Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

O Homem Sem Memória - 174


174 – “Não, mãe. Não me bata mais. Não fui eu que roubei os rebuçados dos cromos da bola no Azeiteiro. Foram o Carlos e o Alcino. Eu apenas fiquei à porta a ver se vinha alguém. Não me bata mais.”


Quando o José despertou do seu sono e abriu os olhos é que reparou onde estava e quem lhe estava a bater para o acordar. Eram dois guardas que tinham ordens expressas para levarem o prisioneiro para interrogatório. E foi isso que fizeram. Como ele se recusava a ir às boas, deram-lhe uns murros para lhe quebrarem a teimosia.


“Se não vais a bem vais a mal”, gritaram-lhe enquanto o arrastavam pelo chão como se fosse um animal. “Ajudem-me”, pediu ele aos seus camaradas do Norte. Mas eles nada fizeram. Não mexeram um dedo. Apenas o Graça esboçou a sua indignação gritando aos guardas que camaradas não batem em camaradas. Os carcereiros riram-se-lhe na cara. Os outros prisioneiros limitaram-se a aconselhar-lhe calma. Ele assim procedeu. Não tinha outro remédio. Numa prisão, a prudência é a arma mais eficaz. A prudência e o silêncio. E também o respeitinho.


Atónitos, os camaradas do Norte puseram-se a conversar em surdina sobre o que acabavam de presenciar. O Graça era o mais indignado. “Não havia necessidade de lhe baterem! Camaradas não batem em camaradas”, insistiu. O camarada funcionário, ainda em exercício, pelo menos era isso que ele pensava, tratou logo de fazer o ponto da situação. “Levaram o rachado para averiguações. Quem trai o Partido, mais cedo ou mais tarde, acaba por ter de pagar o preço da traição.” Ao que o Graça retorquiu: “Como é que eles sabem que o José é rachado?” Fez-se silêncio no grupo. Perante a pertinência da pergunta, o camarada funcionário limitou-se a lembrar que o Partido tudo sabe e tudo vê. O Graça disse, virando-se na direção do aparente líder do grupo: “Com a verdade me enganas.” Ao que o camarada funcionário replicou: “Só a verdade é revolucionária.” “Um caralho, é o que é. A haver alguma verdade nisto tudo ela só pode ter sido apurada porque alguém deu com a língua nos dentes. Eu conheço o camarada José. Ele até pode não ser lá grande comunista, mas é um homem bom e íntegro. Não merece que façam dele um traidor. Ele nunca traiu ninguém…”


Todos olharam para o camarada Graça e acenaram com a cabeça em sinal de concordância. O camarada funcionário, vendo que a dúvida reacionária se começava a instalar na cabeça dos restantes camaradas, atacou: “Ele traiu o Partido.” “Como assim?”, duvidou o Graça. “Deixou de acreditar na revolução e no comunismo”, replicou o camarada funcionário.


De seguida sucedeu-se o seguinte ping-pong argumentativo, que nós transcrevemos, mas sem tomar posição, como mandam as boas regras da independência e da democracia. “E isso é traição?” “É o maior ato de traição que um comunista pode fazer.” “Duvidar não é trair.” “Ai não que não é. É sim senhor.” “Não é não senhor. Duvidar é tentar pensar para atingir a verdade.” “A verdade, uma vez atingida, não pode ser posta em causa. Pois se é verdade, nunca poderá vir a ser mentira.” “A verdade é relativa.” “Eu falo da verdade revolucionária. Essa é indesmentível, incorruptível e indestrutível.” “O comunismo é a verdade absoluta.” “Ou a mentira absoluta.” “Como te atreves a afirmar uma coisa dessas.” “Estou a tentar perceber e a tentar explicar aos camaradas presentes que tudo pode não passar de uma grande ilusão.” “Tudo, o quê?” “Pois, tudo. Tudo é tudo.” “Agora filosofas?” “Tento compreender.” “Queres compreender o comunismo?” “Não. Quero compreender a razão por que uma dúzia de camaradas que tentaram iniciar uma revolução armada numa terra onde o comunismo é, para a maioria das pessoas, um pecado mortal, foi presa, esbofeteada, trocada por prisioneiros reacionários do Sul e, quando chega a terras da liberdade e do socialismo, é feita novamente prisioneira e torturada…” “Torturada?” “Sim. Ou achas que a porrada que deram no José não passa de uma massagem corporal?” “Na minha perspetiva, aplicaram-lhe um corretivo porque sabem quem ele é e o que fez.” “E o que foi que ele fez?” “Renunciou ao comunismo e juntou-se a ladrões e assassinos.” “Isso é o que te dá jeito pensar.” “Todos somos testemunhas disso.” “Vês, tu já o traíste.” “O José é que se traiu a ele próprio.” “Tu é que traíste o grupo. Traíste a confiança que depositamos em ti.” “Limitei-me a fazer um relatório sobre a nossa atividade.” “Limitaste-te a contar a «tua» verdade.” “Ele traiu.” “Quem?” “O Partido.” “Mas não traiu os seus ideais.” “O ideal de um comunista é o comunismo.” “Então não é a verdade?” “São sinónimos.” “Então o ideal comunista é prender pessoas que lutaram pela libertação do seu povo.” “Não foi isso que eu disse.” “Mas é isso que está a acontecer.” “Não, o que está a acontecer é o apuramento da verdade. O Partido quer saber, e tem todo o direito de o fazer, se algum dos seus militantes o traiu. Uma maçã podre no meio de uma cesta delas sãs acaba por fazer com que as restantes apodreçam também.” “Nunca pensaste que a maçã podre podes ser tu?” “Como te atreves a insultar-me dessa forma. Eu sou um comunista puro, sincero e obediente…” “Lá obediente podes ser, agora puro e sincero…” “Para mim o Partido está acima de tudo. Até acima das dúvidas, da amizade e da própria família. Eu estou a tentar salvar-nos.” “Melhor será dizer que estás a tentar salvar-te. Afinal apenas conseguiste arregimentar onze comunistas, um deles «traidor e rachado», mais um maluco e um burro, que não conquistaram nada nem ninguém. A tua guerrilha foi uma desilusão.” “Não tenho culpa. As circunstâncias assim o ditaram.” “Olha que se calhar o traidor que eles verdadeiramente procuram és tu. Tu é que traíste a revolução ao deixares-te apanhar sem sequer disparar um tiro. Sem matar ou ferir um reacionário. Sem teres conseguido libertar um palmo de terra. Além disso, é bom que não esqueças que fomos vencidos por meia dúzia de reacionários que fizeram de nós prisioneiros utilizando apenas as mãos. Tens de reconhecer que só podemos ser motivo de galhofa. E de vergonha. O Partido vai fazer-te as contas.” “Eu fiz aquilo que me foi pedido e que as circunstâncias me possibilitaram. Eles sabem muito bem que o responsável pela derrota foi o José. Ele é que foi o traidor. Ele e, agora pensando melhor, tu também.” “Ou muito me engano, ou sinto que a nossa sorte está ditada. Mas olha que tu estás na mesma situação. Não te safas. Apesar dos teus relatórios, não te safas. A tua verdade não vence a verdade deles: a do Partido.”


Silêncio.


Desesperado, o camarada funcionário disse: “Proponho aos restantes camaradas que o camarada Graça seja também considerado traidor e rachado, à semelhança do rachado e traidor José.”


Mas em vez dos camaradas votarem a proposta, sentindo a porta a ranger nas dobradiças, olharam nessa direção e, para seu espanto e temor, viram entrar Jesus Cristo amparado após a sua via crucis


publicado por João Madureira às 07:45
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