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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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21
Ago13

O Poema Infinito (160): Ámen

João Madureira

 

Estou em trânsito, só não sei para onde. As rotas são tão delicadas como vozes de nuvens. Ando atrás dos símbolos. O lindo som dos teus gemidos percute nos meus ouvidos. Sou agora o teu ourives. Os linguistas adormecem. Penetro nas palavras com a minha caneta. Tu moves os lábios. A honra e as dúvidas salvam-nos. A orquestra arde dentro da música que toca. O tempo abre-se. A ira implode. Agora sou navio. Depois a sua sombra. Finalmente sou um ponto no céu. A minha silhueta esbraceja e chora. Sonho com uma infância repentina. Espalho pelo verão os caminhos dos frutos. Aves azuis choram e de seguida ardem dentro das suas penas. É esse o seu alcance inócuo. As luzes incendeiam os nossos olhos. Adormecemos enquanto os nossos corpos flutuam entre a paixão e o medo. São rudes os caminhos da desilusão. Por eles passam as almas turbulentas. Mulheres insólitas ardem dentro do seu esquecimento. Os seus corpos são abismos. Usamos o desejo como o conhecimento. Dormimos dentro dele. O desejo estremece. Conversamos dentro do seu fulgor exato. As mãos choram nos espaços. Multidões exaltadas caminham caras ao passado. A filosofia abusa novamente do tempo. E do modo. As mães fingem distância e cobrem-se de sombras bravias. As águas cavalgam o seu leito de rio. As ninfas são possuídas por minotauros. As vestais são desfrutadas por centauros. Anjos sujos elevam-se no ar amparando-se na sua distância assexuada e perguntam: Onde estão as armas e os falos? Onde está o exemplo vivo de Deus? Tu perguntas-me pela manhã. E pelo sol aborrecido e pela calma que cresce e pela maré salgada dos silêncios. Eu respondo: Os poemas aquecem a memória dos mortos. A esperança permanece mesmo na desordem dos dias. A cidade permanece sossegada. O seu silêncio é um campo de batalha. Persinto as árvores pelo desenho do seu método cartesiano. Por isso o vento assobia quando alguém corta os seus troncos concêntricos. Por isso os poetas naufragam quando o mar se inverte. Por isso a terra sabe a História e nas planícies nascem moinhos de vento. Por isso Cervantes criou Dom Quixote e Sancho Pança. Daí os risos deformarem os espelhos. Daí a Lua nascer equivocada. Daí a gente se dispor a bailar e os poemas serem civis. Daí eu inventar viagens sem começo nem fim onde astronautas voam em naves campesinas que irrompem do silêncio e onde homens embriagados sobem marés de vinho e beijam virgens que arrastam arados que compõem regueiros de prazer que são ao mesmo tempo nascente e foz. Todos somos amáveis criaturas que se alimentam de arrependimentos. Todos acabamos por encontrar justificação para a morte. Todos bebemos frases malignas com sabor a lume e a pecado. Todos nos cansamos das prédicas dos profetas e da euforia dos templos e da melancolia dos pássaros e do céu infinito e das éclogas e do fascínio das luzes e das noites impressas nas páginas dos livros e do barulho da ternura e da vergonha dos sexos expostos e de todos os vocábulos descalços e dos corpos em dilúvio e das dúvidas e das certezas e das emoções controladas e da lírica devoluta e da fronteira da compreensão e dos limites e do desperdício das vozes e da vergonha e do limite dos corpos e dos sentimentos e das tormentas e dos barcos e dos versos submissos e da paciência e da agonia e da ciência e das horas penduradas nos relógios e dos amantes de sinfonias e das cotovias repletas de certezas e da grande delicadeza dos hipócritas. Bem-aventurados sejam, pois, os incrédulos e todos aqueles que escrevem versos. Ámen. 

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