Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013

O Poema Infinito (164): alma e fogo


Tolda-se-me o romantismo quando quase morro nos teus braços. Acaricio as mãos que sustentam o teu rosto. Tu és o futuro do meu passado. Os deuses, coitados, compram agora a sua glória. Os homens, felizardos, negoceiam a sua própria desgraça. Desventurados os que se sentem felizes. A vida é tão breve. Deus ungiu o seu filho para o matar. Afinal crucificou o seu mito, a alegoria do sol que abre os céus, a parábola de um deus vivo e de um filho morto. Depois entrámos na realidade e fecundámo-la. Vivemos agora dependentes desse instinto. Dessa encarnação ressuscitada. Dessa madrugada que precede a luz. Desse instinto confuso onde tudo começa a extinguir-se. O teu olhar desce sobre a terra e sobre os seus mistérios. Deus fadou-nos com a sua incerteza brutal, com a sua augusta imprevisão. Agora vigiamos o espírito inteiro da força que envelhece. As bênçãos são espadas. A noite escreve as lendas de um mito brilhante. Todos procuramos a beleza por achar no som presente a posteridade. A nossa alma é uma sombra eterna, um enigma que se encobre dentro do Santo Gral. O destino é uma inutilidade semântica. A terra fica fria. Pões-me as mãos sobre os ombros. A febre consome-me. Dentro de mim tudo vibra. A luz da calma e da inquietação sobe-me ao olhar. Divido-me entre o sentir e o querer. Divido-me entre o amor e o gládio. A minha alma é uma estrada estreita por onde passam palavras atrapalhadas. Abro os braços e o mundo varia, desço os olhos cansados na direção do teu rosto. O mar e os medos são anteriores a nós. Abre-se a terra expelindo cores e sons. As árvores do medo desembarcam. As aves sonham formas invisíveis. As flores ficam sós. O horizonte assume a sua perspetiva eterna de linha abstrata. Movimento-me dentro da tua esperança. Nessa distância imprecisa entre o amor e o tédio. Entre a expetativa e a vontade. Por mim escorre o medo dos átomos. Outros acharão o que eu procuro. A magia da evocação, a glória da história, o ato de deus, o gesto divino da criação, o destino das horas, a mão que desvenda a ciência da ousadia, o temporal da vontade humana, o acaso da luz e da sombra. Pelas montanhas ascende o silêncio sangrento da guerra. Toda a sorte é incerta. Deus projeta no céu a luz dos mártires. Sei agora que o mar não tem tempo. Por isso tenho saudades. Saudades da mão fria do vento, da ansiedade das brincadeiras, da hora adversa dos sonhos, da alegria densa de viver em casa, das brasas na lareira, das forças cegas que dormem ainda na penumbra das manhãs cinzentas. O mundo divide a luz. A tua voz chega-me afortunada e eu escuto-a como se fosse uma criança que mora onde o rei esperou pela sua coroação. Ele de gládio ungido revelando o Santo Gral e Excalibur. Eu dormindo ouvindo o som do mar, o som das ondas, o som dos intervalos da alma, erguendo as minhas asas de abandono. 


publicado por João Madureira às 07:45
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