Sexta-feira, 16 de Agosto de 2013

O Homem Sem Memória - 171

 

171 – Depois de sonhar com o rio da sua terra, com o sol iluminando as árvores da Clérga, com a chuva regando as terras da ribeira e com o lindo sorriso da sua avó materna, o José foi acordado aos solavancos por um dos seus novos amigos, aquele lhe era mais dedicado.


A cela estava uma autêntica bagunça, fruto do descuido de homens que foram desde sempre habituados a considerar o trabalho doméstico como tarefa exclusivamente feminina. Depois de abrir os olhos com alguma dificuldade, pois tinha abusado um pouco da pinga na noite anterior, o nosso herói foi informado de que um seu ex-camarada insistia em lhe falar. Ele adivinhou logo a identidade do interlocutor e o motivo da conversa. Só podia ser o Graça.


“Deixo-o entrar ou dou-lhe uma boa sova cristã?”, perguntou o apelidado de Jesuíta. “Deixa-o entrar. Eu encarrego-me de lhe bater”, respondeu o José.


Mal entrou na cela, o Graça, mais pálido e deprimido do que era costume, agradeceu-lhe a deferência e perguntou-lhe se estava bem de saúde. Ele disse que sim. Que estava sereno e em paz com a sua alma. “Agora tens alma? Nasceu-te tarde”, aferroou-o o Graça. “Tenho-a desde que nasci. Ou mesmo um pouco antes. Nunca te esqueças que falei dentro da barriga da minha mãe.” “És um ungido. Voltaste ao cristianismo?” “Sim e não.” “Contigo nada é certo. Por que voltaste atrás?” “Porque me apeteceu.” “Acreditas de novo em Deus e na vida eterna?” “Não sei. E tu continuas a acreditar numa sociedade sem classes, no fim da exploração do homem pelo homem e no triunfo do comunismo?” “Claro que sim.” “Então andamos os dois enganados. Mas de certeza que não foi por isso que vieste falar comigo?” “Não. Vim para saber da tua resposta. Voltas à organização do Partido?” “Não.” “Porquê?” “Porque não me apetece.” “Olha que isto é uma coisa séria! Não brinques com o fogo?” “Eu já não acredito na revolução. Basicamente, já não acredito em nada.” “Não me leves a mal, mas acho que as tuas novas companhias são uma má influência.” “A minha mãe dizia-me o mesmo de ti e dos teus camaradas.” “E tu achas que somos todos iguais?” “Essa pergunta vinda de um comunista tem a sua piada. Afinal George Orwell tem razão: todos os homens são iguais só que uns são mais iguais do que outros. E vós, os comunistas, sois os mais iguais de todos.” “Não brinques com as palavras…” “Eu não estou a brincar. Estou a falar muito a sério.” “Mesmo que não seja pelos ideais, volta ao Partido.” “Se não acredito porque hei de voltar?” “Pois, pela nossa amizade.” “Esse foi o meu erro. Confundir a amizade com a política. Eu posso deixar de ser comunista, mas nunca deixarei de ser teu amigo.” “A mim não me é permitido tal atitude.” “Só te autorizam a ser amigo de comunistas?” “É mais ou menos isso. Se ainda fosses socialista ou outra coisa pelo estilo, ou até mesmo reacionário bem-intencionado, tudo bem. Mas é determinantemente proibido a um comunista organizado dar-se com um rachado.” “Não sabia que existiam reacionários bem-intencionados.” “É uma maneira de falar. Podes ser socialista ou mesmo reacionário, mas rachado é que não.” “Mas eu não sou rachado.” “Ai não que não és!” “Eu não traí ninguém. Limitei-me a sair da organização.” “A designação de rachado é o Partido que a atribui. Tu nisso nem és tido nem achado. E rachado uma vez, rachado para sempre. Esse, para os comunistas, é um pecado mortal. Literalmente. Numa sociedade socialista eras imediatamente fuzilado por alta traição. Comunista uma vez…” “Comunista para sempre.” “Nada na vida pode ser encarado como definitivo, a não ser a morte.” “O comunismo pode.” “Porque é a morte…” “Da sociedade capitalista…” “Não. Porque é a morte espiritual do ser humano e a morte da liberdade individual.” “Isso é uma blasfémia. Como podes afirmar uma coisa dessas?” “Pois porque o sei.” “O comunismo, em nome da liberdade suprema, institui a repressão absoluta.” “És um anticomunista primário…” “O que tu queres dizer é que sou um pecador.” “De certa forma, sim.” “Afinal, o cristão és tu.” “Eu sou apenas um simples militante revolucionário.” “Tu és apenas um pau mandado. Mas eu perdoo-te.” “E quem és tu para me perdoares?” “Sou teu amigo.” “Se o és, tens de voltar ao seio do Partido…” “Como se ele fosse uma mãe. Mãe só há uma.” “Voltas ou não voltas?” “Não.” “É definitivo?” “Sim.” “Sabes que me colocas numa situação delicada.” “Como assim?” “Quem foi que te levou para o Partido?” “Foste tu.” “Quem foi que te controlou estes anos todos?” “Foste tu. Mas o que é que isso tem a ver com o resto.” “Tudo.” “Eu sei que tudo tem a ver com tudo, mas não estava a colocar a conversa numa perspetiva filosófica.” “Falando a sério, o Partido diz que se não regressares à organização a culpa é minha e por isso terei de sofrer as consequências.” “Mas tu não tens culpa rigorosamente nenhuma. A culpa têm-na os outros.” “Mas eles pensam o contrário. O Partido é que define quem é culpado ou inocente. Definiu que se não regressares às nossas fileiras és um rachado e deliberou que eu sou o culpado de tudo.” “E o que é que te pode acontecer. Mandarem-te para a Sibéria?” “Essa tem piada, mas eu não me consigo rir. A situação é muito séria. Ou regressas, ou expulsam-me.” “Achas que é honesto eu ir outra vez para uma organização que não respeito e da qual desconfio profundamente?” “Não sei. Não quero pensar nisso. Estás na prisão tal como eu. Que diferença te faz entrares ou não entrares na organização.” “Eu estou preso fisicamente, mas a minha vontade e o meu pensamento continuam livres.” “E isso serve-te de quê?” “Nem te respondo.” “Regressas ou não?” “Não. Dessa maneira salvo-te da mentira. Tu merece-lo.” “Obrigado senhor abade. O cadafalso aguarda-me. Reza-me pela alma.”


Nesse momento entrou na cela o Jesuíta e perguntou se estava tudo bem ou era necessária a sua intervenção. “Bofetadas já lhe chegam as que leva dos guardas prisionais nos interrogatórios. Dá-lhe mas é uma sandes de presunto e um copo de tinto, antes de ir embora. E que Deus o acompanhe.” “Assim farei, irmão”, respondeu o Jesuíta. “Obrigado pelo matabicho”, disse o Graça. E rematou: “Este é o último desejo do condenado.” O José: “Quem morre pela revolução, morre feliz.” O Graça: “Vai-te foder.” “Igualmente.” O Jesuíta para o Graça: “Ou te calas, ou dou-te umas lambadas que te fodo.” “Não te atrevas a tocar-lhe…”, avisou o José. 


publicado por João Madureira às 07:45
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