Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (51): Está na hora desta gente ir embora


Antes mesmo de me pôr a bater com a ponta dos dedos no teclado do computador para alinhavar esta crónica, resolvi, motivado pelo calor que por aqui se faz sentir, arranjar um refresco de limão com água das Pedras. Depois do primeiro golo, veio-me à memória a conversa que tive de manhã com um amigo meu que já não via há algum tempo.

 

Ele disse-me que eu continuava algo excêntrico e talvez mesmo imprevisível. Respondi-lhe que isso se deve ao facto de os meus atos e as minhas ideias serem incompatíveis com os “deles”, se é que os têm, pois, assegurei-lhe, as minhas ideias e os meus atos são perfeitamente compatíveis com os “meus”. E em todos os sentidos. E mais alguns.

 

Sorri-me com a cara de incrédulo do meu amigo. Mesmo assim, ou até por isso, tentei explicar-lhe o trocadilho. Apesar de os meus princípios poderem mudar de vez em quando, mesmo assim possuo tantos que não sou capaz de os usar com proveito. No entanto avisei-o de que eles formam um todo. Por isso a minha vida nunca é menos lógica por causa desta aparente heterodoxia. Resumindo: em regra faço as coisas que me proponho fazer.

 

Tornei a sorrir. O meu amigo, também tentou, mas não conseguiu. Penso que não estava, ou não queria, seguir a ideia.

 

Então perguntei em jeito de filósofo, tentando responder-lhe: “Já alguma vez te desiludiste com histórias que pareciam prometer uma revelação e depois te enganaram desviando-te desse caminho?”

 

Penso que não chegou onde eu queria porque me respondeu desta forma: “Receio que tudo seja significativo e que nada, afinal, seja importante.”

 

Pus-me a pensar de onde teria ele sacado tal frase, mas não consegui chegar lá. Então, por causa das coisas, atirei-lhe com uma frase inteirinha respigada do livro “Ópera Flutuante”, de John Barth: “Acho que entender completamente uma coisa, qualquer que seja a sua relevância, exige que se entendam todas as outras coisas do mundo.”

 

O meu amigo disse: “Afinal, é tudo uma questão de bom gosto. Gostar ou não gostar, eis a questão?” Eu rematei: “Lembra-te que o bom gosto é uma invenção humana.”

 

Ele então levantou-se e, pretextando pressa e afazeres vários, abalou como se de facto assim fosse. Lembrei-me então de Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão.”

 

Ia eu já no terceiro golo, quando tocou o telefone e um meu outro amigo, muito bem informado, me confidenciou que o “candidato”… o meu ou o teu? perguntei eu em jeito de chalaça… andava inquieto, descarregando na sua secretária o nervoso miudinho que a campanha dos Independentes lhe causa. Daí o agendamento de visitas, fazendo-se convidado de todas as associações do concelho, prometendo-lhes aquilo que sabe, desde há muito tempo, que lhes não pode oferecer, pois em doze anos de regência laranja nada lhes deu de substantivo. Mas isso pouco o preocupa, pois sabe também que às suas promessas leva-as o vento.

 

Depois de mais um sorvo no refresco, aparecem-me no ecrã do computador as palavras do já “ex”-presidente João Batista, e putativo candidato a presidente da Assembleia Municipal de Chaves: “Vivemos tempos difíceis. Todos temos consciência da realidade. Torna-se necessário, por isso, fazer valer a verdade, a responsabilidade para assumir a participação cívica…” blá, blá, blá… daqueles que “personificam a confiança e ensaiam a esperança nas soluções mais adequadas para os múltiplos problemas.” Mais blá, blá, blé e… “Essa liderança, estou convicto, será efetiva com o Arq. António Cabeleira na presidência da Câmara Municipal. O conhecimento que eu e os flavienses partilhamos da sua personalidade dá-nos essa garantia.”

 

Ora vamos lá mais uma vez à verdade, à responsabilidade, à confiança e às soluções de tal dupla de autarcas.

 

Depois de assistirmos ao seu silêncio cúmplice, ou ao arranjo de desculpas esfarrapadas, sobre a situação indecorosa da desqualificação do Tribunal de Chaves; a seguir à divulgação oficial da dívida da Câmara de Chaves, que já se situa na estratosférica cifra dos 41 milhões de euros; a seguir ao Milagre das Laranjas, que pretende transformar paralelos em votos no PSD e que custa aos flavienses a módica quantia de 187.973 €; depois da escandalosa entrega do edifício restaurado do antigo Magistério Primário à rapaziada da JSD local, cujas obras ficaram num milhão de euros; a seguir ao escandaloso aluguer à empresa Jogos e Disfarces, por 150 €, das antigas instalações do Cineteatro de Chaves; a seguir à indemnização à GIPP relativa ao “Projeto de Execução das Piscinas Municipais Cobertas de Chaves”, no valor de 62.181,25 € (+ IVA); depois da indemnização relativa à “Reabilitação do Edifício Adjacente à Igreja da Madalena” para instalação da Pousada da Juventude; após a vereação camarária aprovar a “Rescisão do Contrato de Financiamento com a Empresa Santana Construções, SA.”, no valor de 20.257,28 € (+ IVA); depois da revogação de mais um contrato com a GIPP, relativo ao “Projeto de Execução de Reabilitação e Construção dos Pesqueiros da Margem Esquerda do Tâmega entre a Ponte Romana e a ETA”, no valor de 17.557,68 € (+IVA); a autarquia flaviense resolveu cometer novo atentado à racionalidade e desbaratar ainda mais dinheiro público.

 

Em ata de 16 de abril de 2013 ficámos a saber que a Câmara de Chaves, superiormente dirigida pela dupla atrás referida, resolveu indemnizar a “GALP, Urbanismo, Arquitetura e Engenharia, Lda.”, no processo relativo à elaboração do Plano de Pormenor da Zona Urbana Norte e Projetos e Execução do Pavilhão Multiusos, no valor de 104.000.00 € (+IVA).

 

Ou seja, a Câmara de Chaves resolveu mais uma vez retirar dos bolsos dos contribuintes cento e quatro mil euros, para pagar ainda mais outra indemnização por não conseguir levar a efeito uma obra prometida e já adjudicada. Esta é a sua “política de verdade” e a sua “racionalidade”, o seu “pragmatismo”.

 

Contas feitas, só nestas quatro indemnizações, e a troco de nada e de coisa nenhuma, os flavienses já pagaram, ou vão ter de pagar, a módica quantia de 201.995.18€. Mais IVA.

 

Para que Chaves tenha futuro, está na hora desta gente ir embora. 


publicado por João Madureira às 07:45
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