Segunda-feira, 5 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (49): as palavras e os números

 

 Das palavras – O meu amigo M., vendo-me com o semblante carregado, talvez por causa do calor, resolveu refrescar-me a esperança: “Vocês estão de parabéns, pois neste país, e mais concretamente nesta cidade, a tarefa dos independentes não é fácil. Sempre que por aí surge um problema político, os meus amigos tentam sempre encontrar uma resposta adequada e até uma proposta de solução equilibrada, enquanto os partidos tradicionais, sempre que lhes surge uma questão política delicada, encontram apenas uma desculpa.”

 

Eu, porque ando a reler Guerra e Paz, lembrei-lhe que Kutuzov derrotou Napoleão precisamente porque não se deixava arrastar pelos valores efémeros e superficiais da corte e tomava as suas decisões com base num conhecimento visceral dos seus homens e do seu povo. E conclui que para se liderar um povo é necessário conhecê-lo bem.

 

E até fui mais longe. “Com a nossa presença pretendemos devolver ao concelho e aos flavienses o bom nome e, sobretudo, a esperança. Depois destes anos de desvario, incompetência e desnorte, tem de surgir um grupo de pessoas capaz de liderar a autarquia, e, essencialmente, decidida a recuperar e a restituir-nos o orgulho em sermos flavienses.”

 

“Sinto nas pessoas algum medo. É preciso ter coragem para enfrentar as máquinas partidárias e a teia dos interesses instalados”, disse o meu amigo. Eu respondi-lhe: “Aprendi com a vida que a coragem não é a ausência de medo. Coragem é triunfar sobre o medo.”

 

Porque estava com a boca doce por causa da água das pedras com limão e açúcar atrevi-me mesmo a levar a dissertação um pouco mais longe: “As pessoas foram ensinadas a desprezar, a achincalhar, a dizer mal e a desistir perante as adversidades. Mas se conseguem aprender isso também é possível ensinar-lhes a amar, a tolerar, a enaltecer e a lutar contra as contrariedades, contra a perseguição, contra o desalento e contra a mentira. Nelson Mandela disse que a bondade nos homens é uma chama que se pode ocultar mas que é impossível extinguir. Podemos não a ver, mas ela está sempre lá, no coração e na alma dos homens e das mulheres de boa vontade.”

 

“Hoje estás com tendência para a pregação”, chalaçou o meu amigo. Eu bebi mais um pouco do meu refresco e atirei-lhe esta pernada de palavras de Madiba: “Na vida, todos os homens têm duas obrigações que andam a par – para com a família, os pais, a mulher e os filhos; mas também para com o seu povo, a sua aldeia, o seu país. Numa sociedade civil humanizada, todos os homens têm condições para cumprir estes deveres segundo as suas tendências e capacidades.”

 

Dos números – No ponto 6 do programa “Todos por Chaves”, afirma-se textualmente: “Seremos realistas na ambição, pragmáticos na gestão e humanistas na ação. O pragmatismo na gestão tem como componente essencial o espírito de equipa, a integridade, a honradez e o respeito pelas pessoas.”

 

Ora vamos lá então ao realismo, à honradez, à integridade e ao pragmatismo e ao tal respeito pelas pessoas.

 

A seguir ao Milagre das Laranjas, que pretende transformar paralelos em votos no PSD e que custa aos flavienses a módica quantia de 187.973 €; depois da escandalosa entrega do edifício restaurado do antigo Magistério Primário à rapaziada da JSD local, cujas obras ficaram num milhão de euros; a seguir ao escandaloso aluguer à empresa Jogos e Disfarces, por 150 €, das antigas instalações do Cineteatro de Chaves; a seguir à indemnização à GIPP relativa ao “Projeto de Execução das Piscinas Municipais Cobertas de Chaves”, no valor de 62.181,25 € (+ IVA); depois da indemnização relativa à “Reabilitação do Edifício Adjacente à Igreja da Madalena” para instalação da Pousada da Juventude; após a vereação camarária aprovar a “Rescisão do Contrato de Financiamento com a Empresa Santana Construções, SA.” no valor de 20.257,28 € (+ IVA); a autarquia flaviense resolveu cometer novo atentado à racionalidade e desbaratar ainda mais dinheiro público.

 

Em reunião de 18 de maio de 2013, a Câmara de Chaves aprovou, por unanimidade, a revogação de mais um contrato com a GIPP, relativo ao “Projeto de Execução de Reabilitação e Construção dos Pesqueiros da Margem Esquerda do Tâmega entre a Ponte Romana e a ETA”, no valor de 17.557,68 € (+IVA).

 

Ou seja, a Câmara de Chaves resolveu mais uma vez retirar dos bolsos dos contribuintes dezassete mil quinhentos e cinquenta e sete euros e sessenta e oito cêntimos, para pagar uma indemnização por não conseguir levar a efeito uma obra prometida e já adjudicada.  Esta é a sua “política de verdade” e a sua “racionalidade”. Este é o seu “pragmatismo”.

 

Contas feitas, só nestas três indemnizações, e a troco de nada e de coisa nenhuma, os flavienses já pagaram, ou vão ter de pagar, a módica quantia de 97.995.18€. Mais IVA. Bem prega Frei Tomás…

 

Mas a história não acaba aqui. Isso é que era bom!


publicado por João Madureira às 07:45
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