Quarta-feira, 7 de Agosto de 2013

O Poema Infinito (158): corajosa agonia


As mulheres alteiam as saias para libertarem a vontade e exibirem o seu sexo e as suas nádegas à luz crua do desejo como se levantassem voo para o infinito. E gemem como se parissem equívocos. E arrumam os diálogos nos quartos obscuros e passeiam-se nos corredores como cotovias assustadas. Amanheço com o espanto dos sonhos húmidos. Oiço murmúrios nas escadas. Os campos crescem dentro da sua tepidez molhada pela chuva miudinha. Os corpos estão quietos como estátuas de sal. As almas ondulam como se fossem bandeiras de guerra. A água lava as impurezas dos viajantes. Abro a janela e aspiro o ar que vem da rua. Nada está completo. Recomendamos a incredulidade a quem sonha que pode ser feliz. Os corpos sempre foram a fonte inesgotável do pecado. Por isso é que os homens adoram serpentes. E a iluminação infame das casas. Por isso é que os homens observam pacientemente o seu declínio e morrem gastos e desiludidos, muitas vezes esquecidos do seu próprio rosto. Vivemos tempos imprevistos. Vozes atravessam os bairros. A música flui longínqua, lenta e insistente e transporta-nos até aos anos imprevistos, esse tempo de banhos de sol e de alegria. Os rios eram impetuosos e corriam por entre os altos muros dos montes como se fossem cavalos cegos. O teu corpo segura ainda a esperança e a surpresa do amor. O rosto largo evidencia os teus olhos aquosos. A tua expressão transporta o jeito inventor da linguagem. Somos como comboios que viajam entre estações anónimas. Como um guerreiro desolado atravesso países que habitam os livros. E cavalgo há anos a lonjura das estrelas e os sonhos furiosos dos pacifistas. Evoco o sorriso das mulheres possuídas e o minucioso murmurar dos amantes. Esse é o território da aventura, onde as vozes têm o peso dos rios pálidos e onde o silêncio é tão vasto como o mar. As naus transportam essências de delírios, aromas dos pinheiros verdes e a pressa dos caçadores furtivos. Lá fora, os pássaros movem-se numa velocidade adormecida. Voam contra os anos e contra a imensidade do ar. As gargantas dos que protestam repousam agora no seu grito definitivo. É tão violenta a decadência da esperança! Alguém define uma palavra nunca antes pronunciada. É altura de uma nova viagem. Recolho-te nos meus braços e partimos. Nenhuma verdade resiste ao espanto. O mar é uma pressa de marés. Somos navegadores que sulcam como nuvens em volta de ilhas. E cruzamos as ondas como se fossem corpos andróginos. O prazer é um caminho insaciável que se ramifica pelos sexos e pelos corpos e atropela o tempo. Dizes: a poesia evidencia o destino dos sonhos. Por vezes derrotamos o tempo. O vento e a água substituem-nos. Cruzamos o deserto. Os deuses escrevem os poemas do destino e da morte. Sobram as palavras de pedra. Cortamos os dias com a lâmina das horas. Por isso ficam mais delicados. Dentro deles nasce a frágil matéria da vida. O sol insiste em abater-se sobre nós sem pudor. Até a erva evidencia a sua dor. Dançamos marcando a terra com a nossa infinita precariedade e muito lentamente como quem desaba por cima do som dos instrumentos. Evidenciamos a gentileza amena das madrugadas. O arco da alvorada espera a época que há de vir. É tempo de matar o desejo, de aniquilar as ânsias, de cobrir o dia de palavras, de eternizar os instantes. De palavras vulgares se faz a paixão. É esta a nossa eterna desilusão. O poema está feito desde sempre e para sempre. O poeta nada vale, por muito que digam o contrário. É esta a corajosa agonia de quem escreve versos. 


publicado por João Madureira às 10:29
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