Quarta-feira, 31 de Julho de 2013

O Poema Infinito (157): sinais


Os ramos das árvores começam a espalhar solidão. O vento embala o crepúsculo dos meus olhos. A água sobe pelos juncos. Os espíritos suspiram embalados pela tua voz. As flores escutam os pássaros e choram. Sonhamos com a aurora e com a sua luz dançando nas clareiras verdes. Sou a minha própria imagem ancorada num barco solitário. As terras tornam-se inquietas. As asas dos pássaros-anjos cintilam e dardejam. O meu coração não tem método. Antes de anoitecer a sombra do silêncio vagueará pelos caminhos. A margem do lago adormecerá e as estrelas caminharão na superfície das suas águas. Tu dizes: A paixão também cansa. O amor é um contínuo adeus. As horas ficam serenas. Sonhamos com a beleza do orgulho, com a esperança dos prodígios, com a perfeição imortal da chuva, com olhos repletos de luz, com quem desenhou os céus, com ilhas iluminadas de paz, com a exaustão das horas, com a inclinação fresca das fontes, com a felicidade cansada das avós, com o declínio tranquilo da satisfação, com os jardins brancos de neve, com o amor que cresce calmo nas macieiras, com as lágrimas jovens da paixão. Os homens vacilam dentro do seu orgulho, fatigados pela esperança. Os seus pés caminham errantes pelos atalhos. Tentam esquecer o céu e o inferno, as hostes divinas, os anjos que tecem as estrelas, as velas desfraldadas das naus que flutuam silenciadas pelo medo da morte. Regressam as almas dos mártires das guerras inúteis. E gritam com a sua dor exposta. Por isso não conseguem descansar em paz. Alguém canta canções de ar. Alguém lança silêncio sobre a culpa. As vozes eternas são doces. Os chefes enchem-se de júbilo enquanto os deuses suspiram. O mar fica impregnado do sorriso triste dos navegantes. A guerra consagra a paz passageira. Eu chego até ti carregado de distância. O tempo é o cais do infortúnio. A beleza fica triste na sua efemeridade. Leio devagar os sinais do desaparecimento. As sombras ficam profundas como as rugas. Todas as almas são peregrinas. A tristeza altera-nos o rosto. Todas as meditações pertencem ao tempo e por isso se conservam na memória. Alguém ordena que partamos trilhando o caminho do fogo. Outros gritam a sua vontade de ficar. O tempo chora a sua decadência. As fogueiras ardem nas montanhas e nos bosques alimentadas pelos espíritos do desespero. Os homens censuram-nos com palavras amargas. Cada qual tem a sua razão. Os mais jovens cavalgam o fogo semicerrando os seus olhos de relâmpago. As águias espectrais voam empurrando a amargura da alma dos homens. O tempo fica ainda mais cansado. Os olhares das mães cintilam como estrelas velando o sono dos seus amados filhos. O bem e o mal amanhecem com o orvalho. Os corações recuperam a sua esperança. As borboletas voam e cintilam aos primeiros raios de sol. Trutas prateadas ondulam no lago. Caminhamos descalços pela erva escutando os ligeiros ruídos das pequenas criaturas. Alguém chama por nós e foge. Beijamo-nos. Os nossos lábios queimam com se estivéssemos com febre. Alguém passa por nós cavalgando um ginete de aurora. Tem o cabelo em chamas e chora a sua raiva imortal.  


publicado por João Madureira às 07:45
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