perseguido e preso por nada. Limitara-se a andar a passear uma arma de um lado para o outro sem nunca ter disparado um tiro na direção de uma pessoa. A revolução para ele sempre fora bonita nos livros. Neles havia esperança, coragem, sentido de futuro, necessidade de libertação, determinação, arbitrariedades que tinham de ser combatidas, amores quase perfeitos, líderes exemplares, e um povo que sabia o que queria, que seguia sempre os seus libertadores e que os ajudava em tudo o que era necessário. Mas a realidade, a puta da realidade, essa megera mentirosa, revelava tudo de forma distinta.


O que mais o entristecia era o facto de ninguém, a não ser o louco e o burro, terem aderido à revolução. E nem esses dois o tinham feito de forma voluntária. Uma revolução que não mobiliza os operários e os camponeses, não é revolução nem é nada. De facto, aquela dúzia de revolucionários transmontanos tinha que desistir, ou da revolução ou da realidade, ou mesmo de ambas, para poderem continuar a subsistir como seres humanos.


Temos que ser sinceros, o José começava a duvidar seriamente da sua vocação comunista. Não era propriamente dos ideais, mas sim da sua exequibilidade. Uma sociedade forçosamente igualitária para todos devia de ser, além de praticamente impossível, uma tremenda chatice. O que dava beleza ao ser humano era a diferença. Ao chavão “todos diferentes, todos iguais”, ele gostava de contrapor o de “todos iguais, todos diferentes”.


Na verdade, o José iniciou mais um processo de dissidência, mesmo dentro da prisão. Apesar de levar bofetadas da mesma forma e feitio dos seus restantes camaradas começou a isolar-se, a não participar em pequenas reuniões conspirativas, a furtar-se às discussões ideológicas, a preferir a companhia dos outros prisioneiros à dos seus camaradas de partido.


Por causa da estranha conduta do José, quem foi chamado à responsabilidade foi o camarada Graça, seu amigo e controleiro de longa data, a quem foram transmitidas orientações precisas para o conduzir de novo ao seio da organização do Partido.


O Graça, sabendo do feitio obstinado e individualista do seu amigo e camarada José, tentou deferir o assunto para outro camarada. Mas o camarada funcionário logo lhe lembrou que o camarada controleiro é tão, ou mais responsável, pela conduta do camarada controlado do que o próprio camarada. Ele bem resmungou, dizendo que essa é que era boa. Mas lembraram-lhe o ditado popular que diz que tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta. E lá foi o Graça cumprir com o seu dever.


O José, quando o viu a dirigir-se na sua direção, tentou afastar-se. Um monge em meditação não fala com outro monge, apenas fala com Deus. Alguns dos seus novos conhecidos ainda tentaram barrar o caminho ao Graça, mas o José, lembrando-se da velha e sadia amizade, que é o que continuava a honrar, enviou um gesto discreto na direção dos seus novos amigos no sentido de o deixarem aproximar.


“Andas bem protegido! Depressa arranjaste novos amigos. E estes parecem ser dos bons e leais. Têm toda a cara disso. Estás de parabéns”, disse o Graça carregado de ironia. “Não são piores nem melhores do que os teus. São apenas diferentes”, respondeu-lhe asperamente o José. “Os meus! Os meus? Então não são os nossos?”, teimou o Graça. “Para mim já não são camaradas. Não prestam. Não prestamos. Além de fracos comunistas, são gente sem préstimo. Mas a culpa não é deles. É nossa”, avisou o José. Ao que o Graça contrapôs: “Não te esqueças que estamos todos aqui pela mesma razão: a revolução. Isso é aquilo que nos une…” “Ou o que nos separa…” “O que nos une… O que nos unia. Eu não desisti da revolução, de transformar o mundo, de o tornar mais justo…” “Ou injusto…” “Como podes dizer uma coisa dessas?” “Basta ler…” “Tu muito lês! Pensas que a verdade está nos livros?” “Alguma deve estar. Depende dos livros que lemos…” “Então os que tu lês são melhores do que os meus? É isso?” “Pelo menos são diferentes. Eu leio livros diferentes uns dos outros. Tu limitaste a ler sempre o mesmo livro. Tu só lês a cartilha marxista e os seus sucedâneos. Por isso não te dás conta da realidade. A verdade é que os nossos camaradas de Leste são uns verdadeiros assassinos. Transformaram os países onde triunfaram em asilos de alienados e em açougues humanos. São uns bárbaros que não têm perdão de Deus.” “Perdão de Deus? Já não te conheço, José. Vieram-te agora todas as dúvidas? Pobre de ti.” “Por que é que te desiludiste com a revolução?” “Tu chamas a isto uma revolução. Foi apenas uma brincadeira de mau gosto. Nisso, os portugueses são exímios. Em tudo o que mexem, estragam. E este arremedo de revolução é disso o exemplo acabado. E eu só me desiludi com a revolução porque alguém me iludiu. Mas eu perdoo-te, pois não o fizeste por mal.” “Olha, José, eu não preciso do teu perdão. Tenho ordens para te comunicar que tens vinte e quatro horas para te decidires a regressar ao seio do Partido e à nossa organização. Após esse período, e se a tua resposta for negativa, serás expulso e declarado rachado.” “E isso o que é?” “Colaboracionista.” “Eu não preciso de 24 horas, dou-te a resposta já…”, mas não lha deu porque o Graça foi-se embora a correr. 


publicado por João Madureira às 07:45
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