Quarta-feira, 14 de Agosto de 2013

O Poema Infinito (159): o sopro e a luz

 

Os pássaros começaram a morrer com uma réstia de luz presa nos seus olhos. A vida vale menos do que os dias que esperam por ti. És a minha mortalha branca. Sobre o relvado o teu corpo transborda de palidez, o teu corpo macio, o teu corpo tenso, o teu corpo inundado de finos rebentos de prazer. Todos os templos estão rodeados das almas dos amantes, num alegre bulício de lonjura. A terra fica congestionada de frescura e encoberta pelo amanhecer dos frutos. As horas desfazem-se como uma pintura de Dali. Gala é uma nuvem perversa. As horas são matutinas. E informes. E lentas. Durante a aurora, os pescadores batem com os remos no mar. A noite fica sem cor e o dia sem céu. Falo-te através dos caminhos com a voz pousada debaixo de uma sombra de desejo. Todas as casas velhas são agora fantasmas que se alimentam do choro das crianças. A tua revelação assedia-me o olhar. Os corpos são ilhas que imploram saudade. Eu acredito em ti. Eu acredito em pequenas árvores e em planícies que não se separam e em palavras novas que se semeiam como beijos e em ninhos que se constroem com a vontade dos pássaros e com a fidelidade dos afetos e com a água que rega os prados na montanha e no canto vagaroso dos pastores enamorados e no ar fresco da noite e nos olhos de quem conhece os trilhos e na fecundidade da incerteza e nos risos e nas lágrimas dos santos e na cor fecunda dos corpos nus e na princesa da chuva que semeia pérolas na terra do consentimento e nos profetas que caminham nas terras onde nasce a música e onde nascem as feiticeiras condenadas à eterna encarnação dos diamantes do mal. Muito brincam estas crianças velhas para nada se divertirem. Os bosques dos livros ficam nus. Já não há florestas na realidade. As meninas ficam maduras como cerejas e vestem-se com lágrimas. As suas mães ficam presas na tona da água dos ribeiros. O céu azul transforma-se numa responsabilidade colorida. Os seios das mulheres giram sobre si próprios pondo os homens tontos. As janelas fecham-se, as paisagens desaparecem, as bocas ficam impuras. No entanto, os nossos olhos voltam a nascer. Os corpos nus voltam a ter calor e rejeitam a tepidez das roupas. O teu corpo mexe-se como a sagração dos cânticos de Salomão. Saltamos sobre o tempo como as crianças quando o fazem com as cordas. Quando entras no meu quarto é como quando o sol dá luz à terra. O teu sorriso é um raio que rompe a noite. Eu tenho medo de voltar a adormecer. Quero arrancar-te ao esquecimento. Com o tempo, o nosso amor ganha precisão. Passo nas portas do frio e deixo lá a amargura. Agora vivo nas paisagens nuas do esquecimento, lá onde descansa o calor das almas, lá onde os dias repousam nos espelhos, lá onde o céu tem o ritmo das nuvens, lá onde o bem nunca se instala, lá onde as fantasias são sombrias, lá onde o presente morre antes de passar o testemunho ao futuro, lá onde a indiferença é um jogo e os mistérios são prodígios excluídos, lá onde ninguém compreende as certezas, a esperança e a vulgaridade, lá onde as pessoas despertam sem desejo e vontade. Banhamo-nos entre as árvores e no meio da tempestade, como quem se ri do tédio, como quem é sacrificado pelo desejo, como quem é cruxificado pelas certezas. O dia termina com as aves em revoada enfrentando a claridade que se esconde. Olhamos a distância dos seus voos e a noite que se abre. O mundo muda de cor e de sentido. Os deuses sopram-nos o último sonho do dia. 


publicado por João Madureira às 07:45
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