Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

O Poema Infinito (163): o desígnio dos poetas

 

Os teus lábios embalam as palavras. Baloiças na minha nave ágil. Estou alerta. O meu canto afaga as ondas. As vagas erguem-se e rumorejam. Um sol ébrio ergue-se no céu como um titã. O silêncio é agora uma seta que incendeia o mundo. Frutos brilhantes vergam os ramos das árvores. As árvores ficam maduras. As estrelas luzem no céu. As praias ficam grisalhas. As sereias cantam e rezam. Os barcos ficam paralisados. O tempo revolve a água. Agosto ergue-se por entre os fogos que devoram as árvores. Anoitece. O céu fica da forma de porcelana. Os momentos tornam-se conscientes. Respiramos a alegria dos jardins e a eternidade do vidro. Fico irreconhecível. O desenho amado do teu corpo esbate a tempestade. Lembro-me de acordar quando os sinos ralhavam rasgando as manhãs de domingo. Os antigos campanários que ostentavam a sua antiguidade acolhiam as preces dos crentes. Todos aprendiam a violar as promessas. Os corações dos jovens ficavam embriagados. Os padres desmentiam as relíquias. A minha alma quebrava-se ao som dos sinos. As nuvens eram como corações vestidos. Deus revelava então o desígnio dos poetas. Os fantasmas exigiam os seus corpos. As palavras sagradas unem-se à carne. Os objetos tornam-se secretos. Todos esperamos pelo sinal redentor. O poeta tece um cordel de palavras. O medo infiltra-se no bosque e fica sombrio. Carreguei-o eu como uma cruz. Os pinheiros ficam assombrados. Na praia, as ondas murmuram espuma. És agora uma imagem imprecisa e ansiosa. Sussurro-te os nomes dos pássaros que voam em despedida. Atrás de nós a gaiola fica vazia. Na nossa frente, a nevoa é espessa. Este momento torna-se misterioso. Os caminheiros desenham novos caminhos com os seus bordões. Nos relógios bate a eternidade. Também sou agora um peregrino que canta a sua angústia enquanto caminha. Transporto no alforge fólios antigos e desbotados. O meu olhar desce em avalancha pela montanha. Apenas a música nos salva dos abismos. Tornaram-se inseparáveis o medo e a queda. O pânico fica vazio de sentimentos. Meço então o tempo e as naves de pedra e dentro dos templos penduro as estrelas com correntes. Penso no desígnio luminoso das abóbadas e dos arcos e na beleza dos templos mergulhando nos vitrais, que são agora janelas onde triunfa a luz. Arcanjos seguram a beleza das cúpulas. O edifício faz agora sentido dentro da sua redondez. Nele já triunfou a penetração dos séculos. Desvendo o peso bruto dos muros, o abismo racional dos pecados, o desvario das florestas ardidas, a timidez cristã das capelas, a alma gótica de Deus. Sonho um dia criar coisas belas e acreditar no peso malévolo da perfeição. Os crentes são arrogantes tímidos. Da minha boca saem cânticos que golpeiam o silêncio. Os sonhos são agora errantes. Os netos procuram os tesouros dos avós. Erguem a sua voz própria e, dentro da igreja, cantam em coro enaltecendo a beleza arqueada dos jardins, a altura divina das cidades, a nostalgia da verdade. Os pescadores morrem sentindo que a areia da praia esfria e proferem os nomes do tempo através dos tempos. O ar fica turvo, a água escura. Tomo nas minhas mãos a tua distraída alegria. Liberto a nau das suas amarras. Oiço agora as sombras da tarde e o que resta dos nossos beijos. As abelhas saem das colmeias e começam a zumbir no meio dos bosques entre a melissa e a hortelã. Ainda se alimentam de tempo. Depois fenecem dentro do seu júbilo doce. A noite cresce dentro da sua mágoa. E chora desenganada do mundo. A desilusão torna-se eterna.  


publicado por João Madureira às 07:45
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