Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

O Homem Sem Memória - 176


176 – Depois de mais alguns interrogatórios, e de a cela estar já com meia dúzia de cristos bem ensanguentados, alguns dos camaradas mais aflitos tentaram racionalizar a sua nova realidade e acertar com a estratégia.


Um dos mais audazes contou parte do seu interrogatório: “Tenho de confessar tudo?”, perguntei eu. Responderam-me primeiro com um murro nas trombas e de seguida falaram. “Tens. Se não ainda te batemos mais.” “Mas tudo quanto?” “Tudo o que sabes.” “Mas eu já contei tudo aquilo que sabia. Ou talvez até um pouco mais.” “Olhe que não.” E riram-se, os filhos da puta. “Tens de te confessar culpado.” “Ainda mais?” “Sim.” E continuaram a bater-me. Aí comecei a inventar culpas. Confessei-me de tal maneira que acho que se fosse o próprio Diabo, Deus me perdoava todos os pecados. Mas eles não. Eles continuaram a bater-me até eu desfalecer. Quando acordei sorriram para mim e disseram-me que por agora estava despachado. Explicaram: “Também te vamos confessar uma coisa.” E riram-se outra vez os filhos da puta. “Estamos cansados. E como é fim-de-semana os teus camaradas vão ter de esperar mais dois dias pelo seguimento dos trabalhos. Todos estamos necessitados de um descanso retemperador.”


Estava visto, por mais estratégias que combinassem, não acertavam com a correta. Por isso continuaram a confessar tudo o que sabiam, e que era pouco, como é do nosso conhecimento, e a levar porrada. A semana seguinte foi toda ocupada a gemer, a lavar as feridas e a meditar. Chegados à tarde de sexta-feira, apenas o camarada funcionário estava ainda incólume no seu físico e na sua mente. Por isso pediu para ir à tortura. Eles responderam-lhe que tinha de esperar até segunda-feira para saber o seu destino. Mas que não se preocupasse. Pois o seu destino estava em boas mãos. Nas sábias mãos do Partido.


“Veem camaradas”, disse ele virado para os onze cristos deitados nos seus catres, “afinal o Partido sempre conseguiu apurar a verdade. Eles sabem que sempre fui um militante acima de qualquer suspeita. Escusam de me olhar com esses olhos acusadores. Eu não tenho culpa de nada. Não fui eu que vos prendi, nem fui eu que vos torturei. Reconheço, no entanto, que talvez tenha havido da minha parte algum descuido organizativo e, quem sabe, também tenha existido alguma desatenção relativa a hipotéticos desvios ideológicos na organização. Mas não foram culpa minha. Eu cumpri sempre com o meu dever de revolucionário e várias vezes vos chamei à atenção. Sempre fui disciplinado. Tenho pena que vos tenham torturado para apurarem a verdade. Mas o Partido não pode transigir nos seus princípios e não pode fraquejar nos seus propósitos. Se o trabalho revolucionário falha a culpa tem de ser convenientemente apurada. E os culpados têm de ser identificados e devidamente julgados e chamados a assumirem as suas responsabilidades. O processo pode ter sido um pouco doloroso, mas foi profícuo. A partir de agora vamos todos poder ajudar a revolução imbuídos de um novo espírito revolucionário. O Partido pode ser um pai severo, mas apenas pretende o melhor para o nosso povo e para os seus filhos mais diletos. Faz tudo por amor. Amor ao próximo. Todos sabemos que o caminho para uma nova sociedade se faz de sangue, suor e lágrimas. Sabemos, ainda, que nem todos vamos poder chegar lá. Os melhores filhos da revolução, e os seus melhores intérpretes, são quase sempre sacrificados. Mas é dever de todo o comunista dar, se necessário for, a vida pela libertação do seu povo. Morrer em nome da revolução é um privilégio apenas digno dos verdadeiros comunistas. Não vos peço perdão porque não me sinto culpado de nada, mas, sobretudo, porque não sou católico. Vós, camaradas meus, fostes vítimas das vossas próprias dúvidas, fraquezas e incertezas. Sim, vós fraquejastes muitas vezes. E disso dei a devida conta à direção do Partido. Como nunca me disseram nada conclui que essas atitudes não punham em causa nem o Partido nem o trabalho revolucionário. Afinal parece que não era bem assim. Ou não foi bem assim. Pois uma coisa é trabalhar para conquistar o poder, e nessa tarefa todos somos poucos, outra bem diferente, é trabalhar para consolidar o poder e construir uma nova sociedade. Para combater a velha todos somos necessários. Construir a nova, é tarefa destinada apenas aos melhores. Vós fostes necessários para combater a velha, para eliminar as antiquadas estruturas sociais e ideológicas, para reduzir a escombros a velha sociedade burguesa e capitalista e os seus sequazes. Por isso vos presto a minha sincera homenagem. Mas, ao que parece, a nossa viagem em comum acaba aqui. No entanto podeis sempre contar com a minha amizade e também com o meu testemunho em vossa defesa. É isso que pretendo fazer quando for chamado a depor. Isto é, se for, pois, pelo que vejo, o meu testemunho não vai ser necessário para apurar a verdade. Essa já foi apurada através dos vossos depoimentos. Eu sei que, como bons e sinceros comunistas, apenas falastes a verdade. Pois só ela é revolucionária. Estou também em crer, conhecendo eu como conheço o Partido, que depois de apurada a verdade, vós, como companheiros da revolução, ireis ser reeducados e chamados a participar na construção da nova sociedade socialista. Podeis não chegar a participar nas estruturas de topo, mas numa sociedade de novo tipo todos vamos ser importantes. Uns a dirigir e outros a ser dirigidos. O verdadeiro comunista é o mais singelo e humilde soldado ao serviço da revolução. Ele não aspira a ser importante, pretende apenas servir o seu povo. Vendo o seu povo feliz, ele é feliz. Vendo o seu povo alegre, ele é alegre. Um comunista serve, não é dono nem senhor de nada nem de ninguém. Apenas é fiel à sua verdade. À verdade do partido. Um comunista sofre quando vê o seu povo sofrer. Um comunista sofre quando vê os seus camaradas sofrer. Eu sofro com a vossa situação. Custa-me ver-vos aí derreados de porrada, com esses olhos de sofrimento e desilusão, com essa vontade alquebrada, com essa cara de dúvida e raiva. Mas digo-vos que esse vosso sofrimento também é o meu sofrimento, também é o sofrimento do Partido. Todos sofremos. Mas o sofrimento igualmente traz a luz sobre a verdade, também revela a personalidade de cada um, a sua vontade e, até, a sua dedicação ao Partido. Se depois desta situação difícil e penosa por que estais a passar não puserdes nem a nossa ideologia comunista em causa nem o Partido em dúvida é porque sois verdadeiros revolucionários. Ou seja, isso define a vossa posição de revolucionários na nova sociedade que juntos vamos construir.


Na manhã de segunda-feira, o camarada funcionário foi chamada perante um camarada juiz e acusado de cobardia, deserção no combate revolucionário, desleixo organizativo, esquerdismo, seguidismo, direitismo, imobilismo, centralismo, regionalismo, imobilismo, fracionismo, trotskismo, fraqueza ideológica e responsabilidade acrescida nas inúmeras fugas de informação. 


O camarada juiz condenou-o, por isso, à morte por fuzilamento. No fim perguntou-lhe: “Considera-se culpado ou inocente?” Ele limitou-se a chorar. 


publicado por João Madureira às 07:45
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