Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (52): o momento da poda

 

Depois do fiasco da feira do pastel e do festival de música (quem é que gosta de degustar os saborosos pastéis de Chaves polvilhados de poeira?), António Cabeleira resolveu apostar em mais dois eventos para fazer campanha eleitoral.

 

Vai daí pegou na anterior feira medieval, mudou-lhe o nome para “Aquae Flaviae – Festa dos Povos – Mercado Romano”, agarrou em peças do museu da cidade e resolveu distribuí-las pelas lojas comerciais, edifícios públicos e hotéis do centro histórico.

 

É caso para escrevermos como diz o nosso povo: não há fome que não dê em fartura. De facto, depois de sucessivos ciclos autárquicos de imobilismo e ineficácia cultural, eis que, de repente, a Câmara de Chaves, subchefiada por António Cabeleira, se desmultiplica em propaganda política, ajaezada de dinamização cultural.

 

A autarquia, vá-se lá saber porquê, resolveu gastar 40.000 € na promoção de um evento de duvidosa qualidade cultural. E mais estranho é que o fez em fim de ciclo político e em tempo de contenção orçamental, austeridade e vacas magras. É caso para dizer que António Cabeleira, qual administrador romano, apenas aprendeu a entreter o povo com panem et circense. Quem assim se comporta bem pode dar ao Diabo aquilo que sabe.

 

Além disso, o candidato António Cabeleira, numa manobra de propaganda parola e ilegal, publicou num grupo do facebook, ajudado por um apaniguado, disfarçado de independente, o seguinte texto: “PPD/PSD – Todos por Chaves / Aquae Flaviae – Festa dos Povos – Mercado Romano. Viagem ao Império Romano com mais de mil figurantes, 78 expositores muitas recriações históricas.” E etc. Depois segue-se um texto explicativo. E no final: “Nós acreditamos em Chaves / Nós acreditamos nos flavienses. / É hoje. / Todos por Chaves, com o PSD. / Verdade – Trabalho – Competência. “

 

Aqui fica a prova provada de que a tal Festa dos Povos foi um evento pago por todos nós para servir de propaganda eleitoral encapotada, ou já nem isso, ao PSD de António Cabeleira. O descaramento, o abuso e a iniquidade já tomaram conta dos apaniguados e dos propagandistas, à boa maneira soviética, da fação do PSD do senhor arquiteto. 

 

E na própria página de António Cabeleira aparece a confirmação: “PPD/PSD - Todos por Chaves / Aquae Flaviae – Festa dos Povos – Mercado Romano. Viagem ao Império Romano...”, etc.

 

António Cabeleira, com o desespero, já não consegue distinguir a Câmara de si próprio. Já não faz distinção entre o PSD e a autarquia. Já não sabe às quantas anda, nem a que terra pertence.

 

Decididamente, o senhor vice já não sabe o que mais inventar para combater o pânico. Agora meteu-se-lhe na cabeça que enfiar trajes romanos nos funcionários da autarquia, pô-los a fazer de figurantes e distribuir a esmo peças do museu ao deus dará, lhe vai trazer votos e, dessa forma, combater os estragos que o senhor vice provocou no seu partido e, sobretudo, na cidade.

 

O título da notícia define o evento: “Chaves viaja no passado.” Sim, de facto a nossa cidade, com esta Câmara, não só viaja no passado como voltou a ele sem ter necessidade de outros adereços, além da crua realidade.

 

Até porque uma coisa é viajar ao passado, outra, bem distinta, é viajar no passado. Ou melhor: viver no passado. Todos o sabemos: os últimos doze anos de gestão autárquica foram ou de imobilismo ou de atraso de vida.

 

Pegando na prosa jornalística, a intenção do senhor vice é transformar a nossa cidade “numa página arrancada de um livro de história romana, habitada por imperadores e imperatrizes, legionários, gladiadores, senadores, escravos, mendigos, músicos e bailarinos”.

 

Eu quando vejo alguém arrancar páginas de um livro fico arrepiado, mas temos de convir que o verbo até está bem escolhido. De facto, esta gestão autárquica tem arrancado do livro de Chaves páginas e páginas de orgulho, racionalidade, verdade, transparência, memória e liberdade.

 

Só esperamos que, e pegando um pouco na história do Império Romano, este ato serôdio de aproveitamento político, travestido de evento cultural, seja o princípio do fim do “Império” destes senhores, que se fartaram de distribuir benesses e empregos pelos apaniguados, mandando às malvas a democracia, a lealdade, o sentido de justiça e de serviço público que juraram defender quando tomaram posse.

 

Olhando para a nossa cidade, e para a dupla que gere os seus destinos, sentimos que, ao contrário de outras cidades, ou países, em vez dos nossos políticos serem entrevistados por humoristas, por aqui acontece uma coisa bizarra: os nossos políticos parecem cada vez mais personagens criadas por humoristas.

 

Por isso é que há sempre o risco de os mais indignados com o estado do país e da cidade se retirarem da participação cívica e democrática. Hoje ainda é atual aquela frase do filme “A Canção de Lisboa”: «Vamos embora que isto é uma aldravice.»

 

É difícil nos dias de hoje dispensarmos a ironia. Eu prefiro-a, ou cultivo-a, por vezes mansa, por vezes irada, mas exijo-a sempre colada à realidade e, para mal dos meus pecados, encostada ao absurdo da existência. Manias!

 

A quem me procura compreender sempre informo que me pode encontrar já não, como dizia Natália Correia, “entre o riso e a paixão”, mas sim entre o “riso e a compaixão”.

 

Por falar em riso, humor e compaixão, relativamente a esta gestão camarária, um verso de Alexandre O`Neill vale mais do que mil fotografias: “Quando o burocrata trabalha é pior do que quando destrabalha.”

 

Doze anos de António Cabeleira como vice camarário é muito tempo. Todos pensávamos que esse seu percurso era um caminho para chegar a algum sítio, quer se tratasse de um ruela tortuosa ou, então, de uma autoestrada socratista. Mas, neste caso, para mal dos nossos pecados, tratou-se apenas de um caminho para não sair de sítio nenhum.

 

Ele não percebeu o óbvio. É que há uma altura na vida das cidades, dos partidos e das pessoas, que se assemelha à vida das árvores: um dia chega o momento da poda. Ele, definitivamente, era o ramo que necessitava de ser podado para a árvore poder tornar a medrar e a dar frutos. Como não percebeu, só nos resta desejar-lhe que a derrota lhe seja leve.

 

PS – Deixe, estimado leitor, que o convide para em conjunto fazermos um brinde. Mas só ao passado e ao futuro, pois este presente não merece brinde nenhum.  


publicado por João Madureira às 07:45
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