Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

Pérolas e diamantes (53): petas, golfinhos, peter pan’s, coragem e corações


Dizem que foi Charles Dilke, um político republicano liberal inglês, que classificou as afirmações falsas desta maneira e segundo esta ordem: petas, mentiras e estatísticas. Eu, depois de ver aquilo que tenho visto, e lido por aí, acrescentarei, com vossa licença, uma quarta: as sondagens.

 

Mas não é de sondagens que hoje pretendo falar, mas sim das estatísticas que o Governo diz possuir sobre uma ténue – qual brisa passageira – recuperação económica. Mas, para ser honesto, a crónica acabava logo aqui.

 

Li nos jornais, e vi na televisão, que nasceu no Estuário do Sado, há poucas semanas, um golfinho. No entanto, rapidamente a boa notícia passou a má, pois o bebé golfinho morreu.

 

As autoridades aperceberam-se da sua morte quando viram a mãe trazer o corpo do pequeno roaz à superfície, forçando a respiração, que é o comportamento habitual nestes casos. O golfinho representava a esperança de um estuário que está ser abandonado pelos golfinhos.

 

São os golfinhos a abandonar o Estuário do Sado e os portugueses, sobretudo os mais jovens, a abandonar o país. Mas para o executivo de Pedro Passos Coelho isso até é bom. Saudável mesmo.

 

Entrementes, o Governo bafejou-nos com outra peta: a subida do emprego. Ao que veio nos jornais, o emprego aumentou, mas apenas em fundações e gabinetes de ministros. Ou seja, para sermos claros, o número de colaboradores dos nossos governantes cresceu 4,7% desde que o executivo está em funções.

 

António Capucho, ex-secretário-geral do PSD, olhando para o país e para as escolhas autárquicas do seu partido, afirmou textualmente que o PSD está dominado “no governo pelo CDS e no partido por organizações secretas”. Mas foi mais longe: “o PSD está a apunhalar a social-democracia e a transformar-se num bando de oligarcas que se encerram em si próprios e não permitem a democracia interna. A culpa é da influência das organizações secretas.”

 

Quando estava a ler isto no jornal, veio-me à ideia o PSD de Chaves e o seu líder e não consegui conter o riso.

 

“Não tenho dúvidas pelo que vejo publicado em livros e artigos jornalísticos que há influência excessiva de certas sociedades secretas dentro do PSD, mas considero ainda pior a influência das oligarquias que vieram acabar com o debate interno.” Isto foi o que António Capucho disse, não fomos nós, é preciso que se note. Mas assemelha-se demasiado ao que muitos militantes do PSD da concelhia flaviense nos confidenciam, quase em segredo, não vá o líder saber e pô-los fora das listas ou no olho da rua.


O grande problema desse monólito político conhecido como António Cabeleira, nem sequer são as sondagens, que o prejudicam, mas que ele quer que prejudiquem outros. O grande problema é a sua falta de credibilidade. Ele não inspira, nem transmite, confiança.

 

De facto, António Cabeleira, qual Lucky Luke, intriga e cria inimigos mais rápido que a própria sombra. 

 

Outro social-democrata, dos antigos, é preciso que se diga, José Miguel Júdice, afirmou ao “Jornal de Negócios” que “era necessário um golpe de estado, ou uma revolução, que mudasse o sistema político português”.

 

E aponta algumas razões para a atual crise. “A geração dos meus filhos, e a geração seguinte, está a pagar um preço injustíssimo da bandalheira, do abuso, do egoísmo, da falta de sentido de Estado e de futuro, de gerações sucessivas que tomaram conta do poder a seguir ao 25 de Abril. Vão pagar um preço trágico que podia ter sido evitado.”

 

Na sua opinião, que por acaso também partilho, em parte, “estamos a viver um momento de complexo de Peter Pan”. “Esta crise política que estamos a viver é um caso típico de dois adolescentes tardios. Duas pessoas [Passos Coelho e Paulo Portas] que têm enormes qualidades, mas que nunca fizeram a sua maturação.”

 

Descontando as “enormes qualidades”, que pensamos ser um sinal de boa educação, podemos transpor as duas afirmações para a política local, pois tanto o candidato do poder como a sua congénere da oposição, a nosso ver, sofrem, a nível político, do complexo de Peter Pan.

 

Além disso, tanto no país, como nosso concelho, os partidos do arco do poder têm grandes dificuldades em enfrentar os poderosos grupos de interesse. Também eles se deixaram iludir pelo excesso de dinheiro. Por isso o país está falido. E a nossa Câmara também.

 

Poderão os estimados leitores falar da diferença ideológica que separa os partidos, mas, até nisso, Júdice tem razão. Ele, um agnóstico do Estado. “É uma ilusão pensar que o socialismo não se dá bem com o capitalismo – dão-se muitíssimo bem. Os grandes grupos conseguem tirar vantagem [recebem dinheiro aos montões do Estado], as pequenas e médias empresas é que têm dificuldade [até em chegar às migalhas].”

 

Posto perante a sugestão de uma solução política para o sistema político português, Júdice não teve papas na língua: “Precisávamos de acabar com estes partidos.” Eu não consigo chegar tão longe, a isso me obriga a coerência e a minha militância democrática, mas…

 

Mas contra a raiva e a vontade dos partidos, e com a determinação e o entusiamo da população, os Movimentos Independentes são uma força enorme pelo país fora e também no nosso concelho.

 

É como diz o poeta: quando toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.

 

Ter Chaves no Coração não é apenas uma expressão feliz, é, sobretudo, um sentimento imorredoiro.

 

E os flavienses sabem-no tão bem ou melhor do que nós.  


publicado por João Madureira às 07:45
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