Sexta-feira, 9 de Agosto de 2013

O Homem Sem Memória - 170


170 – Como já dissemos no capítulo anterior, quando estamos presos, alguns momentos que vivemos entre grades são particularmente trágicos. O segundo mais trágico de todos é quando recebemos a visita do homem que nos gerou. Aquilo não é nada agradável de se ver e não é nada simples de viver. Um pai a tentar conter as lágrimas a olhar para nós como se estivéssemos a caminho do cadafalso não é uma imagem que nos conforte.


O guarda Ferreira quando olhou para o filho tremeu. A sua afetividade era do reino da intimidade: discreta, sofrida, muda. Cumprimentou-o como se estivesse no café, ofereceu-lhe um cigarro e pôs-se a falar do tempo. O filho também falou sobre o tempo. E fê-lo como se isso fosse a sua preocupação mais premente. Ele não queria desiludir ainda mais o seu pai. Não queria envergonhá-lo. Imaginava o escarnecimento que seria lá no posto da GNR quando os colegas insinuavam a prisão do filho comunista, deixando no ar a mais que provável falta de pulso firme na educação do filho mais velho da Dona Rosa. Um pai que não consegue meter na ordem e ensinar os bons princípios aos seus filhos, não pode ser um bom agente da autoridade. Mas, para sermos sinceros e justos, é necessário informar os estimados leitores de que ao guarda Ferreira pouco lhe interessavam os juízos morais sobre o seu pretenso desleixo educativo ou sobre a sua suposta falta de autoridade paternal. O que verdadeiramente o incomodava era a teimosia do filho em querer, à força das armas, impor aos outros a felicidade, a igualdade e a liberdade. Parecia-lhe um contrassenso. Convenhamos que ao José também o atormentava a falta de entusiasmo, quando não a mais profunda indiferença, do seu povo pelos ideais comunistas e, sobretudo, pela rejeição da magnífica ideia da construção do paraíso na terra. O pai, no seu empirismo, defendia que ninguém pode impor aos outros seja aquilo que for, mesmo a felicidade. Ninguém pode ser livre à força. Ninguém pode ser igual à força. Ninguém pode ser feliz à força. Nem no reino animal isso acontece, como muito bem descobriu e contou, George Orwell, pois todos sabemos que até os animais são iguais, só que uns são mais iguais que outros.


O José sempre considerou que se as ideias são boas elas têm de ser aceites por todos, mesmo que lhes custe. Quando isso não acontece é porque o povo é inculto e vive submergido no obscurantismo. O Partido é a vanguarda. E candeia que vai à frente alumia duas vezes. O seu pai acha que a candeia dos comunistas, em vez de alumiar duas vezes, cega as pessoas. E que os cegos pela luz do sol comunista não veem nada para além das suas ilusões.


Apesar das divergências ideológicas, pai e filho respeitam-se. E amam-se. Cada um à sua maneira, mas amam-se. Nisso são cristãos. Respeitam e amam a família e o sangue do seu sangue.


A dado momento, o guarda Ferreira olha para o seu filho e oferece-lhe novo cigarro. Ele aceita. E voltam a falar do tempo. E da mãe. E dos irmãos.


O guarda Ferreira desculpa-se por não ter vindo com a Dona Rosa visitar o filho: “Tu bem sabes como é a tua mãe. Faz um teatro medonho por tudo e por nada. É uma exagerada. Deve ter feito cá um papelinho.” “Então a mãe não lhe contou nada?” “Não. Ela não me fala.” “Desmaiou para aí duas ou três vezes. Chorou como uma Madalena arrependida. Encheu-se de me dar recados. E até rezou de joelhos…” “Virada para Meca?” “O pai não goze com coisas sérias!” “Sérias? Desde quando tu levas a religião a sério?” “Desde sempre e desde nunca.” “Com a verdade me enganas.” “Eu estava a referir-me à seriedade da mãe em relação ao seu Deus.” “A tua mãe nem Deus leva a sério. Ou melhor, Deus é que não leva a tua mãe a sério.” “Reconheço que a mãe possui um fundo dramático muito vincado. Mas é uma boa católica.” “Isso é porque Deus é muito paciente. Estou em crer que se quisesse vender a alma ao Demónio ele não lha aceitava pois era capaz de o pôr de fel e vinagre. A tua mãe era bem capaz de fazer do demónio um santo só para não ter de a aturar.” “Para GNR, o pai tem um sentido de humor muito apurado.” “Tem de se possuir muito sentido de humor para se viver uma vida inteira ao lado de uma mulher como a tua mãe!” “E como corre a política?” “Eu de política não falo com presos. Estou proibido. Mas posso confessar-te que a grande maioria dos teus ou fugiu para o Sul ou se vendeu à reação, como vós lhe chamais.” “Não acredito. Os comunistas não se vendem.” “Todos nós temos um preço. E, pelo que vou sabendo, o dos teus camaradas é de saldo. Mas, como te disse, eu só posso falar contigo da família e do tempo.” “E como estão os meus irmãos?” “Estão inquietos.” “A mãe disse-me que lhe confessaram que queriam aderir à revolução.” “Não tem chovido nada, o que é mau para a agricultura.” “O pai o que acha?” “Que não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. O que é que tu achas?” “Considero uma coisa de miúdos.” “Eu já vi um rapaz de doze anos matar um adulto com uma caçadeira.” “Foi um acidente.” “Não, foi adultério.” “O tempo está mau para paixões.” “Não chove.” “Está um tempo para parvos.” “Queres outro cigarro?” “Ainda nem acabei este.” “Trago-te aqui algumas chouriças, salpicões e folar. Isto é iguaria fina. Não é para a partilhares com energúmenos nem com comunistas.” “Claro que não.” “Têm-te tratado bem?” “Mais ou menos. Abusam um pouco das bofetadas.” “Parece a escola primária?” “Mais ou menos.” “Os teus irmãos têm-se portado bem na escola. Mas agora andam sempre juntos. Ninguém os consegue separar. Dizem que vão libertar o seu irmão mais velho das masmorras da reação. Querem ser revolucionários à força.” “Diga-lhes que isso é uma tolice. Que eu já não acredito muito nos comunistas. O povo não nos quer. E se o povo não nos quer não há muito mais a fazer do que desistir.” “A tua mãe vai ficar radiante quando souber disso.” “Ai não vai não porque o pai não lhe vai dizer nada. Era o que mais faltava. Ia logo contar tudo ao padre e eu ficava com fama de traidor.” “Seria melhor se ficasses com o proveito. Se pensas dessa forma, o melhor é dizeres tudo agora. Libertavam-te de imediato.” “Mas eu não quero que me libertem.” “Porquê?” “Pois, porque não!” “ Tu és muito teimoso.” “Seria uma desilusão para todos quantos acreditam em mim e me veem como um exemplo a seguir.” “Não te iludas. Os únicos que acreditam em ti são os teus irmãos. E eles são apenas crianças.” “O pai o que é que acha da toleima dos seus filhos.” “Que é uma rematada idiotice.” “Em Portugal vale tanto a revolução como a reação. Nada.” “Alguma coisa temos de ser.” “Eu prefiro não ser nada.” “Tu é que sabes. Mas o tempo não corre de feição para a vossa gente.” “Isso é aqui no Norte.” “E quem é que te garante que no Sul as coisas se passam de outra maneira? Os presos políticos abundam em ambos os lados. E onde há presos políticos não existe democracia.”


Depois fez-se silêncio. Os dois pararam de falar para poderem meditar. E meditaram a olhar um para o outro. Logo de seguida veio o guarda prisional informar que a visita tinha terminado.


“Pai…” “Sim.” “Não sei se…” “Sim…” “Não sei…” “Nem eu…” Longo silêncio.


“Talvez o tempo melhore”, disse o pai em jeito de despedida. Ao que o filho respondeu: “Temos de ter esperança. O sol vai tornar a brilhar um dia destes.”


publicado por João Madureira às 07:45
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